Metaforicamente, atenção! Metaforicamente. Trata-se somente do apelo metafórico que me ocorre, em resposta à sugestão, também ela metafórica, como é óbvio, de Mamadou Ba, de que “temos é que matar o homem branco”. Até porque, para aí de Julho a Setembro, não estou sequer seguro que o nível de melanina no meu organismo me permita ser apodado de “homem branco”.

Muita gente reagiu com indignação a esta declaração de Mamadou Ba, como se considerações metafóricas deste género, repetidas à exaustão, décadas a fio, em discursos inflamados, pudessem redundar em qualquer espécie de perigo, ligeiramente menos metafórico, para a integridade física de alguém. Alguma vez?! Que disparate. Quem tal barbaridade insinua, revela a sua ignorância, pois não percebeu que Mamadou Ba estava apenas a citar uma obra de um tal Frantz Fanon — Francisco Fanã, em português. Francisco Fanã que, para aí nos anos 50, assinalou que “o homem branco que nos trouxe até aqui tem de ser morto”. E fê-lo, segundo consta, em sentido mesmo muito pouco metafórico. Mas, enfim, nem todos podem dominar as figuras de estilo como Mamadou Ba.

Tendo tudo isto em conta, como é que o Ministério da Educação ainda não fez deste Chico Fanã leitura obrigatória no 2º ciclo do Ensino Básico é coisa que me ultrapassa. Ultrapassa-me pela direita, diga-se. Que, pelo sim, pelo não, manter-me-ei encostadinho à esquerda. Receio que tanta metáfora anti-racisto-colonialisto-xenófoba acabe por aleijar. E aguardarei, com um misto de impaciência e esperança, pela lista de leituras obrigatórias para o 5º ano em 2021/2022.

Como é óbvio, qualquer pessoa honesta percebeu que o que Mamadou Ba “quis dizer foi que, para combater o racismo, é necessário combater (…) o subconsciente coletivo das sociedades marcadas pelo processo colonial”. Lá está o velho problema desta malta marxista. Não satisfeita com a omnipresente abundância gerada pela colectivização dos meios de produção, também quer colectivizar o nosso subconsciente. É que colectivizar terras e máquinas é só criminosamente ineficaz, agora colectivizar o subconsciente é também, e sobretudo, uma tremenda falta de higiene. Tudo para ali, a partilhar o mesmo subconsciente.

Bom, uma vez que falei de marxistas, e atendendo ao equilíbrio que sempre pauta estas minhas intervenções, deter-me-ei agora em André Ventura. O líder do Chega mereceu renovado repúdio desde o acordo com o PSD nos Açores. Da parte do PS, trata-se de um tipo de repúdio que é o exacto oposto daquele que assola alguns indivíduos casados quando, em passeio com a esposa, se cruzam com uma jovem sueca, que já tinham topado, envergando o que parece ser um cachecol no local onde, tipicamente, se encontraria uma saia. “Já viste aquilo?”, indaga a esposa, indignada. “Que nojo. Como é possível?”, retorque o marido. Para, assim que a esposa olha para a montra seguinte, fitar a encalorada nórdica com a capacidade perscrutante de uma TAC. Isto é, neste caso temos interesse-repúdio-interesse. No caso do PS, com André Ventura, temos repúdio-interesse-repúdio, como ficou comprovado quando o Governo precisou do líder do Chega, por breves minutos, para aprovar o Orçamento do Estado. Assim que o Orçamento foi aprovado, retomou o enorme nojo.

Mas o tema que tem animado os últimos dias é saber quem é mais anti-democrático: se o Chega, o PCP ou o Bloco de Esquerda. Salvo melhor opinião — são livres de procurar uma, mas é uma busca vã –, o PCP e o BE são mais anti-democráticos do que o Chega. E é relativamente fácil demonstrá-lo. PCP e BE são partidos que veneram um sistema político que, nos últimos 100 anos, foi responsável pela morte de 100 milhões de pessoas (and counting). Já André Ventura é capaz de estar um bocadinho longe de ser o Hitler. Está até longe de ser um jovem Hitler. Na verdade, André Ventura será, na melhor das hipóteses um, digamos, espermatozóide do senhor Alois Hitler Sr., o progenitor de Adolf Hitler. Ou seja, a probabilidade de, num regime comunista, falecer, é incomparavelmente superior à probabilidade de, com André Ventura, nascer um novo Hitler.