“Não há dinheiro”, disse um sr. ministro. “Não temos dinheiro”, proclamou outro. E assim se justifica a falta do investimento necessário, não para o bom funcionamento dos serviços públicos, já que no nosso país “bom funcionamento” e “serviços públicos” são termos contraditórios, mas ao menos para evitar a sua degradação do sofrível para o intolerável. No entanto levanta-se a questão: não ascende a 129 mil milhões de euros o Orçamento do Estado para 2018? É muito dinheiro. Se não há dinheiro para esses investimentos essenciais, então para onde vão os 129 mil milhões?

Os detalhes encontram-se no decreto que promulgou o dito Orçamento. Mas, porque a essência das decisões orçamentais é tão estável como constante é a natureza humana, pode-se encontrar uma explicação mais profunda numa observação feita no século 13 por um pobre camponês nipónico. Num antigo fólio encontra-se o seguinte relato sobre uma decisão orçamental tomada por Hōjō Tokiyori (北条时頼, 1227—1263), o dr. Costa lá do sítio:

“Um dia, Tokiyori teve o prazer de dar uma festa a uns santos monges de um rico mosteiro plantado perto de um rio, e ordenou que um carro de bois carregado de ricas carnes e outros finos manjares fizesse a entrega. Aconteceu que os bois, ao atravessarem zabu-zabu o rio, pararam nos baixios e aliviaram-se pausadamente na corrente antes de prosseguir a subida do banco. O seu condutor, um camponês chamado Aoto Fujitsuna [青砥藤綱, fl. séc 13], ao ver isto exclamou: ‘Hoho! Os fiéis bois seguem o exemplo do seu dono!’ Coincidiu isto com a chegada de Tokiyori ao banco do rio para observar o transporte dos seus presentes e, ao ouvir aquela observação, disse para consigo: ‘Este peão tem discernimento na mente e língua capaz de dizer o que lhe vai na mente. E tem razão. Aqui estou eu a encher de comida as costas de bonzos ricos, enquanto os pobres camponeses, por todo o lado, estão, sem exceção, com o umbigo colado ao lombo por falta de alimento. E exatamente do mesmo modo, os bois humedecem o rio quando os campos em ambos os lados necessitam de água e de adubo.’ E, mandando chamar Fujitsuna, nomeou-o um dos seus ministros.”

Não será que em Portugal a despesa pública humedece o que já está molhado e deixa enxuto o que está seco? E será que isso contribui para o progresso económico e equidade social? Em abono de Tokiyori pode-se dizer que, pelo menos, quando percebeu a incoerência da sua política orçamental, a tentou retificar… embora sem grande sucesso, devido à oposição dos interesses instalados. Como será o próximo Orçamento do nosso dr. Costa?