Crónica

Partir A. Ventura /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
814

Ventura quer mudar o sistema por dentro. É uma espécie de supositório humano: faz-se introduzir no organismo para depois exercer a sua influência. Ei-lo metade glicerina, metade convicção ideológica.

Pelo que li, o programa político do Chega assenta em três traves mestras: prisão perpétua para bandidos, castração química de pedófilos e desconfiança face a imigrantes que vivem às custas do contribuintes. São três ideias fortes, ainda que conflituantes. Por exemplo, André Ventura nunca explicou como pretende castigar um estrangeiro condenado por pedofilia, se isso implica alojá-lo para sempre de borla e castrá-lo quimicamente a expensas do SNS. Mas isso não atrapalha Ventura, um homem que sempre desejou abanar as estruturas. No seminário, quando pensou ser padre, queria mudar a Igreja por dentro. Agora, enquanto candidato, quer mudar o sistema político por dentro. No fundo, é uma espécie de supositório humano: faz-se introduzir dentro do organismo para depois exercer a sua influência. Eis André Ventura, metade glicerina, metade convicção ideológica.

Apresenta-se como um político diferente, que fala a verdade, sem hipocrisias, mas, vai-se a ver e é igualzinho aos outros. Começa logo no nome que deu ao partido. Como é que um movimento anti-imigração se chama “Chega”, que, como sabe quem conhece o tema “A agulha e o dedal”, interpretado por Beatriz Costa na Canção de Lisboa, pode ser entendido como um convite para vir para o pé de nós, seja uma agulha ou um cidadão estrangeiro? “Ai, chega, chega, chega, chega minha cabo-verdiana que quer vir trabalhar para Portugal”, parece cantar Ventura. Se queria evitar a ambiguidade, devia ter chamado ao partido “Afasta”, que é o que Beatriz Costa faz ao dedal.

O discurso contra a imigração é onde a incoerência de Ventura se evidencia. Não faz sentido ser contra a livre circulação de trabalhadores, ao mesmo tempo que se se candidata a um emprego em Estrasburgo. Se Portugal é para os portugueses, a França deve ser para os franceses. Suponhamos que André Ventura é eleito e, certo dia, vai a uma das sessões do Parlamento Europeu realizadas em Bruxelas, cidade conhecida pela variedade étnica. Ao passear, repara que vem um argelino na sua direcção. Imediatamente, atravessa a rua. Mas constata que, no outro passeio, está um sudanês. Hesita durante um instante, tempo suficiente para ser atropelado por um táxi conduzido por um romeno. A questão é: aceitará André Ventura ser tratado pelo Sistema de Saúde da Bélgica? Ou, para ser coerente com os seus princípios nacionalistas, evitará sobrecarregar o contribuinte belga, adiando os cuidados médicos até vir a Portugal? Adiamento que pode ser maior do que se julga, se, como é natural num bom português, voar na TAP.

A verdade é que a ambivalência de Ventura sobre a imigração é profunda e está bem documentada. Já foi apanhado várias vezes na televisão a defender que se tire o trabalho a um jovem português, para o dar a um estrangeiro. Tudo bem que era sobre a substituição do avançado Rafa Silva pelo argentino Cervi, mas não deixa de ser esclarecedor.

Aliás, outra das incoerências de André Ventura é o seu papel de comentador de futebol. Quem é contra o sistema não é suposto passar horas num dos canais mais vistos do país a falar a favor do clube mais dentro do sistema do desporto mais dentro do sistema, numa espécie de matrioska de sistemas. Se quer ser um outsider, comente as performances da Associação Recreativa “Os Sabiás”, em badminton feminino (passe a redundância), nas madrugadas de uma rádio local. Assim, até evita ter de defender Luís Filipe Vieira, o que, lá está, não cola com a denúncia da corrupção que o Chega faz.

Como não cola a postura contra as elites, vinda de um professor universitário com lugar cativo nos meios de comunicação social (exacto, como o elitista Presidente da República), alguém que traja um prestigiado sobretudo cor de camelo, a fazer lembrar o loden verde celebrizado por Freitas do Amaral nas presidenciais de 1986 – os mais jovens (e o próprio) já não se recordam mas, em tempos, antes de ser apoiante do PS, Freitas do Amaral desempenhou o papel de candidato fascista. Essa postura parece ainda mais esquisita quando conta com o apoio do Partido Popular Monárquico. Os monárquicos são, por definição, elitistas. Mais: no PPM, a família do Presidente Gonçalo Câmara Pereira é a elite da elite. Os Câmara Pereira são as Kardashian do movimento monárquico.

No fundo, André Ventura aparenta ser uma coisa, mas afinal é falso. Como aqueles ténis que se compram na feira. Julgamos que são de marca, vai-se a ver e são imitação. Isto é duplamente ofensivo para ele, mas não há como negar: Ventura é um populista dos ciganos.

É por isso que não estou muito preocupado com a ascensão do partido de André Ventura. Confio no discernimento do povo português para topar a contrafacção e recompensá-la nas urnas com as décimas de ponto percentual que costuma reservar para os loucos furiosos. Por mais dinheiro que tenha para a campanha, vindo sabe-se lá de onde. (O meu palpite é que venha da indústria dos pulverizadores para sulfatagem, a fazer lobby para que o seu uso na castração química).

Mas percebo o receio com que o Chega está a ser encarado na ponta mais à esquerda do espectro político. Ninguém melhor do que os radicais para saberem que, às vezes, os eleitores caem em petas. Afinal, há quem diga que a Coreia do Norte e a Venezuela são democracias ou que não se deve pagar a dívida, e continue a receber votos. É natural que tenham medo que volte a acontecer o mesmo, desta vez com outro tipo de chalupa.

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