Em todo o mundo, o impacto das alergias na qualidade de vida da população é muito significativo, representando a atual pandemia um verdadeiro desafio à gestão destas doenças.

Entre as várias doenças alérgicas crónicas, a asma é a que causa mais preocupação, quer nas pessoas afetadas, quer nas suas famílias. Em Portugal, estima-se que um milhão de pessoas tem o diagnóstico de asma e mais de metade têm a sua asma ativa, ou seja, têm necessidade de tratamento e/ou manifestações clínicas que variam de formas ligeiras a quadros muito graves, dificultando uma qualidade de vida razoável.

Cerca de 300 mil são os que terão tido pelo menos uma crise de asma no último ano. Os custos são duas a três vezes mais elevados quando a doença não está controlada e a taxa de internamento mantém-se alta, em especial na idade pediátrica.

A tosse, a dificuldade em respirar, a pieira (ruído tipo assobio que se ouve ao respirar) ou a chiadeira no peito, o cansaço ou o aperto torácico, são sintomas típicos desta doença, muitas vezes associadas a queixas no nariz, nos olhos e na pele. E estas queixas podem ocorrer por várias causas como é o caso das infeções virais, das alergias aos ácaros do pó ou aos pólenes, pelo exercício físico, com a ansiedade e o stress ou com mudanças súbitas das condições meteorológicas. E o tabagismo entre os asmáticos, tal como a exposição passiva a este poluente, são demasiadamente prevalentes. Em períodos de confinamento, estes aspetos nunca podem ser esquecidos.

A asma surge frequentemente na infância, embora possa manifestar-se em qualquer idade. Infelizmente falta com frequência o diagnóstico, isto é, o reconhecimento das queixas que poderiam levar à indicação de um programa de prevenção, com a utilização de medicamentos dos quais se destacam os corticoides inalados. Por outro lado, no nosso país, quase metade dos doentes já diagnosticados não estão controlados. E para controlar melhor é preciso tratar melhor e, infelizmente, mais de 50 por cento dos asmáticos não cumprem bem a medicação, ou não têm acesso à medicação mais eficaz e esta percentagem é ainda superior nos casos de asma grave. E, agora, a situação estará ainda mais grave.

Quando a asma não está controlada, os doentes sentem uma limitação da sua qualidade de vida, sendo causa frequente de faltas à escola ou ao trabalho, de recursos ao serviço de urgência e a internamentos hospitalares.

São por isso muito válidas as campanhas, as iniciativas ou as colaborações que visem aumentar o diagnóstico e o controlo da asma e das outras doenças alérgicas como a rinite alérgica, as alergias alimentares ou a medicamentos, bem como as alergias cutâneas entre várias outras.

E agora, neste momento em que uma pandemia nos atinge, de uma maneira nova, surpreendente, incerta, sabemos que a deslocação a cuidados médicos e a procura de tratamentos essenciais estão a ser afetados. Tal, pode por em perigo ganhos em saúde que foram alcançados e que não podem ser perdidos.

A Organização Mundial de Alergia, propõe este ano que, em era de pandemia, comemoremos a Semana Mundial das Alergias, recordando que as alergias estão entre nós e nas nossas famílias, dos nossos avós aos nossos netos. E lembramos que as infeções virais, como a que agora mais nos preocupa, podem influenciar muito a nossa qualidade de vida, podendo, até, por a nossa vida em risco.

Com o foco na pandemia, pode existir agora menos atenção a outros problemas de saúde. No entanto, isso não significa que as alergias ou a asma se tornaram menos importantes e que se devam reduzir ou adiar os cuidados essenciais. De facto, controlar as suas alergias pode ajudar a proteger-nos da Covid-19.

Pessoas com alergias e asma têm de ter acesso a cuidados regulares, com a maior segurança possível. Quando em tratamento para as alergias, deve ser discutido com os profissionais de saúde a melhor forma de continuar a beneficiar dos cuidados que não devem ser adiados.

O médico pode oferecer a opção de uma consulta por telefone ou vídeo para evitar a deslocação. Mas se for preciso procurar atendimento médico pessoalmente, não tem de existir qualquer receio. A distância física deve ser mantida, a máscara colocada e as mãos desinfetadas com frequência. Os serviços de saúde estão preparados para receber quem necessita.

Quem tem alergias sabe que deve evitar a Covid-19, mas também precisa de evitar os alergénios. O meu alerta e pedido vai para que não parem os medicamentos prescritos para a asma ou para as alergias. Isto é particularmente importante para os corticoides inalados e outros medicamentos usados para controlar a asma, a rinite alérgica ou outras alergias. Estes devem ser utilizados da maneira que o médico ensinou. O tratamento com vacinas antialérgicas pode também ser continuado. Falar e gerir a medicação com o alergologista é fundamental.

Cuide sempre das suas alergias e da sua asma – durante e após a pandemia.