As Ciências Exactas estudam o mundo natural e a História estuda o Passado do Homem, ou seja, tudo o que os homens e mulheres já fizeram. É uma disciplina total que vai buscar conceitos a todos os campos do saber para melhor nomear e descrever os objectos de estudo. Foi com a História que me deparei com sucessões de vidas de homens e de mulheres que mais não são que letras no papel.

Os vistos como mais interessantes, normalmente por terem tido mais poder ou influência, podem ter sido alvo da observação dos contemporâneos e posteriormente, por eles, por escrito, nomeados, descritos, classificados, pensados. Foucault acertou na muche. Nada mais se pode observar além do visível e nada se pode dizer que não esteja contido nas palavras que a língua dispõe. A uma namorada, pode-se chamar inteligente, esperta, gira, bela, bonita, linda, descrever os olhos, conceptualizar padrões comportamentais. Talvez, surja a pergunta: “Sou mais ou menos gira que a Joana?” e aí poderemos comparar as características… os conceitos, as palavras que atribuímos a cada uma.

Descrevemo-nos por comparação. Comparamos vidas, pessoas únicas, tão únicas como eu. Sem a comparação não se descreve uma pessoa como “inteligente”. Normalmente, é com o desempenho escolar, por haver uma turma, que uma pessoa é chamada de “inteligente” ou de “burra”. Não é uma característica ontológica mas é o que é possível expressar. Assim, sabemos que a nossa comunicação funciona por signos e tem claros limites. Pela descrição, não é possível apreender a totalidade de uma pessoa ou de uma coisa. Mais, as palavras ressoam de forma diferente em cada um. Se eu tentar colocar em palavras um sofá que tenho em casa e disser que é verde, certo é que o ouvinte ou leitor recorra da imagem de um sofá mais presente na sua cabeça e que o procure esverdear. Emitimos sons, palavras, signos e não a realidade.

Sendo rigorosos, na História, como na vida, não há Progresso nem Regresso, não há ciclos, nada se repete. Há apenas o Presente, memórias e expectativas. Até aqui, tenho menorizado as palavras mas, no nosso eterno Presente, é tudo o que temos. Sem elas há uma solidão imensa porque, afinal, há comunicação, ainda que limitada aos signos de que dispomos.

Todas as pessoas olham a morte, sentem falta de sentido na vida, têm crises existenciais. Há um lado espiritual em cada um e não faltam diversas práticas espirituais e religiões, respectivas liturgias, para lhe pôr cobro.

Na História, observa-se que na Europa, os evangelhos tiveram um efeito tremendo em imensíssima gente. Meras palavras descritivas. Não sei como é possível não ficar estupefacto ou, pelo menos, curioso. Houve pessoas concretas, como os Padres do Deserto, que tiveram o socioeconomicamente incompreensível comportamento de se afastar da sociedade para rezar e meditar, tentar chegar a Deus. Terão tido todos distúrbios psicológicos? Será uma consistente fuga de pessoas condicionadas por uma educação cristã extremada? O que é uma educação cristã extremada? Não pretendo responder a estas questões mas reconhecer que, aqui, as palavras que nos chegam, como chegaram aos referidos Padres, são signos de algo extraordinário. Ainda assim, há que notar que o que mexe verdadeiramente com a sensibilidade humana não são as palavras por si só mas sim as pessoas que alteram drasticamente as suas vidas com práticas ascéticas.

A fé é passada pelo exemplo e pelo contacto entre as pessoas e isto quer dizer que ela foi sendo passada em cadeia ao longo de várias gerações até ao nosso Presente. Não é fácil conceber que um acontecimento histórico tenha tais repercussões até aos dias de hoje. Parece absurdo. É um choque e se deste choque de alguma maneira surgir a fé, a História ganha um sentido poético, passa a poder ser meditada como se o Novo Testamento nunca tivesse parado de ser escrito e, assim, quando se olha para trás, cada acontecimento passa a ser um episódio da busca dos homens por Deus.