Rádio Observador

Legislativas 2015

Poema eleitoral

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278

Mestre Zhuang ficou famoso pelo seu discurso em que recusou um convite para ser primeiro-ministro, onde comparava ministros a bois de engorda e os corredores do poder a antros de depravação.

Zhuangzi (c.369—286 aC) não é uma referência óbvia para as próximas eleições legislativas. Está distante de mais de nós no espaço e no tempo: era chinês e morreu há já muito tempo. Era filósofo, um dos mais importantes da sua geração e da sua escola, e se fosse grego seria categorizado como cínico, uma versão sínica de Diógenes de Sinope (412—323 aC), um campeão em impopularidade. Era de vida austera por convicção política e filosófica, um superlativo de José Mujica, e para mais era também poeta, tendo escrito boa parte da sua crítica ao confucionismo e ao mohísmo em verso.

No entanto, Mestre Zhuang não era uma nulidade na arte da política e na gestão das finanças públicas, numa nação onde o engenho no governo, conjuntamente com a boa administração do erário real, sempre foi considerado a disciplina mais importante e elevada. Em prova disto conta-se que, tendo ouvido el-rei Wei (?—329 aC), do estado de Chu, do discernimento e competência de Zhuangzi, lhe terá pedido para se tornar primeiro-ministro do seu governo, tendo-lhe para tal oferecido, em sinal inicial de gratidão, título nobiliárquico e mil libras de prata. Um dos motivos da fama de Mestre Zhuang, entre gerações posteriores daqueles menos ligados a filosofias e mais atentos ao que é episódico na vida política, é o seu discurso de rejeição ao convite e ao presente. Depois de comparar ministros a bois de engorda e os corredores do poder a antros de depravação, termina dizendo aos dignatários reais: “Ide-vos embora depressa e não me conspurcais mais com a vossa presença. Prefiro chafurdar num charco de lama a emporcalhar-me com os humores e caprichos da real corte. Firmemente me decidi a nunca mais aceitar qualquer cargo para assim poder gozar mais livremente da minha própria carga”.

Para por em perspetiva esta recusa será bom considerar que a carreira política, na China do século quarto antes de Cristo tal como no Portugal de hoje, era uma daquelas que melhor podia assegurar o gozo da materialidade da vida, isto apesar de todos os riscos que o seu exercício envolvia. O poder de por e dispor e a capacidade de requisitar e gozar de um ministro eram contrabalançados muito tenuemente pela possibilidade futura e incerta de uma demissão por um capricho do soberano, seguida de acusação de corrupção, prisão, e outras experiências mais dolorosas. Tal lá como cá.

Parece pois apropriado e oportuno, neste período eleitoral, uma pequena infusão da sabedoria de Zhuangzi, que poderá relembrar algumas verdades básicas ao nosso soberano aparente, o povo, e aos candidatos a ministros do soberano. Não sob a forma de um programa, que o soberano não teria paciência para ler, mas de um poema eleitoral, sem lirismos de promessas mas com o realismo de cauções, fresco hoje como há 2400 anos atrás:

Gong-Wen Xuan viu um funcionário real manco,
Que, consequência da má fortuna política,
Mais não tinha que o apoio de um pé.
“Que tipo de homem é esta monstruosidade?” perguntou ele,
“De quem é a culpa? Do Céu, ou do Homem?”

“Do Céu”, respondeu o outro.
“Quando o Céu me deu a vida,
Desejou que me destacasse dos outros,
Enviou-me para o governo,
Para me poder distinguir.
Olha como sou diferente: um só pé”

O faisão dos pântanos,
Tem de saltar dez vezes,
Para debicar um grão,
E tem de dar cem passos,
Para engolir um gole d’água.

Mas nunca pede que lhe deem guarida num galinheiro,
Embora lá pudesse ter tudo o que poderia desejar.
Prefere correr e pular,
Procurar por si o seu sustento,
A viver engaiolado.

(Zhuangzi, Volumes Interiores, 3-3)

Mestre Zhuang escreveu este poema, do princípio ao fim, a pensar nos candidatos a ministro. A lembrar-lhes que as teias do poder são uma prisão tipo galinheiro. No entanto parece que ele pode servir igualmente bem para inspiração ao povo soberano no próximo ato eleitoral. O voto é a arma do povo. Mas depois de votar o povo fica desarmado e indefeso, também ele numa gaiola, preso por políticas que o alimentam com apoios ao investimento, subsídios de reinserção e reformas douradas, como dourado é o milho para galináceos. Preso, por algum tempo…

Professor de Finanças, AESE

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