Começo por uma história que um aluno universitário partilhou em aula, quando estávamos a trabalhar matérias ligadas ao impacto e eficácia do feedback. A ideia era contar casos concretos de bom e mau feedback, dado ou recebido, para reforçar a consciência da importância de ser construtivo e resgatador, por oposição a destrutivo e devastador.

– No meu último ano no liceu todos os alunos foram à viagem de finalistas menos eu por causa de um processo disciplinar em que realmente me portei mal. Foi uma das experiências mais duras da minha vida, mas o meu pai teve um gesto que nunca esquecerei.

– O que é que aconteceu?

– Sei que merecia um castigo, mas achei-o desproporcionado. Uma viagem de finalistas é irrepetível e ser deixado para trás, ficar de fora é humilhante. Não só não podemos viver aqueles dias com os nossos amigos, como depois também não suportamos ouvi-los contar como foi.

– E o teu pai concordou?

– Não sei se concordou, mas soube de todo o processo porque foi chamado à escola. Nesse dia eu cheguei a casa com a certeza de que o pior ainda estava para acontecer, porque a escola já tinha dado o castigo máximo, mas os pais, em casa, normalmente também castigam e não é pouco. Acontece que o meu pai me salvou para sempre.

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– Como?

– Cheguei a casa e o meu pai chamou-me para uma conversa séria, que até achei intimidante. Sentei-me para ouvir o pior, mas o meu pai olhou para mim em silêncio, viu o estado em que eu estava, completamente desesperado, e disse a única coisa que eu não esperava que ele fosse capaz de dizer.

– O quê?

– Soube o que fizeste e o castigo que te aplicaram. Sei como te estás a sentir porque na tua idade também fiz a minha viagem de finalistas. Mas sei que não te posso reduzir à tua falha. Foste castigado e eu não te vou castigar mais. Sei que vales muito mais do que o teu erro e tenho a certeza de que vais aprender com tudo isto.

A turma inteira ouviu este relato em absoluto silêncio. E o aluno em questão concluiu:

– Aprendi imenso, mas acima de tudo senti que o meu pai não desistiu de mim e isso ajudou-me a recuperar do choque de ser impedido de fazer aquilo que mais queria, que era ir à viagem de finalistas. E fez com que não ficasse no fundo do poço, revoltado e desanimado.

Parece simples demais, não parece? Diria que quase soa a ficção, assim como um filme de ‘bonzinhos’, mas neste e noutros casos a realidade ultrapassa a ficção. Poucos de nós, pais, teríamos a coragem, o discernimento, a calma e até a liberdade interior para nos sentarmos com um filho prevaricador e dizer-lhe, olhos nos olhos, que ele vale mais do que a sua falha.

A inclinação natural de mães e pais é carregar ainda mais as tintas do castigo e esperar que os filhos aprendam a lição a partir dessa dupla punição. Acredito que em certos casos seja preciso reforçar em casa a orientação dada na escola, mas acredito ainda mais no poder resgatador de um feedback verdadeiro, realista, claro e construtivo.

A compreensão é a maior força de mudança. E a confiança gera sempre mais confiança. Sei, observo e não me canso de repetir que é uma matemática infalível. Quando aquele pai disse ao filho que sabia o que ele estava a sentir, estava também a dizer-lhe que, embora ciente de tudo o que se passou, continuava a acreditar nele. Compreendia-o na sua mágoa, mas porque o conhecia bem, não cedeu à tentação de também ele o condenar. Fez melhor: responsabilizou-o e elevou a fasquia quando sublinhou que sabia que valia muito mais do que as suas asneiras e desvios.

Não reduzir o outro à sua falta, ao seu erro, ao seu disparate, à sua imperfeição ou à sua limitação devia ser uma regra de ouro para todos, mas em especial para pais e professores, educadores e tutores que apostam no desenvolvimento de crianças e jovens. Reduzir alguém à sua expressão mínima é uma estratégia de desgaste, incrivelmente falível. Raramente resulta.

O meu aluno falou deste diálogo com o pai como tendo sido o momento mais transformador da sua vida. A partir daquela conversa, disse ele, tudo mudou dentro de si. Não fez a viagem, é certo, mas uma maior consciência de si mesmo e do impacto das suas ações nos outros teve consequências resgatadoras.

Tenho admiração por pais e mães que não dão aos filhos o que eles merecem, mas sim o que eles precisam. Mães e pais que salvam os filhos do plano inclinado do desânimo, que os resgatam para a vida e os ajudam a encontrar um propósito.

Muitos jovens precisariam de ter pais destes por perto. Uns porque se sentem frustrados, outros porque andam ‘à toa’, outros porque não tem amor-próprio nem motivação, outros ainda por serem vulneráveis a más companhias ou à pressão dos pares. E por aí adiante.

Conheço muitos rapazes e raparigas que se sentiriam muito melhor consigo e com a vida se tivessem tido a sorte que este meu aluno teve. Estou a pensar em casos concretos de adolescentes com perturbações alimentares, com problemas de saúde mental, com depressões e outros problemas que os levam a limites irremediáveis como chegar a perder o sentido de vida.

Este aluno prestou um serviço incalculável à turma quando partilhou este episódio familiar. Fiquei com admiração pela coragem de assumir publicamente o seu erro e percebi de onde lhe vinha a confiança e a força para a partilha. Abençoados pais que não reduzem os filhos às suas falhas e os ajudam a voltar ao caminho. Abençoados pais que não vão à escola pedir que retirem o castigo aos filhos, mas também não lhes impõem uma segunda condenação. Abençoados pais que sabem que tudo se joga na confiança.