É a colaboração musical por que ansiavam todos os fãs do rock progressivo e da pop neocomunista. A interpretação da deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, ao megafone no 25 de Abril, do tema “Ó meu rico Santo António! Ó meu Santo Popular! Leva lá o Bolsonaro para ao pé do Salazar!” encantou o ex-líder dos Pink Floyd, Roger Waters, que num intervalo das injúrias a Trump, dos ataques a Israel e do pedido a Conan Osíris para não ir ao Festival da Eurovisão lá arranjou um tempinho para, também ele, apodar o presidente brasileiro de neofascista.

A expectativa é que a colaboração entre estes dois artistas dê origem a uma nova versão do clássico dos Pink Floyd “Another Brick In The Wall”. Só que enquanto a canção original criticava a rigidez dos colégios internos, na música a lançar o título será ligeiramente mais denotativo: a ideia que dá é que tanto Waters como Mortágua querem mesmo voltar a assentar tijolo naquele saudoso muro que demarcava o lindo projecto soviético. E, mais surpreendente ainda, desejam ficar do lado de lá do muro. Por mim é avançar, camaradas.

Sempre na senda do progresso, o Bloco de Esquerda prepara já outra novidade para o próximo 25 de Abril. Não que reneguem a imagem icónica do cravo no cano da G3, mas os bloquistas têm uma proposta superior: uma caixa cheia de cravos com uma caçadeira escondida lá dentro para ser retirada de surpresa quando o Bolsonaro lhes aparecer pela frente, ao jeito de Schwarzenegger em Exterminador Implacável 2 quando no centro comercial tem de salvar o puto daquele assassino que volta e meia se transforma numa espécie de gosma. Youtube it.

O Dia da Liberdade Também Para Fazer Péssimas Canções de Intervenção gerou enorme expectativa relativamente ao tema que o BE preparou para este Dia do Trabalhador. No momento em que escrevo ainda não escutei o novo sucesso, mas antecipo algo deste género:

Ó meu rico Santo António
Que Gregório IX canonizou
Leva lá o Jeff Bezos
Para ao pé do Champalimaud

Tem a suposta defesa dos supostamente oprimidos — neste caso os trabalhadores —, tem o desejo que um estrangeiro faleça e reitera o recém assumido gosto do Bloco pela tradição salazarista das marchas populares.

Por falar em líderes históricos do nosso Portugal, José Sócrates disse respeitar e elogiou a independência de Ivo Rosa, o juiz encarregado de decidir se o ex-primeiro-ministro vai ou não a julgamento. Confesso que fiquei surpreendido. Então não é que Sócrates gosta ainda mais do Ivo que do IVA!? Vindo do primeiro-ministro responsável pelo pujante crescimento do imposto de 19% até inauditos 23% é um extraordinário elogio para o juiz.

Mas como manso é a tia de Francisco Louçã, ao mesmo tempo que isto sucedia o “animal feroz” já se estava a pegar com Sérgio Moro. Sócrates acusou o ministro da Justiça brasileiro de ser um “activista disfarçado de juiz” e este afiançou que não debate “com criminosos pela televisão”. Portanto, recapitulando, temos: uma deputada portuguesa e vários membros do seu partido a desejar o falecimento do presidente do Brasil; um ex-chefe de governo português a insultar um membro do governo brasileiro; e finalmente o ministro da Justiça brasileiro a ofender um ex-primeiro-ministro português. Nunca tinha percebido aquela coisa de Portugal e Brasil serem países irmãos, mas eis que faz sentido: agora andamos sempre à pancada.