Rádio Observador

Mulher

Partilha das tarefas domésticas e natalidade /premium

Autor
178

Temos a receita perfeita para a maioria das mulheres portuguesas decidirem ter só um filho. E a responsabilidade pot isso é também dos homens que não estão a fazer a sua parte das tarefas familiares.

Sei bem que é sempre muito bonito lembrar o grande problema que é a baixa taxa de natalidade portuguesa, e dar uma meia dúzia de soluções. À esquerda a maior parte da solução parece ser colmatar o encolhimento da população com imigração. À direita propõem-se medidas fiscais mais benevolentes, com a sempiterna possibilidade (que nenhuma mulher quer nem, com o nível de ordenados que temos por cá) de trabalhar a meio tempo e a educação de infância universal e gratuita. Mais pó menos pó, é isto.

Claro que nenhuma destas medidas é má e inútil. Todas serão necessárias para resolver o problema da população a encolher, com o menor dinamismo (cultural e económico) e as dificuldades para pagar as pensões que resultam. Porém é sempre bom conhecer as causas dos problemas para os resolver. Sei bem que isto custa aos políticos, reconhecerem que a realidade existe por si só à solta, teimando em não caber nas, nem ser explicado pelas, teorias e ideologias políticas que se preferem. Neste caso – que envolve escolhas de mulheres terem ou não filhos – custa ainda mais aos políticos – maioritariamente masculinos – aceitar que se está a lidar com a realidade do ‘outro’ (feminino, no caso, como disse) e que se deve sobretudo ouvir o outro (bom, a ‘outra’) para perceber o que se passa, em vez de adotarem a atitude normal masculina de explicarem às mulheres qual o problema existente e como se resolve.

E a verdade é que, havendo necessidade de políticas públicas, claro, a decisão de ter filhos provavelmente passa por fatores de organização social e familiar que pouco têm a ver com deduções fiscais, ou outras. Donde, alterações no bom sentido que se façam podem bem resultar inúteis.

Um fator importante para a decisão de ter filhos – logo, para crescer ou diminuir a taxa de natalidade – é a partilha das tarefas domésticas nos casais. Mais concretamente, é um fator muito importante para a decisão de ter ou não um segundo filho.

É fácil perceber a lógica. Uma mulher, com carreira profissional, vive em união de facto com um homem que é um imprestável que descarrega em cima dela a sua parte das tarefas domésticas. A mulher decide mesmo assim ter um filho, porque quer ser mãe e viver a experiência da maternidade. Depois do nascimento do filho, o imprestável do pai e do marido continua a não participar, não dá banhos, não muda fraldas, não dá as papas e as sopas. Evidentemente esta mulher não vai ter um segundo filho. Podem oferecer creche gratuita ou impostos pela metade – que o que ela vai querer é ajuda doméstica e no cuidado dos filhos, tempo para descansar e para si própria (tal como o companheiro/marido tem quando está no sofá a ver futebol). Reduzir horário de trabalho e ficar financeiramente mais dependente também não é opção – afinal um fator de felicidade para os casamentos modernos é exatamente a partilha das atividades domésticas.

As histórias pessoais são usualmente, nestes assuntos, bons indicadores. Ontem, quando falava a uma amiga que ia escrever sobre este tema, foi-me dito que só tinha tido um filho porque o marido nunca participou em absolutamente nada. Quando adoecia era ela que faltava. Levar e buscar à escola – ela.

Mas não necessitamos de ficar pelas histórias pessoais. Há pesquisa sobre o assunto. Em casais em que ambos têm trabalho pago, a participação tendencialmente igualitária dos homens nas tarefas de casa ou, pelo menos, nas tarefas de cuidado aos filhos, é um fator que propicia a decisão de ter um segundo filho. Deixo alguns exemplos de papers com resultados para Itália. Para a Suécia. Para a Noruega. Para o Japão. Para a Áustria.

E aqui chegada vou acrescentar os dados do relatório da FFMS sobre as mulheres portuguesas, coordenado pela economista espanhola Laura Sagnier, apresentado ontem na conferência A Mulher, Hoje. Portugal é dos países com maior taxa de participação feminina no mercado de trabalho – seja pela necessidade de dois ordenados (baixos), seja porque as portuguesas valorizam, de facto, a independência financeira. No entanto, a divisão das tarefas domésticas fica em 72% para elas e 24% para eles. Nas tarefas de cuidados aos filhos, 69% são feitas por elas e 26% por eles. Sendo que, claro, os rendimentos que cada um traz para o agregado familiar não é em proporção inversa semelhante. Esta desigualdade no trabalho não pago existe mesmo quando elas ganham o mesmo que eles.

Não é difícil concluir que temos a receita perfeita para a maioria das mulheres portuguesas decidirem ter só um filho. E a responsabilidade deste caldo não é só dos ordenados baixos, dos horários pouco flexíveis, é também dos homens portugueses que não estão a fazer a sua parte das tarefas familiares.

Podemos negar a realidade quanto quisermos – em se tratando de assuntos que envolvem mulheres, negar é a reação por defeito –, podemos desenhar políticas supondo que um desconto nos impostos para o casal vai mudar o que quer que seja, podemos ter a narrativa da direita conservadora de que a função primária das mulheres é terem filhos e devem cumpri-la. Debalde.

O Estado aqui pouco pode fazer. Pode apenas alertar e informar. Pode instituir licenças paternais e, até, licença de uns tantos dias por ano para acompanhamento familiar exclusivo para pais. Pode ter cuidado com as mensagens dos manuais escolares que certificam. O meu filho de treze anos – que não é bloquista – no outro dia queixou-se das frases que o livro de inglês do 7º ano usava, da estirpe ‘a mãe está a cozinhar’ e ‘o pai está a jogar futebol’. Parece-me esta narrativa bem mais nociva que a distinção entre princesas e piratas com que se embirrou há uns tempos. E, sim, colocar nos programas estes assuntos de igualdade de género e as implicações todas que têm, até na natalidade.

Mas é tudo. A mudança fundamental não depende de políticas públicas.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Pais e Filhos

O lado feminino dos homens /premium

Eduardo Sá
107

Pergunto-me o que é que aconteceria se nós chamássemos ao "lado de leoa" duma mãe, por exemplo, "o lado masculino" de uma mulher. Tenho medo que, de dedo em riste, alguém achasse sexista…

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)