O velho decidiu ir dar um passeio a pé pela cidade. Ao fim e ao cabo, umas boas caminhadas fazem bem ao corpo e à mente, dão para meditar na vida e naquilo que nos rodeia num alheamento saudável.

Decidiu procurar uma livraria onde talvez encontrasse algo interessante para ler. Entrou numa das praças principais e estava à procura da livraria quando, de repente, aparece um grupo de uma dezena ou dezena e meia de pessoas com cartazes — com as obrigatórias máscaras da Covid-19 e mantendo a distância social correcta.

Com eles estavam quatro polícias, aparentemente para os controlar, ou enquadrar, ou ajudar… E pessoal das cadeias de televisão e jornalistas com microfones de diferentes cores. Eram mais do que os manifestantes. Estes plantam-se no meio da praça com os seus cartazes: FORA, RUA, VÃO PARA CASA, CHEGA, LADRÕES, CORRUPTOS. E ajoelham-se. E com eles todos os que ali estavam, incluindo os polícias e o pessoal das televisões, rádios e jornais.

Uma velhinha, ainda mais velha do que ele, ajoelhou-se também e disse ao velho que estava perplexo: “Ajoelhe-se, se não vai de cana, levam-no a tribunal e, pimba, fica preso.” O velho lá se ajoelhou e, através de um megafone, o que presumidamente era o chefe do grupo ordenou que se observasse um minuto de silêncio.

Nesta coisa do tempo, pensou o velho, não pode haver observação. O tempo é uma realidade intangível, não dá para observar. Mas nada a fazer, são expressões novas.

Já estavam recolhidos em silêncio, quando o telefone do velho tocou, um som quase inaudível, normalmente, mas ali pareceu-lhe amplificado. A velhinha, mais uma vez, volta-se para ele: “Chiu! Estamos a observar [outra a observar o tempo] um minuto de silêncio. Olhe que vai de cana, levam-no a tribunal e, pimba, fica preso.”

E ali estava uma praça com muitas pessoas de joelhos e em silêncio, como se estivessem a orar a um deus até então desconhecido. Interessante! filosofou o nosso amigo. Nasceu uma nova religião.

Ao fim do longo minuto de silêncio, estritamente observado por todos, o velho, ao levantar-se, teve uma dor no joelho. As artroses não perdoam! E praguejou alto: “Merda!” A velhinha, indignada como um oficial da inquisição, voltou a repreendê-lo: “O senhor está a faltar ao respeito à manifestação. Tem sorte, se alguma câmara de televisão, ou um destes repórteres, ou uma destas pessoas a passar ouvem o que o senhor disse, vai de cana, levam-no a tribunal e, pimba, fica preso.”

E a manifestação continuou com as habituais palavras de ordem, ritmadas pelo chefe do grupo. Era, na realidade, um evento bem organizado, sem atropelos e com todos agindo em bom tom. De um modo tão educado, que pareciam funcionários de uma empresa nos seus postos de trabalho. E, pelos vistos, a trabalhar arduamente. Pagar-lhes-iam em dinheiro? Ou dar-lhes-iam no final apenas uma carcaça e uma meia de leite?

O velho recordou os tempos de estudante em que as manifs, como eram conhecidas na altura, eram mais atrevidas e onde a polícia carregava sobre eles sem dó nem piedade. O pessoal tinha que fugir e quantos não deixaram para trás os sapatos, as botas, os chinelos, as carteiras, os livros, eu sei lá.

Nessa mesma noite, o velho ficou perplexo ao ver os noticiários na televisão. “GRANDE MANIFESTAÇÃO DE APOIO [ou seria contra?] com centenas de manifestantes.” Mas eram no máximo quinze pessoas! A menos que tenham contado com o pessoal que ia a passar.

E, logo ali, o Primeiro-Ministro elogiando a forma correcta e digna com que a manifestação tinha decorrido. Sem dúvida, um exemplo para a Europa e o mundo de como estas iniciativas devem ser levadas a cabo. E um agradecimento especial às forças de segurança, que não só demonstraram um elevado sentido de dever mas também apoiaram os manifestantes.

E o Presidente da República também se manifestou. E todos os partidos políticos tiveram direito de antena para elogiar tamanha manifestação de força, querer e grande coragem. Pareceu-lhe retórica de ocasião, cheia de nada mas com muitos afectos.

Estão todos convertidos, filosofou o velho. O próximo passo deverá ser o assalto às igrejas, atirar aos rios e mares as imagens de Cristo e dos santos. Ficam substituídas as religiões tradicionais!

Será que pode acontecer? Sim! Na realidade, o mundo está rapidamente a transformar todo o passado e tradições num amontoar de actos criminosos perpetrados por vilões da pior espécie. Não interessa quando foi, se foi antes de nós, é ruim! A velocidade e o ódio colocados nesta expurga são avassaladores.

O mundo é hoje governado por movimentos de opinião gerados e transmitidos por órgãos de informação. Correm mundo em simultâneo, muitas vezes com imagens, dando-lhes um aspecto de veracidade impressionante. Entram nos telemóveis, computadores, laptops, tablets de todos os cidadãos do mundo. A propagação desta nova religião é efectuada sem misericórdia, a uma velocidade alucinante, por tudo quanto é sítio. Os focos de resistência serão aniquilados muito em breve, garantem, enquanto os criticam e maltratam.

E, finalmente, seremos todos iguais. Literalmente! Com as mesmas opiniões sobre todos os assuntos, nem poderá ser de outro modo. E estou certo que todos ajoelharemos diversas vezes ao dia, às mesmas horas, em veneração ordeira e obediente. A obediência às novas regras será absoluta.

E a humanidade será feliz e politicamente correcta!