Desta vez, o Partido Comunista Português não pôde regozijar-se publicamente com a vitória de Vladimir Putin, pois os seus camaradas russos votaram contra a eternização do presidente da Rússia no poder. Mas continua a depositar grandes esperanças no líder russo.

Segundo o semanário Avante, órgão do Comité Central do PCP, “pouco mais de metade dos eleitores russos aprovou o pacote de 206 emendas à Constituição pós-soviética de 1993”. Podia concluir-se que quase metade dos eleitores russos não apoiam a política conduzida pelo Presidente Putin e que não se tratou da grande vitória proclamada pelo Kremlin.

Mas não, os comunistas portugueses ficaram indignados com o facto de “os circuitos do pensamento dominante não desperdiçaram a oportunidade para anatemizar o presidente russo e apontar o dedo ao autoritarismo do regime” por “uma das emendas colocar a zero a contagem das presidências de Putin, permitindo a sua candidatura a mais dois mandatos”.  Em conformidade com o autor do artigo no jornal, Luís Carapinha, “a fixação anti-russa nada tem a ver com a defesa da democracia”.

Segundo esta lógica, Vladimir Putin é a Rússia ou, no mínimo, está casado com ela. Criticar Putin é criticar a Rússia.  Por isso, os pouco menos de metade dos eleitores que votaram contra o prolongamento do actual dirigente no poder até, pelo mínimo, 2036, poderão ser colocados também nas fileiras anti-russas.

Mas como será possível explicar que “o Partido Comunista da Federação e outras  forças de esquerda tenham apelado ao voto contra ou boicote do processo”, ou seja, feito o jogo das “forças-anti-russas”?

A justificação é a seguinte: “O sentido contraditório das emendas não altera no fundamental o texto de 1993, reforçando os mecanismos de centralização do poder.” Mas como é que um dos maiores líderes actuais, na versão dos comunistas, propõe 206 emendas à Lei Fundamental sem alterar no fundamental o texto da Constituição da Rússia?

Os analistas comunistas portugueses, pura e simplesmente, não quiseram ver uma coisa que toda a oposição russa, incluindo os comunistas, viu claramente: o golpe constitucional realizado pelo autocrata russo. Após as emendas, se Vladimir Putin, um dia, decidir coroar-se czar ou imperador da Rússia, poderá colocar nas suas armas o lema “Deus, Pátria e Autoridade”.

Os marxistas-leninistas lusos parecem acreditar que o regime na Rússia se enquadra na sua noção de esquerda, daí tiradas como esta: “O que perturba a corte numerosa que, colocando o mundo ao contrário, vitupera o «revisionismo» da China e da Rússia na cena internacional, despreza e difama o contributo fundamental da URSS para a derrota do nazi-fascismo, ao mesmo tempo que não consegue enxergar as pontas do neonazismo na Ucrânia pós-golpe de Estado de 2014, não é o complexo domínio oligárquico na Rússia, nem os vínculos de dependência da economia aos centros da finança internacional, ou os efeitos da exploração capitalista na degradação das condições de vida da população”.

Vejamos por exemplo a questão da “derrota do nazi-fascismo pela URSS” e o problema do “neonazismo na Ucrânia”, clássicos da “cassete comunista”. Não há dúvida que, neste país vizinho da Rússia, existe o problema do neonazismo, como, aliás, acontece em outros países europeus. E no país dirigido por Vladimir Putin?

Poderíamos aprofundar ideias e concluir que o regime existente na Rússia é um regime de extrema-direita autocrática. Já falámos do lema “Deus, Pátria e Autoridade”, que atravessa as emendas à Constituição do país, mas há ainda outros factores muito importantes.

Por exemplo, embora a “votação nacional” não previsse a presença de observadores internacionais para controlar a transparência do escrutínio, a Câmara Civil junto do presidente da Rússia, convidou como “peritos” numerosos cidadãos estrangeiros, sendo de destacar deputados e políticos da extrema-direita europeia. No país que se diz herdeiro dos vencedores do nazismo, os canais de televisão oficiais deram voz aos neonazis da “Alternativa para a Alemanha”, a fim de provar que as eleições na Rússia são limpas e transparentes.

O deputado neonazi Stephen Koiter elogiou, aos microfones do canal russo NTV, os “padrões de transparência” do escrutínio, frisando que o nível de organização das eleições na Rússia “é até mais alto do que na Alemanha”. E Koiter não veio sozinho, mas acompanhado por outro camarada seu: Gunnar Norbert Lindemann.

Além destes, participaram na “peritagem” deputados italianos da “Liga Norte”, entre eles Paolo Grimaldi, que criou o grupo “Amigos de Putin” no parlamento do seu país. E a tão importante evento não podiam faltar enviados de Marine Le Pen: Julie Lechanteux e Thierry Mariani, deputados que representam o partido “Reagrupamento Nacional”, antiga Frente Nacional, no Parlamento Europeu.

Pelo que escrevem alguns órgãos de informação independentes russos, a viagem e a estada desses “peritos” foi financiada pelo Kremlin, trazendo à memória uma frase pronunciada por Vladimir Putin: “Quem paga, dança a menina”.

Se o PCP não tiver cuidado, os seus militantes poderão deixar de ser convidados pela Embaixada da Rússia em Lisboa, dando lugar aos dirigentes do partido “Chega”, de André Ventura. O primeiro passo foi dado com a adesão dessa força política ao grupo europeu de extrema-direita Identidade e Democracia, fiéis aliados de Putin na destruição da União Europeia.

P.S.: Junto a minha voz aos historiadores e a todos aqueles que se insurgiram contra a nomeação, pela EGEAC, da ex-deputada comunista Rita Rato para dirigir o Museu do Aljube. É sabido que esta não tem currículo, nem experiência, tendo dado fortes provas, por exemplo, de “desconhecimento” do sistema repressivo estalinista. Se se tratou de um concurso público, que parâmetros foram tomados em conta para a sua escolha?