Na véspera do dia do pai, foi decretado o estado de emergência. Nos 45 dias que se seguiram, percebemos que o sofrimento humano, aos nossos olhos, se “democratizou”. E que o contacto com a morte não escolhia classes sociais. E percebemos – também – que, em “modo de alarme”, nos tornamos exemplares a reagir. E que, nessas alturas, somos generosos e perseverantes. E solidários. E cooperantes. E que somos, sobretudo, resistentes!

Nessa altura, fosse nos écrans da televisão, nos outdoors ou nas janelas portuguesas proliferava um arco-íris com uma frase, optimista, que nos recordava: “Vai correr tudo bem!”. E quase parecia ser assim quando, depois, o Estado de Emergência foi levantado. E veio o Verão. E o número de infectados diminui, as medidas restritivas ficaram mais ligeiras e fomos conversando, na praia, como se os riscos de uma infecção tivessem ficado para trás. Os nossos cuidados ficaram tão mais descontraídos que passaram, até, a dar lugar a vários descuidos. Como se “o mal” atacasse só os outros.

Passámos, de certa forma, a “acreditar” que aquilo que desejamos que não suceda não vai acontecer. “Embrulhámos” o medo com as mais diversas racionalizações. Muitas delas, costuradas com meias-verdades (como, por exemplo, quando fomos afirmando que os riscos de infecção e de morte afectavam, “quase unicamente”, os mais velhos). No entretanto – por culpa de muitos responsáveis políticos, um pouco por todo o mundo – acenou-se com uma vacina eficaz que se foi insinuando como uma solução quase mágica (e breve, o suficiente), para nos sossegar.  Que se ia contrapondo a um medo glutão e furtivo, como uma contrapartida poderosa que nos foi alimentando a ideia que, com ela, ficaríamos quase invulneráveis em relação ao coronavírus.

Entretanto, chegou Setembro. O teletrabalho começou a esmorecer. Despertámos para a forma como os videojogos, a televisão, as séries e o YouTube talvez tenham feito de babysiters mais do que tínhamos imaginado. A segurança no emprego “abriu para amarelo”. Mas regressaram as aulas. E tudo parecia voltar ao normal. Enquanto isso, umas quantas festas de alunos de Erasmus, alguns casamentos, uma ou outra tourada, um grande prémio de automobilismo e outros eventos iam produzindo ajuntamentos e proximidades incompreensíveis. E o medo, que parecia controlado, reapareceu, em força, e voltou a crescer. Quase de surpresa, o número das pessoas infectadas foi galopando e, no dia de ontem, aproximou-se de 4000. Com tendência para escalar, entretanto, de forma quase geométrica.

Como se isso já não nos chegasse, hoje, ainda, foi notícia que a Segurança Social reconheceu que a almofada do sistema de pensões ficou, em 10 meses, com menos 10 anos de estabilidade financeira. Entretanto, a perspectiva de uma crise económica e de uma crise laboral vão-se acentuando, devagarinho, de forma muito significativa. Algumas greves e o discurso político começam a dar mostras de querer aproveitar o cansaço de todos. E as medidas restritivas vão regressando, em força, em toda a Europa. Quem afirmou e repetiu que “vai ficar tudo bem”, tinha razão. Só não se aventurou a dizer-nos daqui a quanto tempo. Por mais que no final das tempestades regresse a bonança, o impacto económico da pandemia pode prolongar-se por gerações. Havendo quem estime que esse valor possa chegar a várias dezenas de biliões de dólares, até 2025.

No meio de uma realidade que vai tendo, cada vez mais, contornos muito preocupantes, é natural que aquilo que nos é exigido a todos tenha, progressivamente, mais custos. E, por exemplo, é natural que, de tão obrigadas a estarem quietas, por tanto tempo, as crianças fiquem – muito, provavelmente – mais agitadas, na escola. E que o rendimento escolar de algumas se “gripe”, um bocadinho. Que os conflitos que, entretanto, “varremos” para baixo do tapete, tendam a emaranhar-se e a acentuar-se. Que as tensões familiares tenham mais “períodos febris”. Que os conflitos no local de trabalho se agudizem, com mais frequência. E que o clima social se ressinta com isso. Prepara-se, pois, um outono e um inverno difíceis. Mas reconheço que darmo-nos conta disto tudo pareça, quase como se fosse um reflexo, demasiado “pessimista”. Como se todos nós, cada a um seu modo, não conseguisse (ou não quisesse) conviver com a crueza destes dados. Ou não os quisesse, sequer, imaginar.

É claro que lidarmos, com alguma antecipação, com uma realidade não a torna mais aceitável ou, até, mais compreensível. Até porque é da natureza humana que a tentemos evitar até não se poder mais. Mesmo que todos saibamos que, quando nos deixamos “tomar” pelas “ondas” de uma realidade assustadora a que não conseguimos fugir, muitos de nós ora “afundemos”, depressivamente, ora sejamos levados a eleger alguns “mata-borrões” (o “vírus chinês” pode ser só um exemplo disso) que sirvam de lugares onde se guarda a violência que o medo, quando é muito grande, acaba sempre por gerar. Mas nada disso faz de nós pessimistas.

Vendo bem, o mundo não se divide entre aqueles que preferem o óptimo e os outros, com uma “queda” para o péssimo. (Aliás, quando uma pessoa é, muito depressa, considerada pessimista quem a acha assim talvez fuja mais do seu pessimismo e o projecte nos outros do que pode parecer.) A forma como nos chamam pessimistas, sempre que fazemos os possíveis por falar verdade, é duma censura que nos condiciona. Sentimo-nos como se nos dissessem que vemos o mundo “a preto”. Como se fôssemos fracos. Péssimos; porventura. Como se não fôssemos pessoas lúcidas. Se bem que preocupadas. Mas com esperança, todavia!

O que este período tem de mais constrangedor é que muitos governos, na ânsia de que o seu “pessimismo” lhes tire votos, falem da verdade dos tempos em que vivemos “às pinguinhas”. Como se nos quisessem optimistas. Mas, não, ninguém que fuja optimismo-adiante reconhece a esperança. Antes é levado ao logro e ao engano. Daí que falarem-nos da verdade como se, no limite, não a conseguíssemos entender traz-nos um outro “vírus” sobre o vírus que nos ameaça: o vírus das meias-verdades. Que nos adoece. Que nos separa. Que nos cansa e entedia. E quase nos “adormece”.

No início deste “ciclone”, multiplicaram-se as pessoas que falaram da pandemia como uma guerra. É verdade que as suas consequências, aos mais diversos níveis, talvez sejam da ordem de grandeza de uma guerra. Mas “o inimigo” é demasiado microscópico. E não se destaca, como um grupo de pessoas que, de forma inequívoca, aos nossos olhos, encarnam o mal. E que, pela natureza da destruição que nos trazem, “absorvam” o ódio que o mal, num primeiro momento, logo nos desperta.

Esta é uma guerra, sim. De todos! Contra ninguém. Sem inimigos contra os quais se lute. Será, por isso, uma guerra estranha. Em que não nos unimos, circunstancialmente, em função da revolta ou do ódio. Mas em nome do conhecimento. Sem outro “inimigo” que não seja a forma como nos imaginam pessimistas sempre que ousamos pensar.