Quem muito fala, pouco acerta
(Provérbio popular)

Vai para quatro anos que o inferno abriu as portas: um incêndio em Pedrógão Grande resultou numa das maiores catástrofes deste género a nível mundial, comovendo o país. Presidente e Primeiro-Ministro falaram, entre muitas coisas, num ponto de viragem e numa lição para o futuro. Nada podia ficar como dantes. Mas ficou.

Nada de novo para as gentes daqueles lados, que já passaram por vários episódios semelhantes e em todos constataram o voluntarismo inconsequente (veja-se o Plano de Revitalização do Pinhal Interior, com 16 milhões dos quais foram mobilizados míseros 6%), as promessas incumpridas (é o próprio Valdemar Alves a relembrar: “Prometeram mundos e fundos neste salão, e isso acabou. Apareceram outras coisas, o vírus, que deram mais antena. E o Interior continua no esquecimento”), a incompreensão e não reconhecimento do falhanço da estratégia (os planos, o ordenamento, os meios… Enfim, também Mação e Pampilhosa eram distinguidos até a nível internacional e nos últimos anos tudo se esfumou. Acabar com o minifúndio, com terras sem dono conhecido, com falta de cadastro, etc., etc.? Esta gente acredita mesmo que se a paisagem for toda como a do Pinhal de Leiria fica tudo bem?), os mitos e bodes expiatórios do costume (da recorrente conversa do “maior dispositivo de sempre” – ah e tal que a AGIF vinha mudar o discurso – ao incendiarismo, com Marcelo ainda há dias a referir-se às eleições, sem esquecer o sonho antigo de um rico Portugal florestal, teimando em ignorar o quanto carvalhos ou castanheiros, gestão ativa, etc., não são questão de vontade, antes são difíceis e carecem de apoio).

Ficam os memoriais – já temos vários, do de Sintra ao de Famalicão da Serra, passando pelo de Pedrogão ou… pelo de Pedrogão, porque há que gastar dinheiro e um não chegava.

Na semana passada, em que foi notícia uma estátua invisível, não admira quem consiga ver grandes mudanças quando estas são invisíveis na paisagem.

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Assim foi no mês passado, quando durante uma visita à execução de uma faixa de proteção em Caminha, disse Marcelo que “não há comparação” com o panorama de 2017. Sr. Presidente, vá novamente dar um mergulho às praias do Pinhal Interior e veja com os seus olhos antes de dizer disparates. Lembra-se do que António Costa dizia, que “a pior coisa que pode acontecer é a floresta crescer como estava, porque hoje todos sabemos bem que deixar a floresta crescer livremente é criar condições para que ela seja combustível”? Pois bem, a pior coisa que podia acontecer está, aos olhos de toda a gente, a acontecer mesmo.

Quatro anos depois, o “barril de pólvora” vai crescendo: os eucaliptos rebrotaram por todo o lado e estão enormes, manchas e manchas de acácias misturam-se com a nova geração de pinheiros que já vai despontando pelo meio de alto matagal que tudo cerca. Mais uns anos e está o caldo cozinhado para nova tragédia, ficando à espera do dia fatídico que abane a panela e o faça entornar. E como bem se sabe por ali, seja por um raio (basta lembrar que ainda há dias estalou uma trovoada pelo Norte e centro do país) ou por uma beata, por um bêbado ou por uma linha elétrica, por um acidente até, mais cedo ou mais tarde, esse dia chegará.

Mas a conversa não acaba aqui. Ainda disse mais Marcelo! Disse que se voltasse a correr mal nem se recandidatava. Sr. Presidente, a sua sorte é o nosso mal destes fenómenos. É que, ao contrário de “imprevisíveis” como lhe chamou então, são cíclicos, mas cujos ciclos, pelos anos que a vegetação demora a recuperar e a conjugação de dias meteorologicamente propícios, levam mais anos a repetir-se que os dos mandatos presidenciais. Com sorte, a bolha não lhe volta a rebentar nas mãos. Mas rebentará nas do seu sucessor, que pagará a incompetência actual. O conhecido exemplo do sujeito que salta do 10º andar e que quando a passar pelo 5º andar lhe perguntam como está, e ele lá vai dizendo que por agora está tudo a correr às mil maravilhas.

Termino, lembrando as palavras do relator do relatório da Comissão Técnica Independente entregue à Assembleia da República sobre este incêndio, o Prof. Xavier Viegas – “Estes territórios facilmente são esquecidos e estes cidadãos são considerados cidadãos de segunda. Esse tipo de atitude não me parece que tenha mudado. Apesar dos anúncios de descentralização, de instalar organismos no interior, isso são apenas coisas de fachada”. E reforço o pedido, Sr. Presidente: antes de falar de estátuas invisíveis, vá até lá dar uns mergulhos no verão. Vá enquanto está verde, porque um dia destes volta a estar negro.