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A acreditar no que se vai lendo e ouvindo, estamos à beira de regressar aos gloriosos tempos do crescimento. Tudo porque o Banco Central Europeu vai voltar a ligar as rotativas, inundando o mercado de euros, indo assim ao encontro dos que sempre defenderam que o dinheiro, havendo vontade, aparece sempre.

Eu sei que, descrita assim, a provável decisão do BCE de iniciar uma política de “quantative easing” aparece, digamos, excessivamente simplificada. O processo é mais complexo (muito mais complexo) e a abordagem mais sofisticada. Mas o ponto essencial continua a ser mais ou menos o mesmo: colocar mais dinheiro na economia com a esperança que esta, tal como um corpo dormente que leva uma injecção de adrenalina, reanime.

A maneira como se espera que a coisa funcione é mais ou menos esta, de uma forma assumidamente simplista: o banco dirigido por Mario Draghi vai comprar dívida pública dos vários estados na zona euro, esperando com isso libertar o sistema bancário desse encargo, passando depois os bancos a canalizarem mais dinheiro para a economia. Como o dinheiro também está baratíssimo, isso deverá ser suficiente para financiar mais investimentos e mais consumo.

No passado, quando os bancos centrais colocavam mais dinheiro a circular, isso traduzia-se quase automaticamente em inflação, e é também isso que se pretende, uma vez que a zona euro está com inflação negativa. Mesmo assim não deixa de haver quem defenda a ideia de que a obstinada oposição da Alemanha ao pacote do BCE se explica pela conhecida obsessão germânica com a inflação.

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Deixemos contudo esta discussão de lado para irmos ao essencial: será que a “bazuca” (ou a “mini-bazuca”, como outros lhe chamam) de Mario Draghi consegue acordar o gigante adormecido, a dormente economia da zona euro? A crer no entusiasmo com que tem sido defendida e nas expectivas que foram criadas, não falta quem defenda que só o conseguirá como peca por tardia. Mas eu desconfio. Para não dizer que discordo.

Comecemos pelas razões da minha desconfiança. A crença geral é, como vimos, que com mais dinheiro a circular e com dinheiro ainda mais barato, haverá mais investimento e mais consumo, logo mais crescimento económico. Na verdade é já uma acção quase desesperada, pois o preço do dinheiro tem vindo a baixar para níveis históricos, e isso pouco tem ajudado ao relançamento da economia – e suspeito que não vai passar a ajudar com o “quantitative easing”. Porque falta o resto, isto é, faltam as outras condições para a economia crescer.

O erro, na minha perspectiva, vem de duas ideias erradas. A primeira é de que não há mais investimento porque não há dinheiro nos bancos para emprestar ou porque o dinheiro ainda está caro para as empresas. Penso que o verdadeiro problema é outro: faltam bons projectos de investimento, os investidores estão mais prudentes, os bancos olham com muito mais cuidado para os pedidos de crédito que recebem, há menos inovação do que a necessária, há muita sobrecapacidade instalada, por fim há imensa desconfiança quanto à rentabilidade de investimentos que apostem em grandes crescimentos futuros. Basta falar com os banqueiros portugueses para perceber que a realidade é mais depressa esta que aqui descrevo do que falta de dinheiro para emprestar as empresas. Dinheiro até haverá, falta é onde investi-lo e quem arrisque investimentos.

A segunda ideia errada é a de que basta colocar mais dinheiro no bolso dos consumidores para estimular o consumo e, por essa via, o crescimento. Se fosse exactamente assim, era melhor que o BCE pegasse no dinheiro que vai injectar no sistema por via de compra de dívida pública e o desse directamente aos contribuintes, como já foi sugerido. Só que creio que esta dedução começa a ser cada vez menos verdadeira, sobretudo no que respeita a uma relação directa entre mais dinheiro nos bolsos e mais dinheiro gasto em consumo. E é menos verdadeira porque as populações europeias estão cada vez mais envelhecidas e os economistas sabem que os mais velhos têm menos propensão a investir, ou mesmo simplesmente a gastar, e mais tendência para poupar. Não há aqui nenhuma novidade. O que faltará é compreender que populações demograficamente diferentes reagem de forma diferente ao mesmo tipo de estímulos monetários.

Recentemente ouvi um banqueiro que, ao descrever a actual situação, confessou não ver bem onde se pode aplicar a força para induzir efeitos positivos. Disse ele que era como uma espécie de sopa de legumes que mexemos, mexemos, às vezes vem um bocado de cenoura à superfície, outras vezes é um bocado de batata, mas continua sempre a ser uma desinteressante sopa de legumes. É uma imagem que me parece sugestiva e que descreve bem as perplexidades actuais de muitos agentes económicos.

Mas há mais factores que contribuem para a inércia desse corpo mole em que parece estar transformada a economia europeia. O primeiro é a dívida. Sim, a eterna dívida. Não, não a dívida dos Estados. Ou não só a dívida dos Estados. De 2008 para cá a dívida acumulada, pública e privada, cresceu o equivalente a mais 20 pontos percentuais do PIB global. Uma barbaridade. Um peso que condiciona todas as decisões, de investimento ou consumo, dos agentes económicos e das famílias. Muitas vezes tende-se a esquecer isso quando se repetem velhas fórmulas keynesianas, fórmulas desenhadas num tempo em que a demografia era outra e o peso do Estado e das dívidas também.

De facto também é preciso não esquecer que, apesar de todos os discursos contra a austeridade e o “neoliberalismo”, a tendência inexorável em quase todas as democracias desenvolvidas tem sido a de fazer aumentar o peso do Estado na Economia, deixando cada vez menos espaço para a economia produtiva. Desconfiam? Vejam os números: o peso da despesa pública passou em França de 51,1% do PIB em 2000 para 57,1% em 2013; em Portugal de 42,6% para 50,1%; no Reino Unido de 37,9% para 45,3%; em Espanha de 39,1% para 44,3%; até nos Estados Unidos de 31,6% para 36,3%. Para “estado mínimo” não está mal, mas isso é uma outra discussão, a que voltarei.

O “quantitative easing” não vai mudar estes dados de base, e por isso tenho muitas dúvidas que possa funcionar tão bem como os seus advogados têm defendido – se é que vai funcionar de todo. Mais: começo a dar atenção aos que argumentam contra o plano de Mario Draghi, como ainda esta semana fez em Davos William White, antigo economista-chefe do Bank of International Settlements (BIS), o banco central dos bancos centrais, e um dos poucos economistas que previu a crise do Lehman Brothers. Ele teme, por exemplo, uma guerra monetária entre bancos centrais e que isso acabe por conduzir a uma situação em que os próprios bancos centrais percam o controlo da situação.

Não sou dos que dão demasiada atenção às cassandras que, nestes tempos de crise, nos estão sempre a prever uma catástrofe para o dia seguinte. Mas, no que respeita a esta minha intuição sobre a “bala mágica” de Mario Draghi, só espero estar enganado. Isto é, que a injeção da adrenalina do “quatitative easing” tenha algum efeito, que bem precisamos disso. Mas sem esquecer que se trata de uma medida de último recurso, quase desesperada, e com muito pouco de estrutural. Vamos a ver como corre.