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Já quase toda a gente esteve a favor e contra a descida da TSU, dependendo das circunstâncias. Não é essa a questão que importa, mas esta: porque é que o papel do PSD deveria ser apenas o de servir de suplente ao PCP e ao BE no apoio ao governo de António Costa? Porque é que, segundo a oligarquia político-mediática, não é aceitável que haja oposição?

A actual maioria parlamentar tem esta particularidade: é composta por forças políticas que estão em queda em toda a Europa. Basta pensar no fracasso de François Hollande em França ou do Syriza na Grécia, ou na irrelevância do PSOE e do Podemos em Espanha ou de Jeremy Corbyn no Reino Unido. O radicalismo julgou-se ressuscitado com a guerra do Iraque em 2003, que lhe serviu para voltar à rua. Com a crise de 2008, que logo diagnosticou como mais uma “morte do capitalismo”, contaminou a esquerda democrática. Mas os radicais e os radicalizados perderam. Quase por toda a Europa, o desafio à integração europeia é protagonizada pelo populismo nacionalista, e a defesa da integração europeia pela direita democrática.

Em Portugal, radicais e radicalizados está no poder. Mas não estão nas condições que muitos imaginaram, quando era costume prever que Costa, o PCP e o BE aproveitariam o ajustamento para uma grande expansão eleitoral. Em vez disso, Costa sofreu uma derrota humilhante, enquanto o PCP e o BE ficaram pelos níveis de 2009. Foi o fracasso que os uniu. Os acordos serviram-lhes para escalarem o poder através de uma manobra parlamentar, mas não para readquirirem uma confiança perdida de vez. Queriam acabar com a austeridade, rever a relação com a Europa. Mas o que fazem, de facto, é outra coisa: aproveitar a assistência financeira do BCE para distribuir rendas por grupos de dependentes do Estado, com os quais esperam cerzir uma “base social de apoio”. Assim se está a transformar o Estado social num Estado clientelar, isto é, num Estado onde os serviços públicos são menos importantes do que o emprego público.

A novidade deste arranjo político é que integra o PCP e o BE, as tradicionais fontes de contestação no sector público e na imprensa. Daí a “paz social”. Mas o modo como o governo tentou usar a TSU para comprometer o PSD sugere que a “paz social”, afinal, não basta a Costa. Ao contrário de outros países europeus, não há populismo em Portugal, em grande medida porque a imigração, que o tem inspirado na Europa, foi limitada pela estagnação económica (até os sírios fogem à primeira oportunidade). Mas como os juros sobem, a oligarquia parece empenhada em que não haja nenhuma alternativa dentro do país que possa começar a gerar pressão sobre o governo. Daí a conveniência de desestruturar e desmoralizar a oposição, forçando-a a lidar, sob o charivari da oligarquia político-mediática, com a perspectiva de compromissos vexantes, como neste caso. Pode ter sido o PCP a provocar o caso da TSU, mas foi o governo que o procurou aproveitar para minar a liderança de Passos Coelho.

Se houvesse dúvidas sobre o sonho oligárquico de eliminar a oposição, bastaria reparar na sanha geral dos instalados do sistema contra Passos Coelho. É uma sanha compreensível. A cacofonia na área do PSD, e também entre o PSD e o CDS, permite suspeitar que só Passos Coelho dá neste momento forma de oposição aos partidos parlamentares à direita do PS. Sem Passos, seria o caos à direita. Toda a classe política acabaria diluída numa sopa da pedra que António Costa poderia mexer à vontade com a sua colher orçamental. Mas isso também significaria que, quando mudarem as circunstâncias externas que agora permitem o défice e a dívida, não só o país não estaria preparado para viver de outro modo, mas também não haveria uma alternativa organizada dentro do regime. A oligarquia, porém, não quer saber disso. Quem é que, afinal, é politiqueiro?

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