Não, não é verdade que “a minha liberdade começa onde termina a do outro”. Aliás, uma frase como esta (que se foi transformando quase num slogan), serviu para que todos nos encolhêssemos perante o comportamento de muitas pessoas que — ignorando-nos, por exemplo — faziam aquilo que lhes dava na real gana porque fosse qual fosse a observação (mínima) que lhe fizéssemos seria interpretada como um “ataque” à sua liberdade. É verdade que a essa interpretação abusiva da liberdade pode ter representado uma reacção a uma ideia esdrúxula de “boa educação”, tida, muitas vezes, como uma atitude submissa e silenciosa diante de algum maltrato. E é, também, verdade que a boa educação não é, unicamente, um formalismo de etiqueta. É uma atitude, genuinamente, cuidadora. Na verdade, estamos todos muito pouco “preparados” para a boa educação. E para a liberdade. E era importante que tivéssemos a coragem de o assumir. E a humildade de nos recriarmos, em todos os nossos gestos, no sentido de nos tornarmos melhores.

A boa educação não implica que sejamos “bonzinhos”, “queridinhos” ou “encolhidos”. Não supõe que utilizemos, várias vezes, palavras “socialmente correctas” como “partilhar” enquanto o tom da nossa voz varia entre o sonso e o falso. Nem nos impede de sermos verdadeiros naquilo que dizemos. A boa educação também não nos convida a evitarmos todos os “nãos” que o nosso coração recomenda que digamos. Exige que falemos de olhos nos olhos. E que se aceite que precisamos dos outros para que a nossa liberdade comece aí. Reformulando o “slogan”, talvez as coisas se possam colocar assim: “a minha liberdade começa onde começa a dos outros”. Ou seja, quando duas pessoas não conseguem ser livres, uma diante da outra, ao mesmo tempo, não são livres! O que significa que ignorar os outros nos condena a ficarmos presos na solidão e no narcisismo. Por outras palavras, torna-nos xenófobos, sem darmos por isso. Aliás, esse deslumbramento neoliberal que trespassou para as relações pessoais — e que, numa interpretação muito “livre”, se traduziu num: “primeiro eu, depois eu e, finalmente, eu”; ou se precipitou abismo-abaixo, quando tornamos nossos outros slogans como: “se eu não gostar de mim, quem é que gosta?….” — faz dos outros… “outros” ou estranhos; o que nos torna incapazes de perceber que é com eles que descobrimos quem somos e o que pensamos. Não assumindo “os outros” como parte de nós resvalamos para uma “solidão assistida”, que nos leva a reivindicar os direitos que nos excluirmos de cumprir.

Vem tudo isto a propósito do coronavírus. E, mais em pormenor, do desconfinamento social que vamos observando. Com muitos hipermercados “distraidamente” a não dar conta no número de pessoas que lá entram, na ausência de distâncias de segurança ou na “greve de zelo” às máscaras ou às luvas de muitos utentes. Com inúmeras pessoas a usarem máscaras no queixo, no pescoço ou na testa. Com operadores de transportes a não “repararem” na forma sobrelotada dos serviços que prestam. Ou com muitas pessoas a fazerem interpretações muito suas das regras que nos protegem a todos quando vão à praia ou quando frequentam sítios públicos, por exemplo. Se forem repreendidas ou se um agente da autoridade as advertir as pessoas cumprem. No resto do tempo, parecem ser como aquelas crianças que, porque cresceram num clima de “eu é que mando!”, só quando são muito assustadas é que são cumpridoras. No resto do tempo, desafiam (clandestinamente) a autoridade das regras com um certo furor de: “vejam como eu sou corajoso!”, como se elas só servissem para ser opressivas. Ora, ninguém que paute os seus comportamentos pelo medo (que não divide) é livre. Logo, se aquilo que nos leva a cumprir as regras for unicamente o medo — movidos pelas receio das consequências que, aos olhos da “autoridade”, o nosso incumprimento possa merecer — não estaremos a ser livres. Se, pelo contrário, cumprirmos as regras em nome de um “bem comum” estamos a sê-lo. É uma ligeira diferença que faz toda a diferença.

Eu acho que muitos de nós , infelizmente, não estaremos ao nível do compromisso de “todos com todos” que as regras que nos protegem de uma segunda vaga do coronavírus exigem. E parece-me que vimos as determinações dos governos como se elas não devessem ser nossas nem começar nos nossos actos de todos os dias. Talvez, também, ainda não seja muito claro, para muitos de nós, que a boa educação pressupõe que cuidemos dos “outros” como gostaríamos que eles cuidem de nós. Nem que a nossa liberdade começa quando cuidamos da liberdade do “outro”. Às vezes, pôr uma máscara ajuda a que se “tire a máscara”. Se for assim, talvez não estejamos a merecer o desafio cívico que, em nome de valores como a educação e a liberdade, uma pandemia nos acabou por trazer. Estamos, antes, todos a fazer de “crianças bem mandadas”. Daquelas que se portam bem, unicamente, por medo das consequências de se portarem mal. Num mundo onde nem sequer as crianças, quando respeitam os pais, precisam de ser “bem mandadas” para viverem com regras que as protejam, para serem bem educadas e para serem livres, a pandemia merece mais e melhor de nós.