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No dia 2 de Março fez um ano que foram confirmados os primeiros dois casos de Covid-19 em Portugal.

É impressionante como depois de mais de 16 mil mortes registadas no nosso país, com decisões controversas, tardias, correndo quase sempre atrás do prejuízo, ainda conseguimos ouvir entrevistas dadas por responsáveis do Governo, afirmando que falharam pouco na estratégia de combate à pandemia.

Tiveram todo o tempo de mundo para prevenir todos os males que acabámos por sofrer, bastando copiar os modelos de sucesso de combate ao vírus. Vamos ver, ponto por ponto, os motivos que levaram Portugal para as primeiras páginas dos jornais:

1. Deixaram entrar todos os turistas em Portugal, sem verificarem a temperatura corporal. Esta medida poderia ter detectado 30% a 40 % dos casos positivos de Covid-19 em Portugal. Teria sido um método importante de rastreio naquela fase em que os turistas italianos entraram sem qualquer tipo de controlo e espalharam o vírus em muitas cidades portuguesas.

Não poderíamos ter evitado mais casos ?

2. Não aconselharam o uso de máscara social no início da pandemia, uma vez que apenas possuíam máscaras cirúrgicas que foram reservadas para os profissionais de saúde na linha de frente. A sua utilização foi aprovada muito tardiamente, primeiro em recintos fechados e só depois em espaços abertos. Muitos casos de infecção surgiram por falta do uso de máscara. Os turistas que vinham a Portugal provenientes de países com grande incidência de Covid-19, os próprios portugueses que enchiam o metro, autocarros, comboios, entre outros meios de transporte, fizeram disparar os números de doentes com Covid.

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Não poderíamos ter evitado mais casos?

3. Com as primeiras publicações científicas sobre a prevalência da infecção em pessoas mais velhas e com défices imunológicos, qual teria sido a primeira medida que os responsáveis políticos e de saúde deveriam ter tomado? Teria sido a protecção das pessoas idosas, nomeadamente as que vivem em lares. Esta orientação seria a mais lógica. Mas não foi! Aconselharam as pessoas a visitarem os lares. Sem máscara, sem testes. Sem nada! O que vimos depois, foi a morte em catadupa dos idosos!

Não poderíamos ter evitado mais casos ?

4. O confinamento que teve 52 exceções foi decidido de uma forma tão precipitada, que em pouco mais de 48 horas as regras foram alteradas. Deixar abertas as escolas com quase três milhões de pessoas envolvidas, numa fase de subida vertiginosa dos casos, foi mais um erro dos nossos governantes. É melhor um confinamento a sério em que pare quase tudo, para quebrar o ciclo de contágio na população, do que fazê-lo aos soluços, do género “um dia fecho eu e outro dia fechas tu”! Quantas pessoas ficaram infectadas à conta desta decisão imprudente?

Apostamos no confinamento e bem na primeira vaga, com bons resultados, dos melhores na Europa. Facilitámos na segunda vaga, porque os políticos e a população esqueceram-se que estávamos em plena pandemia. O que aconteceu na terceira vaga foi um dos maiores pesadelos da história de Portugal, com facilitismo total nas medidas sanitárias e decisões completamente naïfs dos principais governantes. Alguém poderia acreditar, que em pleno pico de casos e mortes por Covid-19 antes do Natal, o Governo e o próprio Presidente de República iriam deixar que os portugueses festejassem aquele dia e os seguintes em família, implicando deslocação de milhares de pessoas entre concelhos? Aliada a esta infeliz decisão, apesar de ter sido dada com as melhores das intenções, ninguém se lembrou que a variante britânica, anunciada ao mundo em 14 de dezembro, iria chegar a Portugal em velocidade de cruzeiro, com a visita de milhares de britânicos durante aquele período? As primeiras informações apontavam para maior grau de contagiosidade desta variante. Ninguém sabia, ou a informação foi subvalorizada? E para agravar mais a situação, as fronteiras continuaram abertas enquanto se registava um aumento de número de casos de forma exponencial em países europeus.

Muitos novos casos surgiram a seguir, com mortes diárias nos hospitais do país, que levaram os profissionais de saúde à beira de um ataque de nervos e burnout físico e mental.

Não poderíamos ter evitado mais casos?

5. A melhor forma de controlar e parar a propagação do vírus é quebrando as cadeias de transmissão. O meio para concretizar este objetivo, é testar em massa a população e os contactos dos casos positivos. Não foi esta a orientação, apesar da insistência de muitos profissionais de saúde e da própria OMS. A maior parte dos doentes infetados por Covid-19, pode testemunhar que muitos dos seus contactos próximos não foram testados. E não testando, era impossível quebrar a referida cadeia e, consequentemente, mais e mais casos foram sendo registados.

O que foi decidido em relação aos turistas, é um exemplo de desordem . Os que não traziam o teste feito poderiam fazê-lo até ao quinto dia! Quem os controlava depois de saírem do aeroporto? Se fosse negativo à entrada, não precisava de ser repetido às 48 horas e ao quinto dia? Por ausência de testes e falta de controlo dos turistas, quantas pessoas foram infectadas? Agora querem fazer 100 mil testes por dia! Porque só agora e não há meses?

Não poderíamos ter evitado mais casos?

6. Turistas provenientes de países com muitos casos positivos e com variantes mais contagiosas e resistentes, não deveriam cumprir quarentena após a entrada em Portugal? Sem quarentena, sem testes ou com testes até ao quinto dia, quantos novos casos surgiram?

Não poderíamos ter evitado mais casos?

7. Fechar a fronteira com a Espanha foi uma medida importante, bem com limitar a entrada e saída de pessoas do país. Mas estas medidas foram tardias, uma vez que a entrada, no Natal, de um número apreciável de britânicos e de outros turistas fizeram disparar o número de casos infectados com a variante britânica, tornando-a prevalente em mais de 50% dos doentes portugueses.

Não poderíamos ter evitado mais casos?

8. As vacinas estão a chegar a conta-gotas, fruto das negociações entre a União Europeia e os laboratórios de referência. Prometeram o fabrico de milhões de doses, mas o cumprimento na entrega das mesmas tem sido uma miragem. Uns países podem ter doses em maior número do que a própria população. Em contrapartida, outros ainda não tiveram direito à primeira dose e ao aparato dos media, como no caso português.

Como se isto não bastasse, a escolha do grupo prioritário tornou-se num pesadelo para o Governo e para a própria população. A mudança de estratégia quase de noite para o dia apenas contribuiu para o desacreditar da população, já de si pouco convincente das medidas do Governo. Com a planificação adequada em relação à distribuição das vacinas, tudo seria diferente. Uns foram inoculados sem indicação e outros ainda não foram vacinados por falta de vacinas ou porque estas foram desviadas, não seguindo as orientações. E nesta confusão instalada, será que mais pessoas ficaram infetadas?

Não poderíamos ter evitado mais casos?

9. Quando um responsável aparece na televisão ou noutro meio de comunicação social, antes de responder a qualquer pergunta do jornalista sobre se errou durante este ano de pandemia, convém puxar pela memória e pôr a mão na consciência antes de responder. Milhares de portugueses não poderão passar uma esponja num passado recente tão doloroso para as suas famílias que perderam os seus entes queridos e que em muitas situações nem puderam estar presentes no seu último adeus.

10. É preciso não esquecer nunca o que se passou neste último ano, reconhecer os erros com humildade que, infelizmente, tem faltado muitas vezes, tomar medidas técnicas apropriadas e na hora (não após meses) e atuar combatendo o verdadeiro inimigo com coragem e confiança na vitória.