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Subi à montanha, para respirar um pouco de ar puro. Não subi realmente, subi em imaginação. Para mal dos meus pecados, estou pregado ao Porto. Mas a imaginação sempre pode fazer alguma coisa. Neste caso, ela foi-me inspirada pela sua velha ajudante, e, por vezes, inimiga, a memória. Mais precisamente, pela memória de um livro lido na adolescência, que, sem nunca verdadeiramente o ter relido, sempre me acompanhou. Não é um livro imenso, mas é um livro com qualidades. E deve ter sido um livro certo lido na altura certa.

O seu autor é o escritor beat Jack Kerouac e chama-se The Dharma Bums (na tradução portuguesa, a que li, Os vagabundos da verdade). A parte de que me lembro melhor é aquela em que Ray Smith (o próprio Kerouac) vive solitário, durante um Verão, como guarda florestal numa montanha dos Estados Unidos. Bebe e escreve poemas influenciados pelo budismo zen, a versão japonesa do budismo chan dos chineses, ele mesmo, como se sabe, originado pelo budismo indiano. A influência budista vem-lhe do seu amigo Japhy Ryder. Japhy Ryder não é senão o grande poeta beat Gary Snyder, igualmente tradutor de uma das joias da poesia clássica chinesa, Montanha Fria, de Han Shan, o lendário poeta chinês do século IX (Han shan significa precisamente, em chinês, “montanha fria”, o nome do poeta confunde-se com o do objecto da sua poesia). A Montanha Fria descreve a vida de um eremita na montanha, com as suas dificuldades e a sua felicidade. Nada tem a ver com a célebre Ascensão ao Monte Ventoso, de Petrarca, que é, antes de tudo, a narração de um processo espiritual – e, por isso, o seu valor em nada fica diminuído pelo facto de alguma erudição contemporânea notar que é pouco verosímil que alguma fez Petrarca tenha de facto procedido à ascensão física do monte. Na Montanha Fria há, de forma muito vivida, frio e pedras que servem de almofadas à cabeça e toda a espécie de problemas do dia-a-dia – e a felicidade que acompanha tudo isso. Não é surpreendente que The Dharma Bums seja dedicado a Han Shan.

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