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O antropólogo Claude Lévi-Strauss contava, num livro de entrevistas, que raramente ia ao teatro porque, quando ia, tinha a desagradável sensação de se ter enganado no andar do prédio onde vivia e de estar involuntariamente a assistir a uma discussão entre vizinhos. Ignoro por inteiro se as discussões que terá testemunhado entre os bororós do Mato Grosso, entre os quais viveu, lhe terão parecido mais toleráveis do que as dos seus vizinhos parisienses, mas, em todo o caso, é um sentimento que se compreende. Há, no entanto, que abrir algumas excepções.

Isto vem, é claro, a propósito das actuais disputas pelo poder nos partidos da direita. A opinião comum, tanto quanto percebo, é que essas coisas se deviam passar no recato do lar e não serem testemunhadas por estranhos. Pelo menos, a quantidade de vezes em que se falou por aí de “triste espectáculo” deixa-o fazer crer. Ora eu, que não sou sequer particularmente dado à coscuvilhice, tenho uma opinião diferente. Acho que as discussões entre os nossos barulhentos vizinhos dos partidos – excepto, por respeito pela tradição, os vizinhos do PCP – devem ser bem ouvidas em todo o prédio. Não para, com um arzinho de superioridade, conhecer os costumes dos selvagens, mas para tentar perceber o que eles querem fazer connosco. Por mim, quanto mais alto berrarem, melhor.

É por isso que tenho seguido com interesse as discussões no PSD entre o vizinho Rio e o vizinho Rangel. Não é nada de pessoal. Não tenho nenhum sentimento exagerado por relação a nenhum deles, nem amores nem desamores. Só quero mesmo saber, como disse, o que é que eles querem fazer de nós. É só por isso que os ouço e que vou ouvindo também o que os outros vizinhos deles pensam.

O vizinho Rio, desde que cá chegou, declarou muito alto que andávamos todos a precisar de um “banho de ética”. Houve gente aqui no prédio que apreciou esta preocupação com a higiene, achando que uma parte da vizinhança não prima pelo asseio e que a solução sugerida afastaria de si os mais pútridos miasmas. A imagem, no entanto, não me parece particularmente feliz. Os banhos limitam-se a tratar da aparência e não consta que os mais eminentes estóicos aconselhassem os cuidados de higiene corporal como a via real para a virtude. Para esses sábios esquisitos, a alma não ia a banhos. A terapia, a haver terapia, teria de ser outra, nitidamente menos aquática. “Banho de ética” não parece assim uma expressão muito lógica. Parece mesmo, se me é permitido, provir de uma confusão de elementos de natureza muito diferente. Mas admitamos que foi uma coisa que lhe saiu no calor da discussão. Quem é que, numa conversa exaltada, não diz um disparate aqui e ali?

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Mas, comentam os vizinhos mais adeptos da doutrina da higiene exterior da alma, o vizinho Rio é, além de tudo, o paradigma da honestidade, e, por isso, o homem destinado a pôr o prédio em ordem. Mas também aqui parece haver um problema. É que a honestidade é o mínimo que se pode exigir a alguém. Normalmente, um elogio tem de subir um patamar ou dois: uma visão para o futuro, um projecto sólido e realizável, qualquer coisa assim. Ficar-se pela honestidade não parece suficiente para justificar um entusiasmo imoderado. Imaginem, por exemplo, e peço desculpa por estar ainda sob o efeito da teoria do banho, que alguém confessa a um amigo a sua desmesurada paixão por uma senhora e que conclui o seu devaneio lírico com a confissão da sua razão última para tanta elevação sentimental: “Ela é muito asseada!”. Não parece o cúmulo do romantismo, pois não? Quando eu era pequenino, era o que as donas de casa, para falar como na altura se falava, diziam umas às outras para aconselhar uma empregada doméstica.

Mas, enfim, tudo isto é o menos. Nas discussões do andar do PSD, ouve-se muito o vizinho Rio dizer que quem manda ali é o centro-esquerda e que a direita, se quiser continuar a lá viver, tem que enfiar isso muito bem na cabecinha. Há um vizinho muito enérgico que aplaude sempre estas tiradas e que logo saca do baú provas inúmeras de que sempre assim foi, excepto na altura em que um movimento de ocupação selvagem tomou conta do andar e deu cabo de tudo, com a pérfida intenção de mandar o prédio abaixo. Mas há vizinhos que não estão de acordo. Lembram-se até que, quando o PSD se mudou para lá, os vizinhos de esquerda lhe chamavam “fascista” por dá cá aquela palha. Nesses tempos conturbados, que coincidiram com uma altura em que toda a gente andava a aprender uma linguagem nova, e que usava e abusava, com grande boa fé, das palavras que ia aprendendo, é verdade que, no andar, se usavam algumas das expressões da moda. Mas a vizinhança de esquerda nunca teve dúvidas que as palavras que ali eram ditas não tinham o mesmo significado que ela lhes atribuía. Isso era evidente para toda a gente. De resto, convenhamos, seria estranho que um prédio inteiro fosse habitado apenas por pessoas de esquerda. Eu sei que há prédios onde isso aparentemente aconteceu e outros onde continua a acontecer, mas não parece que estejam em muito bom estado e que as pessoas apreciem grandemente lá viver. Por isso, parece-me que o vizinho Rio anda enganado.

O vizinho Rangel só recentemente começou a ser ouvido. Parece uma pessoa que não se irrita muito, o que é uma qualidade apreciável. Não grita nem tem as ambições banhistas do vizinho Rio. Nunca ninguém o ouviu a proclamar-se campeão de todas as virtudes e a decretar que os jornalistas devem ser postos na ordem. Além disso, não vive na ilusão de que toda a gente no prédio é de esquerda nem crê que ser de direita seja um desvio contrário aos bons costumes. Em suma, é um vizinho simpático, de bons modos, e que parece íntegro, sem sentir a compulsão de gritar a sua integridade pelos andares todos. Se houvesse uma competição para escolher vizinhos, escolhia-o a ele.