Planeta pós-Terra, 2025. Ali parece gente, mas de cara tapada: não pela fé a um deus, mas pela fé na medicina. Nas escolas, as campainhas deixaram de soar para o desejado encontro nos recreios e as mesas de estudo são cápsulas acrílicas – das que não levam ao Espaço –, onde as crianças esquecem a permeabilidade da pele à amizade iniciada nas mãos firmes da cabra cega. As filas atrasam o início e o final dos turnos num trânsito humano sem destino, feito de espera. A inteligência artificial vem dar o conforto, como outrora o interruptor prometera a luz: a aplicação indica quanto espaço por metro quadrado está disponível no laboratório da escola; um sensor aciona o relógio do pai de cada vez que o filho renuncia à distância asséptica e na C-Road, os carros autónomos compõem um bailado clássico para receção alternada das crianças que regressam a casa. Já não é inverno, mas parece.

Invariavelmente, os cenários distópicos parecem férteis para o pessimismo, escárnio e ironia, mas também são eles que nos ajudam a habitar os nossos medos, a percorrê-los de lés a lés e a voltar mais iluminados. Não obstante o fundamental e célere trabalho da DGS neste período de pandemia, e os esforços realizados no campo da medicina e da biologia, em investigação e hospitais, há que lembrar que a existência humana não é um reduto biológico. A prevalência do saber farmacológico no campo da subjetividade, das relações sociais (incluindo a Educação), reclama o debate alargado a todos os setores de atividade: um debate informado, participado, englobante, sensível e ético.

Depois de meio ano de expectativa e incerteza, de mães e pais que se fizeram professoras e professores nos intervalos possíveis do trabalho, de educadores que se desdobraram em esforços para, minimamente, cumprir a missão da escola à distância e de um conjunto de regras de saúde para povoar de novo o espaço público, voltamos à escola física. Urge, pois, não esquecer que aprender é esse enigma revelado no encontro certeiro entre a disponibilidade cognitiva, um corpo físico desperto, a vontade e a relação significativa com os outros que nos acompanham nessa circum-navegação. Ora, podemos garantir que os currículos se cumprem numa aprendizagem presencial, mista ou à distância; podemos, com todas as distâncias garantidas, levar as crianças a aprender de pé e a experimentar pelo corpo o infinito, na velocidade superada de uma corrida… Mas os outros surgem agora sem sorriso, exigindo ler-se bem a alma pelo que nos dão os olhos para lá da máscara. Outros, ainda, nem voltaremos a ver fisicamente, agora que as turmas foram divididas em turnos distintos e os recreios já não podem ser a esplanada prazenteira de encontro nos dias de sol. O corpo, sentado por tempo demasiado, ficará ainda mais cansado. E as nossas coisas? Optámos por limitar o acesso aos objetos, desde o laboratório à biblioteca. Já a exposição a outras referências – para além da «minha escola» – fica adiada, sem as costumeiras visitas de estudo ou as entrevistas a artistas, cientistas, historiadores… Evitar os grupos representará regredir nos trabalhos de projeto com colegas e professores próximos. Será realmente mais salutar o regresso ao tradicional num mundo onde a gig economy prolifera? O tradicional, que em Educação, recorde-se, não significa voltar aos teares de pente liço, mas ao ensino individualizado, isolado e passivo. E o que aprenderá esta nova geração sobre a vida biológica, a diferença, a liberdade e o amor? O que ficará hipotecado, sem prazo, para as tantas que hão-de vir? Coexistir no mundo que sonhamos começa nas mais pequenas decisões individuais.

Que desafios e clareiras de oportunidade poderemos, juntos, pensar?

  1. Emoções e pessoas significativas: agora que aprendemos o que fica por fazer no ensino à distância, procuremos garantir, presencialmente ou em casa, não apenas o que nutre os saberes. Estes são, sem dúvida, urgentes no advento de novos modos de estar em sociedade, mas não podemos penhorar o que já colecionámos sobre o que aprender e desenvolver-se significa.
  2. Salto em fluência digital docente: agora que temos um maior número de professores e professoras competentes no uso de tecnologias digitais, façamos opções mais críticas e menos «de suplemento» ao que os livros, os jogos e os mapas já tão bem sabem fazer. Façamos uma curadoria aos nossos recursos, para que realmente acrescentem diversidade e potenciem o chegar mais longe, do espírito e do corpo.
  3. Lideranças com missão: no período que passámos confinados, foram aqueles que reconheceram a relevância de desempenhar um papel por si e pelos outros que mais reuniram esforços em prol do coletivo. A coesão e a ação orientada – clara em termos dos valores que realmente queremos plasmar na educação formal e em cada gesto cidadão – persistem elementares.
  4. Mães, pais e os demais nossos: depois desta jornada, quantas famílias relataram ter-se visto ainda mais profundamente? Houve do bom e do muito bom, e também do que é mau por inteiro, mas grande parte das famílias ficou mais vigilante e consciente, não podendo mais delegar à escola o papel integral nas escolhas que se fazem numa educação formal. Vamos aproveitar o repto para participar mais e abrir os círculos àqueles que ficaram expostos no seu desamparo e para quem a escola cumpre um valor de socialização – e até mesmo humanização – fundamental.
  5. Recursos e redes: agora que tantos setores da sociedade tiveram de trabalhar de modo conjunto e diligente, compreendemos a premência do diálogo e da ação multidisciplinar para o desenvolvimento de estímulos educativos, analógicos e digitais, que possam prolongar o prazer partilhado do jogo na ética que ele, cedo, nos ensina.
  6. Continuidade e sustentabilidade: não são clichés, são a única matéria a viabilizar o presente – precisamos de garantir e massificar o acesso a infraestruturas de suporte tecnológico e a projetos de educação de banda larga que resistam a mudanças de condições e circunstâncias económicas, políticas e sanitárias. Projetos que reconheçam o pulsar dos afetos e acarinhem o selvagem, a que chamamos “natureza”».

Planeta Terra, 2020. Ouvem-se as campainhas, os sinos e os pássaros. O inverno ainda pode esperar.