Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Em 2017, comecei a aprofundar o tema da sustentabilidade, como as ações individuais podem afetar o ambiente e, por muito tempo, concentrei todo o meu tempo e trabalho para viver e promover a redução do desperdício e estilos de vida de baixo impacto ambiental. Chegou 2020 e para mim foi um ano de desaprender e reaprender tudo o que sabia sobre ambientalismo por meio de uma lente de justiça social. Fácil? Nem por isso, mas bem necessário.

Existem muitos sistemas de opressão que têm de ser abordados quando falamos de justiça climática (por exemplo, direcionados ao género, identidade religiosa ou orientação sexual), mas hoje, neste artigo, queria partilhar alguns pensamentos sobre a ligação entre racismo e crise ambiental e também sobre a importância de sermos aliados de grupos oprimidos.

Diariamente ouvimos falar de sustentabilidade, não é? É um termo que se tornou quase imperativo para empresas e projetos que queiram sobreviver às novas gerações de preocupados com o futuro do planeta. Mas já ouviram falar da forte relação da sustentabilidade com o racismo?

A sustentabilidade tem três pilares, dois deles são o ambiental e o social, e enquanto o meio ambiente e as pessoas forem afetadas e exploradas pelo racismo, a sustentabilidade não pode existir.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A ideologia do racismo centra uma raça (grupo distinto de pessoas com base em características como aparência física, principalmente cor de pele, ou herança ancestral, afiliação cultural, entre outros) e posiciona-a como superior e como a norma. No passado, os colonos brancos europeus usaram esta ideologia para justificar a degradação da terra, a escravidão das pessoas, o roubo de recursos naturais e o genocídio dirigido a pessoas negras ou indígenas no mundo inteiro. Hoje, o racismo ainda está muito enraizado nas nossas instituições e sistemas de crenças, mas é essencial lembrarmos que num planeta sustentável não há lugar para o racismo, pois mantém sistemas de dominação.

Outro exemplo de dominação é a lógica política e económica extrativista que está na base do nosso sistema e que pretende extrair o máximo de proveito dos recursos naturais do planeta e da mão-de-obra para esta tarefa. Em 2020, o Dia da Sobrecarga da Terra (data em que a humanidade usa todos os recursos biológicos que a Terra pode renovar durante todo o ano) assinalou-se a 22 de agosto, sinal que temos que modificar profundamente a forma como produzimos e consumimos. A força de trabalho que produziu a atual riqueza global, resultado deste extrativismo, alavancou-se na escravatura e continua, no presente, a promover uma mão de obra que é, na sua maioria, composta por pessoas racializadas.

A destruição ambiental e as alterações climáticas são causadas por sistemas de dominação e opressão como o racismo e esta ideologia de que os humanos são superiores ao ambiente natural. Nós não somos. Assim como brancos não são superiores, ou especiais ou têm maior dignidade do que qualquer outra pessoa de cor de pele mais escura.

Existe um claro sistema estrutural que beneficia os brancos em detrimento dos outros e é necessário agir e lutar contra esta discriminação. Sim, porque o racismo não é um problema só dos Estados Unidos; não podemos continuar a apontar o dedo fora de Portugal, sublinhando que o racismo aqui é mais leve. Achamos que é aceitável confrontar as pessoas e chamá-las à atenção apenas quando os atos de racismo são “óbvios”, mas o racismo nem sempre aparece em linchamentos ou brutalidade policial. Temos que chamar à atenção para todas as pequenas opressões, das que acontecem nos campos de futebol, às que não são percetíveis a todos, mas que são sentidas pelo grupo marginalizado. Temos que ser aliados. Ser aliado significa apoiar um grupo diferente do próprio (em termos de identidade racial, género, identidade religiosa, orientação sexual, etc.), reconhecer a desvantagem e a opressão do outro grupo, neste caso específico, o grupo de pessoas racializadas, assumir riscos e ações de apoio em seu nome, comprometer-se a reduzir a própria cumplicidade na opressão deste grupo e investir no fortalecimento do próprio conhecimento e consciência da opressão. Temos que ser antirracistas.

Sem justiça racial, não pode haver justiça climática. A crise climática é construída sobre a exploração – ambiental e social – e não vamos conseguir resolver esta crise enquanto mantivermos sistemas de opressão, como o racismo. Se não estivermos a combater e a resistir à opressão, continuaremos em crise, talvez com nuances diferentes comparadas à de agora, mas com uma estrutura semelhante, enquanto que para realmente resolver a atual crise climática, temos que ir às raízes do problema, onde encontramos sistemas de opressão e exploração.

Anna Masiello tem 27 anos, é italiana e fez um mestrado em Lisboa em Estudos do Ambiente e da Sustentabilidade no ISCTE-IUL. É empreendedora e ativista ambiental, com foco no tema do consumo consciente, justiça climática e redução do desperdício. Fundou a start-up R-Coat com a qual transforma guarda-chuvas partidos coletados pela comunidade em casacos e acessórios únicos, evitando emissões de gases de efeito estufa e contribuindo para uma indústria da moda mais sustentável.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.