Na senda do novo bilhete para os transportes públicos de Lisboa — o Navegante Metropolitano Família — este era o outro passe que se impunha. Desde logo porque há todos os dias imensos familiares de dirigentes socialistas em trânsito para a vida política. Depois para evitar que esse enorme fluxo de parentes de políticos do PS para o Estado provoque desagradáveis congestionamentos. Com o Passe Navegante Socialista Família ficava tudo mais simples: qualquer líder socialista podia nomear os seus familiares para cargos políticos à vontade, independentemente do número de elementos do agregado, e estes ficavam com acesso imediato a todos os 17 ministérios, às 308 câmaras municipais e à plenitude dos organismos públicos. Ao mesmo tempo acabava a necessidade de acumular a defesa contra as críticas de nepotismo com as desculpas parvas no Facebook para as contratações efectuadas.

A propósito dos novos passes sociais o primeiro-ministro afirmou que “Se tivermos em conta que as reduções que vamos obter nesta área metropolitana [Lisboa] são superiores muitas vezes num só mês ao aumento de quatro anos do salário mínimo nacional, compreendemos bem o que é que esta medida significa para o aumento do rendimento disponível das famílias portuguesas.” É de facto um estupendo aumento do rendimento disponível das famílias portuguesas. Que vivam em Lisboa. As que não vivem, azar, estivessem disponíveis para se mudar para a capital. Assim vão só disponibilizar mais uma parte do seu rendimento, sob a forma de impostos, para pagar os novos passes às suas congéneres lisboetas.

Mas no meio desta moscambilha ninguém fica a rir — além de António Costa, claro. Porque se os utentes vão pagar muito menos, as empresas de transportes vão ter muito menos receitas. Se as empresas forem públicas o Estado vai ter de as compensar. Como? Com o dinheiro dos contribuintes. De que forma? Cobrando mais impostos, quer aos utentes que vão pagar menos pelos passes, quer aos contribuintes que nunca vão sequer usar os transportes públicos de Lisboa. Já se as empresas forem privadas perderão dinheiro. E serão, muito provavelmente, subsidiadas pelo Estado. Como? Com o dinheiro dos contribuintes. De que forma? Cobrando mais impostos, quer aos utentes que vão pagar menos pelos passes, quer aos contribuintes que nunca vão sequer usar os transportes públicos de Lisboa. Um bocadinho repetitivo, talvez, mas muito giro, não? Mas esperem que ainda há mais.

Se no parágrafo anterior António Costa ria, agora Mário Centeno gargalha. Com tanta verba adicional de impostos para transferir para empresas públicas e privadas à disposição do Ministro das Finanças para ser cativada, é garantido que em 2019 temos superavit. Mas claro que há outro cenário possível. A descida do preço dos passes levar a um aumento tão grande da procura de transportes públicos que obrigue o Governo do PS a fazer um enorme investimento público em equipamentos de transport… Não, não há outro cenário possível.

Bom, não deixemos que o emocionante sector dos transportes nos faça olvidar coisas giríssimas que têm acontecido na educação. Nas últimas semanas foi notícia a redução das horas dedicadas à História em benefício da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, e uma acção de formação numa escola do Barreiro sobre diferentes orientações sexuais. Não comentei estes temas em crónicas pretéritas por merecerem profunda reflexão. Reflexão essa obviamente fora do meu alcance. Felizmente tinha já na calha uma outra reflexão – esta bem superficialzinha — em forma de diálogo entre dois alunos imaginários. Na medida em que são daqueles alunos que vão efectivamente às aulas e sabem a matéria e tudo.

– Vais ter História?
– História? Não. Vou ter Cidadania e Desenvolvimento.
– Boa! E já trabalharam as diversas competências necessárias para o exercício da cidadania democrática?
– Não, mas estou ansioso. Ainda vamos naquela parte da preparação para as múltiplas exigências da sociedade contemporânea, resultantes da relação entre o indivíduo e o mundo que o rodeia, construída numa dinâmica constante com os espaços físico, social, histórico e cultural.
– Ui, adorei essa matéria. E à tarde, vais ter EV?
– Não, vou ter LGBT.