Rádio Observador

Livros

‘Portugal católico’

Autor
597

“Os católicos continuam a desempenhar um importante papel. Na escola, na saúde, na solidariedade social, na cultura, na ciência, na tecnologia”. E na política?

O título desta crónica é o da obra que foi apresentada, no passado dia 21, pelo Presidente da República e pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, na reitoria da Universidade de Lisboa. Oitocentas páginas, várias centenas de magníficas fotografias e quase duzentos textos de outros tantos autores, dos mais diversos quadrantes do catolicismo português – não em vão se subintitula ‘A beleza da diversidade’ – compõem esta monumental edição do Círculo de Leitores, que os professores José Carlos Seabra Pereira e José Eduardo Franco excelentemente organizaram, com o generoso patrocínio de Alexandre Soares dos Santos e de várias instituições culturais.

‘Portugal católico’ é, diga-se de passagem, um título provocatório: sugere que o Estado português é confessional. Uma tal profissão de fé parece também insultuosa para quantos portugueses se afirmam agnósticos, ateus, crentes de outras religiões, ou fiéis de outras confissões cristãs. Respirem fundo os não-católicos: não é esse o propósito dos promotores desta louvável iniciativa, que não pretende ser hostil nem polémica, mas informativa do que é, na actualidade, o catolicismo português.

Mas, Portugal é católico?! Como no prefácio escreveu Marcelo Rebelo de Sousa, “não há Portugal sem cristianismo. Assim foi desde os primórdios da nacionalidade”. Com efeito, o nosso país nasceu católico, não apenas porque o era o fundador da nacionalidade e quantos com ele se empenharam em tornar soberano este condado do reino de Leão, mas também porque surge no âmbito da cruzada contra o Islão, que invadira e ocupara a península, impondo pelas armas uma religião que era estranha à população, já então cristã de longa data.

Alguns períodos de intolerância e repressão na história nacional – como a perseguição aos judeus, a inquisição, a expulsão dos jesuítas, a extinção dos conventos e a primeira república – foram uma dolorosa excepção à regra do que é Portugal, segundo a generosa definição do Presidente da República: “terra que somos de emigrantes e de imigrantes e refugiados, aberta a todos, com generosidade e gratidão”.

Diga-se o que se disser, não se pode ignorar que a matriz cristã caracteriza a história e a cultura portuguesa: “os cristãos – e, dentro deles, os católicos – estiveram presentes em todos os lances da nossa história – da afirmação da independência à expansão pelos oceanos e à chegada a outros continentes, da construção do Império à descolonização, da monarquia à república, das ditaduras à democracia”, prefaciou o Presidente da República. Uma marca que se distingue, como também disse Marcelo Rebelo de Sousa, por “uma visão personalista, humanista e ecuménica, que perdurou até hoje e é um denominador comum inquestionável”.

Graças a esta fé, os nossos descobridores, mais do que conquistadores que se impusessem pela força bélica, foram sobretudo colonizadores e feitores. Embora também tenha havido excessos deploráveis – pense-se, por exemplo, no ignóbil comércio de escravos – a presença portuguesa em terras de além-mar foi decerto mais humanista e tolerante do que a de outras potências coloniais do velho continente. Por isso, a presença portuguesa é ainda hoje recordada com saudade nas antigas colónias, em que até os principais clubes do futebol nacional têm fervorosos adeptos.

Mesmo a desastrada descolonização, que nada teve de exemplar, por mais que o regime pretenda branquear a sua responsabilidade histórica, não foi tão traumática como, por exemplo, a protagonizada pela saída dos franceses das suas possessões no norte de África. Não obstante as imensas dificuldades por que tiveram que passar os ‘retornados’, a verdade é que a pátria-mãe os acolheu, pior ou melhor, reintegrando-os depois do seu dramático regresso ao continente. Muitos deixaram, nessas ‘províncias ultramarinas’, as lembranças e os haveres de uma vida que, se em algum caso foi de exploração das populações locais, em geral foi de fraterna colaboração com os seus naturais que, em geral, reconhecem e agradecem.

Poucos meses depois da declaração da independência angolana, um diplomata português foi mandado parar, em Luanda, por um polícia local. Perguntou-lhe o agente se era angolano, ao que respondeu, obviamente, que era estrangeiro. Inquiriu então o guarda qual a sua nacionalidade e, ao saber que era português, afirmou: ‘- Então não é estrangeiro, é português!’ Releve-se a ignorância do polícia à conta da gentileza desta sua afirmação que, se é errada em termos formais, é significativa do sentimento de proximidade que, não obstante a recente independência da sua pátria, aquele agente da autoridade sentia em relação a Portugal.

“O Presidente da República Portuguesa, que se orgulha de ser católico, mas representa todos os portugueses, sem discriminações ou marginalizações” também reconhece que a Igreja católica não só foi uma importante referência histórica nacional, como também agora o é, porque “os católicos continuam a desempenhar um importante papel. Na escola, na saúde, na solidariedade social, na cultura, na ciência, na tecnologia”. Na política, o último referendo sobre o aborto, bem como a promulgação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, obrigam a concluir que, por falta de formação ou respeitos humanos, alguns católicos nem sempre primaram pela coerência.

No último censo geral da população, 80% dos cidadãos nacionais declararam-se católicos. Como explicar então que a representação política da nação não corresponda a esta realidade social?! De facto, não só os partidos que apoiam, no parlamento, o actual governo, têm uma ideologia não cristã, senão mesmo anticatólica, como também o principal partido da oposição recentemente viabilizou, pelo voto do seu presidente e de muitos dos seus deputados, as chamadas ‘barrigas de aluguer’! Mesmo o partido que se diz de inspiração cristã, nem sempre honra esses princípios, nomeadamente em relação a algumas das (mal)ditas questões fracturantes. Este desfasamento, entre a realidade religiosa portuguesa e a sua representação política, explica porventura o elevado nível de desinteresse e abstenção de inúmeros cidadãos, nomeadamente cristãos.

Se Portugal é católico, politicamente não é praticante…

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Jesus Cristo

Santos da casa também fazem milagres! /premium

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
386

Todas as casas reais peninsulares descendem do profeta Maomé. Há uns séculos, este parentesco era muito indesejável mas ainda poderá ser de grande utilidade, se a Europa for ocupada pelo Islão.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)