Crónica

Pensar com as mãos /premium

Autor
122

A caligrafia é uma técnica humana que acompanha o pensamento. O que perdemos ao deixarmos de ser capazes de pensar com as mãos e de transmitir às mãos aquilo em que estamos a pensar?

Conheço muitas pessoas que perderam a caligrafia. É mais parecido com perder um poder do que com perder um amigo, embora também se pareça com perder uma boa companhia. Não é o mais estridente dos finais e talvez seja um dos mais íntimos. Todas se referem a isso de uma forma resignada: nalguns casos, nostálgica, noutras nem por isso. Algumas perderam-na precocemente, outras ao longo de anos. Falam da perda como se tivessem adoecido, como se a incapacidade de escrever à mão fosse parecida com a incapacidade gradual de correr, de ver ao longe ou ao perto, de se dobrarem para apanhar um objecto do chão. Referem-se à perda como a qualquer coisa incurável, um ponto sem retorno.

Talvez seja uma doença do nosso tempo, explicada pela tecnologia, mas talvez não seja. Talvez a tecnologia apenas tenha acelerado um processo a que a idade conduz todos nós, apesar de tantas pessoas de idade com letras maravilhosas, desenhadas e pacientes, aprendidas e cultivadas desde há muito.

A caligrafia é uma técnica em vias de extinção e a sua perda generalizada uma das maneiras como o nosso tempo vai tomando conta dos nossos corpos. Mas tendo em conta que é uma técnica humana que acompanha o pensamento e que exprime uma forma própria do pensamento, pergunto-me o que perdemos ao perdê-la. Deixarmos de ser capazes de pensar com as mãos e de transmitir às mãos aquilo em que estamos a pensar — porventura a mais democrática forma de desenho de que dispomos — é um assunto silencioso, de cada um consigo mesmo.

Talvez percamos o acesso a uma forma importante da solidão: a de conseguirmos escrevinhar, entender o que escrevinhámos e fazermo-nos entender aos outros e a nós; talvez percamos a independência de nos bastarmos só com um lápis e um papel, sem precisarmos de nenhuma máquina.

Todos os que aprendemos a ler e a escrever recebemos esses dons e com eles um modo tangível de nos prolongarmos e imprimirmos nas coisas, deixando um rasto de papéis.

Não parece que percamos muito do carácter imprimido na nossa letra à medida que a perdemos, felizmente. Mas a caligrafia ilegível que vamos ganhando é um contraponto perfeito da maneira como a nossa cara vai envelhecendo: escrita, reescrita, rasurada, riscada, manchada pelo tempo. Já não conseguimos ler o que escrevemos, mas o nosso rosto escalavrado é um poema, que também não conseguimos ler sem ajuda.

Djaimilia Pereira de Almeida é autora de “Esse cabelo” (2015) e “Ajudar a cair” (2017).

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Uma sismografia /premium

Djaimilia Pereira de Almeida

Não nos reconhecermos nos sublinhados que outrora fizemos nos livros mostra que já não somos os mesmos, ainda que respondamos pelo mesmo nome e que os livros velhos ainda sejam nossos. 

Crónica

Estar vivo /premium

Djaimilia Pereira de Almeida

Uma das coisas maravilhosas dos seres humanos é a nossa tenacidade para fazer planos, nem que seja o plano de regar as plantas logo à noite, porque é Verão.

Crónica

Longe da praia /premium

Djaimilia Pereira de Almeida

Não ser daqui não é apenas não ter aquilo a que se costuma chamar uma terra, mas passar por aqui sem um reconhecimento da natureza — paralelo do reconhecimento humano, muitas vezes também ausente.

Crónica

Deputados da Danação /premium

Tiago Dores
296

A AR não é só doutores que fabricam currículos, é também representantes de profissões humildes, como a deputada Mercês Borges, ascensorista, como se vê pelo modo com que carrega em botões pelos outros

Emmanuel Macron

… e um príncipe mongol /premium

Paulo Tunhas

Não é de estranhar que surjam por aí muitas vozes, que não se limitam às dos maluquinhos do costume, a decretarem que, em democracia, o combate ao aquecimento global nunca terá sucesso.

Crónica

Despedida /premium

Paulo de Almeida Sande
166

Foi um gosto ter escrito aqui durante 4 anos e meio, desde o 1º dia. Conheci a ambição, alegrei-me com o crescimento, rejubilei com o sucesso. Escrevi, em total liberdade, sobre os mais variados temas

Crónica

António Patrício Gouveia /premium

Maria João Avillez
294

Tínhamos a vitalidade e o convencimento intactos. Acreditávamos. Talvez porque após a tormenta da revolução soubéssemos o país bem entregue. E nós, com ele.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)