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Sete e meia da manhã. A rua tinha uma estranha quietude, ouvi o chilrear tímido dos pardais e respirei fundo ar fresco. Sabia que, nas horas seguintes, respiraria em primeiro lugar o meu próprio ar expirado por detrás da máscara.

Ocupei o meu lugar de triagem no serviço de urgência. Sinto os dias absurdamente iguais. Vesti o equipamento de protecção por cima da farda habitual. Não gosto da viseira, escolhi os óculos de mergulho, parecem-me mais adequados ao mergulho no mar de incerteza em que todos estamos. Touca verde na cabeça, máscara bico de pato branca, óculos de plástico por cima dos meus, bata azul impermeável, luvas boas para amanhar peixe e outras por cima, assim me descrevo, criatura esquisita de filme. Sou um ser empacotado, preso à vida por elásticos. Tenho comichão no nariz e não devo coçar, mas coço. Às vezes tenho fome, outras vontade de fazer de ir à casa de banho, mas não devo sair do equipamento antes de quatro horas, temos de poupar, há pouco material de protecção.

Vive-se um tempo de desconfiança e qualquer pessoa com doença dita normal é suspeita de Covid — a simples cefaleia pode ser um prenúncio de febre. E depois há aqueles que, ainda jovens, vêm pelo seu pé com a típica falta de ar que nem valorizam, e, duas horas depois, são desligados da vida para serem ligados à máquina.

A saúde mental das equipas está frágil, vigiamo-nos uns aos outros para ninguém cometer erros. Estamos tensos, às vezes zangamo-nos, outras choramos. Poucos, muito poucos, mantêm a serenidade e o bom humor. O medo reina todos os dias. Neste tempo bizarro sentimos ameaça permanente do ar que respiramos e do pão que comemos. Vive-se em estado limite, qualquer hora é hora de morrer, e aqui, no hospital, pouco importa se estamos do lado de cá.

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Que pensar sobre a dimensão humana de tudo isto? Como manter o equilíbrio e a sanidade? Nesta situação, e em qualquer outra, não existem estratégias avulsas tipo penso rápido. Cuidado com motivadores compulsivos que vendem dicas anti-stress que tendem a causar stress. A pandemia coloca a todos a possibilidade do fim e pede uma posição face à vida e à morte.

O sentido da existência é hoje uma questão de maior relevo na sociedade habitualmente distraída em materialidades e excessivamente preocupada com a imagem. Ora a morte sempre existiu e aqui esteve bem perto, apesar dos esforços que fazemos para esquecer o facto. Esta consciência abranda euforias e torna a vida ainda mais extraordinária pela valorização de cada segundo, de cada dia, de cada olhar, de cada abraço. Foi necessário um vírus letal para que muitos dessem pelo ar que respiram, pela terra que agora não podem percorrer, pela natureza que não sabem desfrutar.

Confinar-se é confrontar-se consigo mesmo, e pode ser surpreendente pela constatação de características desconhecidas. Uns identificarão novos talentos, outros novas forças, mas muitos encontrarão um imenso vazio e terão dificuldade em lidar com a própria mesquinhez. É necessária visão crítica da vida com a verdade “nua e crua”, mesmo que faça doer.

“Vamos vencer”. “Vamos todos ficar bem”. Palavras de ordem verbalizadas em cima do sentimento do “salve-se quem puder”. Sejamos verdadeiros, nem que seja uma única vez. Em primeiro lugar, o que todos querem é salvar a própria pele e dos seus. Mas, desconcertante ironia, para que isso aconteça é preciso tratar dos outros, protegê-los e vigiá-los, não pelo seu bem, mas pelo nosso.

Aqui se aprende pela negativa – o bem-estar do outro é essencial para o meu próprio bem-estar. Não somos pois bons rapazes, está em causa o sentimento primário de sobrevivência mesquinho e torpe, se não estiverem presentes os valores da existência que nos tornam humanos.

Há palavras romanceadas, gritos de guerra ao vírus, tentativas medíocres de tirar partido da situação, posicionar-se, obter ganhos, e sair na frente quando a crise acabar. Não nos deixemos manipular por falsos profetas. Este é um tempo de espera e autoconhecimento. Não voltemos depois às nossas “vidinhas” ainda mais egoístas, com fome de tudo, a açambarcar o que se puder para enfrentar novos vírus. Sairão mais fortes aqueles que aproveitarem este tempo para incrementar o seu potencial.

Darwin diria – desenvolva as suas capacidades de adaptação e a selecção natural fará o resto…