Há uma pandemia que grassa por esse mundo fora e que contamina gente sem conta. Não passa um dia sem que a televisão nos mostre os seus efeitos debilitantes no espírito humano e o desacerto das acções por ela induzidas. Há nas suas consequências algo que faz lembrar acontecimentos passados, mas há também a irredutível novidade que é comum a todos os negócios humanos, onde o elemento da criação é constitutivo.

E não, não estou a falar do coronavírus, como terão percebido. Estou a falar de uma outra pandemia, que se poderia talvez designar por “sonambulismo”. Um sonâmbulo, com efeito, move-se e age sem consciência dos seus movimentos e das suas acções. Os seus actos não são uma consequência de reflexão ou deliberação. Possuem um automatismo que lhes é próprio e no qual se esgota o seu significado. Os tratados médicos asseguram-nos que não há cura para o mal. Ora, há uma forma de sonambulismo do espírito que em tudo se assemelha àquele de que a ciência se ocupa. O indivíduo fala e comunica com os outros sem verdadeiramente inquirir qual o pensamento que se encontra na raiz do discurso e da comunicação. A linguagem que utiliza não é o produto de uma escolha reflectida: está já ali à sua espera, pronta a ser usada sem praticamente intervenção criadora alguma daquele que dela se serve. O seu significado é imemorial e por inteiro repetitivo. E, uma vez entrado nesse mundo, o indivíduo só dificilmente pode ser acordado, e os episódios de sonambulismo espiritual tendem a repetir-se infatigavelmente, com uma monótona regularidade. Basta ouvir um telejornal para termos uma ideia do alcance desta pandemia, embora haja mil outros exemplos, eventualmente mais graves, que nos podem informar da sua dimensão e dos seus efeitos.

Diferentemente, no entanto, do sonambulismo de que se ocupa a medicina, há dois traços que merecem ser sublinhados no sonambulismo espiritual e que são menos discerníveis no outro. O primeiro tem a ver com a sua origem: o sonambulismo espiritual é, o mais das vezes, o resultado de um enfeitiçamento pelas palavras. As palavras, postas em circulação no interior de uma sociedade, apresentam-se com uma garantia mágica de veracidade que nos dispensa de qualquer inquirição sobre a justeza da sua aplicação ao real. Como se diria em tempos não tão remotos assim, somos pensados pelo discurso, somos um efeito da linguagem, não mais do que isso. Naturalmente, tal não só nos dispensa como nos interdita mesmo qualquer reflexão sobre o seu significado. Ele é-nos dado, pleno e indiscutível, pela própria existência da linguagem que nos enfeitiça. O sonâmbulo espiritual vive no interior de um mundo completamente fechado à abertura e à incerteza. O segundo traço que caracteriza a pandemia de sonambulismo espiritual é a mutabilidade do vírus em função de contextos culturais específicos. Diferentes culturas produzem indivíduos mais susceptíveis de serem enfeitiçados por certas formas de organização do discurso do que outras. O enfeitiçamento é o mesmo, mas o seu objecto pode conter variações sensíveis.

Mas tudo isto é, admito, demasiado abstracto, uma espécie de esqueleto sem carne. Convém dar exemplos, mesmo que tudo menos exaustivos. Um lugar tão bom como qualquer outro para começar é o recentemente tão badalado “discurso de ódio”, que a ministra do Estado e da Presidência Mariana Vieira da Silva quer, na sua linguagem, “monitorizar”. Não duvido por um instante que, quaisquer que sejam os interesses, particularmente censórios, do governo em levar a cabo tal “monitorização”, a ministra, tomada de sonambulismo espiritual, anda enfeitiçada por tal expressão, que lhe aparece dotada de uma realidade e de uma unidade mágicas e indiscutíveis. O “discurso de ódio” é, por assim dizer, uma substância perfeitamente identificável, sem ambiguidades. E uma substância nefasta que urge eliminar. Se lhe fosse dada a faculdade de reflectir, rapidamente descobriria a natural equivocidade da expressão e a sua inscrição num contínuo de que não é, salvo um caso ou outro, isolável, contínuo esse que comporta inúmeras variantes que nem a ela surgiriam como sinistros produtos da perversidade humana. Mas, aí está, como boa sonâmbula espiritual, a ideia não lhe passa pela cabeça. O “discurso de ódio” enfeitiçou-a.

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Outro exemplo: o “populismo”. Aqui o caso é ligeiramente diferente, no sentido em que o conceito é mais identificável do que o de “discurso de ódio” e a análise histórica da sua génese é possível dentro de limites razoáveis. O problema é, naturalmente, a sua extrema variedade, uma variedade que deveria proibir qualquer pretensão a uma utilização unívoca do conceito. Mas o sonambulismo espiritual, mais uma vez, não se preocupa com grandes subtilezas teóricas e aponta-lhe uma expressão única. Em Portugal, populismo é o de André Ventura e mais nenhum. Ora, não é necessário fazer um longo historial do conceito para constatar a pluralidade das suas ocorrências e a diversidade dos projectos que lhe subjazem. O que é que une os populares (Clódio ou César, entre outros), que, no fim da República romana, se opunham aos optimates, e cujo combate fornece o pano de fundo da excelente triologia sobre Cícero de Robert Harris – uma excelência que repousa, entre outras coisas, na formidável inteligibilidade para nós da vida política romana (compare-se com a Grécia antiga) – com o chamado poujadismo (de Pierre Poujade) que, nos anos cinquenta se opôs ao parlamentarismo da IVª República francesa? Há, é claro, elementos comuns discerníveis, mas eles navegam num oceano de diferenças. Mais próximo no tempo e mais junto a nós, o Bloco de Esquerda apresenta elementos perfeitamente identificáveis de populismo, para não falar do ministro Pedro Nuno Santos, que ilustra na perfeição aquilo que talvez se pudesse chamar “populismo de Estado”, caracterizado pela tentativa de persuadir a mais vasta clientela possível que apenas um Estado omnipresente donde surgem todas as benesses pode garantir a salvação da sociedade. Resta que, face a esta diversidade, o automatismo do sonambulismo espiritual contemporâneo escolhe caracteristicamente um objecto único como resultado do seu enfeitiçamento pela linguagem.

E não, isto não é apenas, nem sobretudo, uma consequência de opções ideológicas. A ideologia não é nunca completamente eliminável e é até um elemento dinâmico que nos pode ajudar a pensar e a reflectir. O sonambulismo espiritual obedece a uma lógica completamente distinta e tem exactamente por efeito a obliteração tão completa quanto possível do pensamento e da reflexão. A presente pandemia ilustra-o perfeitamente. Poderia continuar por páginas e páginas a dar exemplos. Mas toda a gente tem direito aos seus momentos quietistas, à maneira de Rui Rio, e, por razões patrióticas, o melhor é ficar por aqui.