Mas falemos directamente das previsões políticas. E aqui mais uma vez insisto em que cabe naturalmente errar e até por duas razões: Primeiro porque estamos a predizer o futuro, que é ofício que Deus não gosta de confiar a outrem, como disse Péguy; segundo, porque tratando-se de política concreta estou fora da minha competência, visto que essa não é mister da Igreja, embora o seja dos católicos. (…) O que está diante de nós é a ameaça imediata de uma tremenda erupção anarco-social-comunista; e todo o nosso problema é saber se as forças da civilização, hoje claramente forças do cristianismo, serão capazes de aguentar o embate. Parece-me que tudo está a trabalhar sobretudo da nossa parte, para preparar a derrota.
D. António Ferreira Gomes, Pró-Memória para uma entrevista, in Provas, Fundação Spes, 2008, pp. 38-39

1 Aquando do célebre pró-memória de D. António Ferreira Gomes ao Doutor Salazar (datado do Porto, de 13 de Julho de 1958, documento tantas vezes mal lido, mal contextualizado e abusivamente invocado, do qual extratamos a passagem epigrafada), uma das questões centrais, “pendentes” e subentendidas entre hierarca e estadista em vésperas de audiência privada, estava a da possibilidade de, por então, se poderem entrever e organizar, face à “questão social” e aos constrangimentos à participação cívica, novas pautas de liberdade, nomeadamente abrindo aos “cidadãos-católicos” a possibilidade de autónoma formação cívico-política e organização partidária. Os exemplos bem sucedidos de De Gasperi e da Democracia Cristã italiana, bem como de formações políticas congéneres nas democracias europeias do pós-guerra, estariam certamente no horizonte dessa irrealizada entrevista, mas não havia condições objetivas nem subjetivas, nem qualquer abertura do regime vigente para que esse êxito pudesse vir a ser ensaiado em Portugal. O receio da evolução paralisava o Presidente do Conselho, que tinha certamente uma leitura redutora da doutrina sobre a origem do poder político expressa na encíclica Diuturnum Illud de Leão XIII. Sublinha-o Diogo Freitas do Amaral, lembrando também (O Antigo Regime e a Revolução, Bertrand, 1995, p. 68) que o próprio cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira “encarregara o Padre Abel Varzim de fazer contactos com prestigiadas figuras da intelectualidade católica para o caso de ser necessário formar um grande partido democrata-cristão, capaz de suceder ao Estado Novo sem cair numa revolução de esquerda”.

2 Com o 25 de Abril regressou mais do que nunca a oportunidade e a premência da implementação de formações partidárias enformadas pelos valores da doutrina social cristã, nomeadamente do magistério eclesial católico. Mesmo assim, não prescindindo de respeitosamente auscultar o episcopado português, os fundadores do CDS, bem cientes das conotações negativas que a expressão «democracia cristã» então transportava na ótica da oposição ao regime derrubado e na da exploração política a que necessariamente essa designação partidária se prestaria, como alegada designação confessional (projetanto uma imagem que corria o risco de comprometer partidariamente a Igreja), optaram por um nome novo e por um nova panorâmica programática, não apenas conotável com a doutrina das encíclicas papais e ensinamento social da Igreja, mas também com o personalismo de Emmanuel Mounier. O nome escolhido para o novo partido não era completamente alheio à tradição política católica nos quadros europeu e nacional, embora agora formalmente apresentado como um inovador projeto de governação «ao centro», com convergência de «ideias mestras» do centro direita e do centro esquerda. Daquele, reivindicavam-se nomeadamente “o papel decisivo da iniciativa privada como motor do desenvolvimento”, a “necessidade do progresso acelerado, como fonte de melhores níveis de bem-estar”, a descentralização “como factor de dinamismo e responsabilidade”, a “supressão de condicionalismos e restrições à criatividade e à inovação, como condição de eficácia do sistema social”; deste, nomeadamente, “a redução acelerada das desigualdades sociais”, “a participação como princípio geral da organização da sociedade em todos os níveis”, “o planeamento e a intervenção activa do Estado”, “o imposto acentuadamente progressivo”, “a segurança social integral”, “o serviço nacional de saúde tendencialmente gratuito”, a “rápida progressão dos salários mais baixos com vista a uma rápida correcção das desigualdades na distribuição do rendimento”, e – timbre distintivo em época de MFA socialista – “a generalização do acesso dos trabalhadores à propriedade” (Partido do Centro Democrático Social, Declaração de Princípios, pp. 12 e 13). Não é difícil detetar quais destes objetivos partidários tiveram consagração no percurso político coletivo até hoje percorrido pelo país e quais – em parte ou no todo – foram ficando pelo caminho…

Esta Declaração de Princípios, apresentada pelo Prof. Diogo Freitas do Amaral em 24 de Julho de 1974, e os objetivos programáticos fundacionais do CDS vinham envoltos em linguagem clara, inovadora, com uma carga de idealismo sincero e liberdade crítica que contrastava bem com uma política interna já em processo de radicalização e degenerescência concentracionária, exatamente como reflexo daquilo em que a vida política lusa se transformara, a saber, puro tabuleiro de diferidas lutas e fidelidades no xadrez político internacional da guerra fria, infelizmente repleto de lances de felonia aos legítimos interesses e compromissos históricos de Portugal, enquanto estado soberano.

A política social do CDS, gizada em torno da bandeira agregadora do humanismo personalista, propunha-se harmonizar, audazmente, os interesses  da “livre empresa” e do “investidor particular” com a função social da propriedade, a prosperidade com a “economia social de mercado”, apresentando até a desejada generalização da propriedade privada como instrumento de combate à “opressão e exploração do homem pelo homem” na sua dupla possibilidade de capitalismo irregulado e irreformável ou de um qualquer temido socialismo estatizante e liberticida.

A quem, antes do 25 de Abril, se entusiasmara com o texto de O Personalismo de E. Mounier, difundido pela Moraes, em tradução de João Bénard da Costa, aquela singela Declaração de Princípios, na sua linguagem e posições, parecia uma feliz consequência da reflexão e do compromisso cristão na “animação da ordem temporal” dos católicos de «O Tempo e o Modo» e de todos aqueles que, sintonizados com o espírito da Gaudium et Spes e dos grandes textos do segundo concílio do Vaticano, ansiavam pelo aggiornamento da Igreja e pelo desbloqueamento dos grandes impasses políticos coevos na política portuguesa e na cena internacional. Era uma auspiciosa terceira via entre dois extremos vitandos, colocando a exploração e alienação do homem a combater, não apenas na “desordenada” organização económica e social dos meios de produção, mas em horizonte mais vasto. Horizonte do homem, horizonte humanista, de todo o homem e do homem todo. Vale a pena recordar o ponto inicial desse texto (p. 4), ao qual a nossa atualidade dá hoje novo vigor e significado:

«O homem é explorado quando se sente asfixiado pelo aparelho burocrático do Estado / o homem é oprimido quando, por qualquer modo, lhe é vedada a liberdade interior ou a abertura ao transcendente espiritual; / o homem é oprimido quando a sua vida privada não decorre com a necessária intimidade; / o homem é explorado, a qualquer nível, quando é sujeito ao exercício tirânico da autoridade ou a imposições abusivas de minorias activistas; / o homem é explorado quando a sua consciência de pessoa é abafada pelas massas ou é objecto de manipulações da sociedade de consumo. / Contra todas as formas de exploração e de opressão, urge lutar, mobilizando as múltiplas conquistas do progresso, com vista a uma nova ética da vida em colectividade».

Este tipo de discurso – juntamente com os discursos combinados do patriotismo cívico e da fraternidade e corresponsabilidade universais –, o discurso dos valores, eis o que falta e se impõe à política hoje, quando os “atores políticos” parecem meros gestores do transitório, do fait divers e da conjuntura, na qual o país, inerme, parece boiar.

3 Partido fundador da democracia representativa portuguesa (o único que recusou o socialismo do preâmbulo constitucional que ainda hoje nos envergonha) marcou o CDS a nossa vida pública e europeia, desde logo por via da UEDC à qual se afiliou ao nascer; mas necessariamente nos perguntaremos qual a razão justificativa de, não obstante tanta coerência e solidez de princípios, nunca ter sido o CDS um partido hegemónico de liderança de governo. Múltiplas razões: o nascimento, afirmação/implantação social prévias do PPD; a seletiva e violenta perseguição de que o CDS foi objeto (não obstante a subscrição do Pacto MFA/Partidos), e que (tal como sucedeu com outras formações partidárias), por pouco o levava à ilegalização; a posição lúcida, credível e equilibrada sobre a então decisiva “questão ultramarina” (não obstante reconhecimento do “princípio de autodeterminação com todas as suas consequências”), bem como sobre o universo global das matérias candentes da vida pública portuguesa em tempos de sectarismo e de PREC, tempos nos quais qualquer moderação e autonomia de pensamento eram objeto de desconfianças, invetivas e ostracismo político. Mas não só: tragicamente desaparecido Adelino Amaro da Costa, principal inspirador e estratego operacional do CDS, os diferentes presidentes do partido tiveram uma difícil relação com o tempo. Nenhum perseverou até final da travessia do deserto, como na Alemanha e na CDU vimos acontecer com Helmut Kohl, cuja vitória política correspondeu ao grande desígnio nacional e europeu da Alemanha que hoje conhecemos.

Partido de quadros, com inegáveis méritos e “folha de serviços”, mas quadros impacientes e competitivos, nem sempre o CDS soube ler e fazer legível a valia e significado de inêxitos por vezes mais aparentes que reais, como quando foi liderado por Adriano Moreira e, não obstante a estatura do seu líder, o partido viu o eleitorado fugir para o pragmatismo cavaquista, na prática de um voto “útil apenas para quem o recebia”. Até a idade do líder (ontem alegadamente demais, hoje de menos) ainda serve para condimentar “noites de má língua” e numerosas “plumas”, “ociosas”, “caprichosas” ou “comprometidas” na arte da demolição. Ora, como um dia, em pleno Parlamento, advertiu Adriano Moreira a José Pacheco Pereira, que lhe encarecia e desvalorizava a valia da sua idade e curriculum, o “defeito” da idade é algo que se cura rapidamente. Com o despontar dos primeiros cabelos brancos.

4 Hoje, por vontade dos seus militantes, o CDS tem à sua frente um jovem idealista, já notado em múltiplos fora pela sua capacidade de ação e afirmação. Francisco Rodrigues dos Santos.

Impenetrável às habituais campanhas de intoxicação, desinformação e menorização de alguns media e redes sociais, colaborantes com populismos oportunistas, há muito não se via alguém assim, de coração aberto e rasgado espírito congregador que, embora recusando tutelas paternalistas, com tanta humildade assumisse toda a história do CDS, a sua história toda, e saltasse para as estradas do país profundo para uma arrancada que não tem no final outra aspiração e destino que não sejam nobre, claro e distinto objetivo político: oferecer aos portugueses, de novo, uma terceira via personalista, alternativa ao tipo de sociedade, injusta, materialista, dissolvente e desestruturadora que sucessivos votos úteis e seus exploradores têm deixado medrar entre nós ao longo dos anos.

Pelas suas palavras e condutas, percebe-se que o primigénio humanismo personalista da matriz do CDS está de volta. Não deixa de ter um grande valor simbólico que, no congresso de Aveiro que elegeu Francisco Rodrigues dos Santos, este aí contasse com o apoio das personalidades presentes no primeiro, atribulado e fundante convénio do Palácio de Cristal, como José Ribeiro e Castro e António Lobo Xavier.

Talvez o cerco ainda aperte, mas como todos bem sabemos, “resistir é vencer”. Na convicta e serena afirmação do jovem líder percebe-se já o perfume das vitórias que por ele aguardam. E as pedras do conformismo, do pessimismo sistemático e do nihilismo, ainda sopesadas nas mãos dos sitiantes, não tardam a delas caírem confusas e inertes, uma a uma.