Claro que podem! O que não se entende é que se vá aceitando, silenciosamente, a ideia de que os “nãos” são opressores. (E não é bem assim.) Que as crianças serão tanto mais felizes quanto mais livres de “nãos” elas crescerem. (E isso não é verdade.) E que, para que as crianças sejam felizes, os pais devem ir muito mais à boleia da sua vontade do que elas deverão ser trazidas para ao pé da nossa. (E isso é um equívoco que pode tornar-se trágico.)

Comecemos pelo princípio: ninguém cresce feliz à margem do “não!”. É verdade que um qualquer “não” — dos nossos pais, da “vida”, da escola, dos amigos ou da nossa própria “consciência” — não é nem amável nem amistoso. E é verdade que ele magoa e dói, um bocadinho. Sobretudo quando as crianças se sentem amadas e, por isso mesmo, se sentem um bocadinho “omnipotentes”.

“Omnipotentes” quererá dizer: “Quem ama não magoa”. Ou: “Quem me ama, vai dizer sim a tudo aquilo que eu quiser”. Ou ainda: “Só para não me ver triste, não vai ter coragem para me contrariar”. É por isso que as crianças “tiram a paciência a um santo”, “têm de ter sempre a última palavra” ou nos “põem a cabeça em água”. Isto é: insistem, insistem e insistem! Porque as vezes anteriores em que insistiram para que lhes fizéssemos as suas vontades nos “ganharam” e isso lhes deu razão para que presumam que “a luta é difícil, mas a vitória é certa”. Até aqui, tudo saudável!

E continua a ser saudável que, numa espécie de “braço de ferro” em relação aquilo que elas querem, levem os pais “ao limite” (na verdade, não são elas quem os leva “ao limite”; são os pais que esticam a sua própria paciência, até não poderem mais). Ou — quando são capazes de os persuadir, de os seduzir ou, mesmo, de os “encantar” – os levam a concretizar os desejos delas mesmo que, antes, os pais os tenham, “irrevogavelmente”, negado ou reprimido.

Por maioria de razão, o “não” dói tanto mais quanto mais os nossos filhos se sentem muito amados — e, por isso mesmo, quanto mais eles se sintam com um “jeitinho” especial para nos “meterem no bolso”. É por isso que da dor de um “não!” ao desabafo das mães — quando reconhecem que “o meu filho não gosta de ser contrariado” — se dê só um pequeno passo. Ou seja, eles não desistem antes, nem desistem depois de os contrariarmos. Por mais que, ao contrário do “brilhozinho” com que as mães assumem essa peculiaridade dum filho (dando a entender que isso seria consequência duma “personalidade muito forte” da sua criança), o que seria, mesmo, de estranhar era que uma criança gostasse muito de ser contrariada…

Portanto, quando as crianças são contrariadas, elas não gostam nada da ideia de um “não” a atazanar-lhes a vida. Ficam melindradas. Sentidas. E magoadas. E, nesse preciso momento, não serão as crianças mais felizes do Universo! É verdade que não! E é, também, verdade que isso dói! A questão que se deve colocar, de seguida, é se essas dores, incontornáveis, as fazem crescer ou se, pelo contrário, comprometem a sua felicidade?…

Um mundo onde as pequenas dores parecem não ter lugar cria uma espécie de imunodeficiência adquirida à dor que faz com que, sempre que o mundo não é aquilo que nós desejamos, uma pequena dor se transforme numa dor irrespirável. Ou num traumatismo. Ou seja, traumático não é o “não”, mas as consequências que a sua ausência traz a qualquer “não”. É por falta dos “nãos” indispensáveis que a nossa paciência para encontrarmos as melhores formas para que o mundo nos escute ora esbarra na raiva ora no desamparo com que reagimos à forma como nos sentimos “perseguidos” por ele. A dor será como o sal na cozinha: de menos, fragiliza e compromete o crescimento; de mais, fragiliza e compromete o crescimento. Por outras palavras: sempre que os “nãos inadiáveis” dão lugar a “sins convenientes” os pais poderão imaginar que, por se tornarem mais agradáveis, não só eles se transformam em melhores pais como, também, os seus filhos serão mais felizes. Mas não é assim! Crianças que crescem sem os “nãos indispensáveis” vivem inseguras e agitadas. Oscilando entre a forma como se impõem e o modo como se acanham. Ora amedrontadas; ora assustadoras.

Crianças para quem só os “sins” são possíveis não são crianças mais seguras. Pelo contrário, são crianças para quem tudo aquilo que não se traduza na sua vontade acaba por ser objeto de insegurança. Isto é: são crianças infelizes. E não são crianças livres. Ou seja, quanto mais os pais educarem filhos assustados com o “não” mais eles, ao contrário daquilo que querem, os empurram para a intolerância e para a desconfiança.