Conheço muitas pessoas que perderam a caligrafia. É mais parecido com perder um poder do que com perder um amigo, embora também se pareça com perder uma boa companhia. Não é o mais estridente dos finais e talvez seja um dos mais íntimos. Todas se referem a isso de uma forma resignada: nalguns casos, nostálgica, noutras nem por isso. Algumas perderam-na precocemente, outras ao longo de anos. Falam da perda como se tivessem adoecido, como se a incapacidade de escrever à mão fosse parecida com a incapacidade gradual de correr, de ver ao longe ou ao perto, de se dobrarem para apanhar um objecto do chão. Referem-se à perda como a qualquer coisa incurável, um ponto sem retorno.

Talvez seja uma doença do nosso tempo, explicada pela tecnologia, mas talvez não seja. Talvez a tecnologia apenas tenha acelerado um processo a que a idade conduz todos nós, apesar de tantas pessoas de idade com letras maravilhosas, desenhadas e pacientes, aprendidas e cultivadas desde há muito.

A caligrafia é uma técnica em vias de extinção e a sua perda generalizada uma das maneiras como o nosso tempo vai tomando conta dos nossos corpos. Mas tendo em conta que é uma técnica humana que acompanha o pensamento e que exprime uma forma própria do pensamento, pergunto-me o que perdemos ao perdê-la. Deixarmos de ser capazes de pensar com as mãos e de transmitir às mãos aquilo em que estamos a pensar — porventura a mais democrática forma de desenho de que dispomos — é um assunto silencioso, de cada um consigo mesmo.

Talvez percamos o acesso a uma forma importante da solidão: a de conseguirmos escrevinhar, entender o que escrevinhámos e fazermo-nos entender aos outros e a nós; talvez percamos a independência de nos bastarmos só com um lápis e um papel, sem precisarmos de nenhuma máquina.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.