Não gosto de utilizar GPS. O GPS amortece a memória e o sentido de direção, e eu gosto de aprender os caminhos. Por outro lado, também gosto de chegar a uma reunião, um almoço, um casamento ou um funeral antes do jantar. Em Portugal, para encontrar o caminho para algum sítio, temos de já saber esse caminho.

Nunca percebi a razão por que a sinalização em Portugal é tão má, mas é mesmo má. Não é porque toda a gente tenha um sentido fantástico de direção. Entre os meus amigos e familiares portugueses (e gosto muito de vocês todos!), não há ninguém que saiba ler um mapa.

Antes de termos substituído o nosso sentido de orientação pelo GPS, dependíamos do antigo hábito de pedir direções a pessoas, ou seguir a sinalização. Pedir direções a pessoas é sempre uma lotaria, porque nunca sabemos se vamos acertar no senhor de idade que sabe exactamente como ir para onde vamos, ou no senhor de idade que nem sabe onde está ele próprio. Seguir sinais era ligeiramente mais seguro, embora por vezes acabássemos no rio, ou em Espanha.

Hoje, com GPS e smartphones, localizarmo-nos é bastante mais fácil. Sim, o GPS pode estar a destruir o nosso espírito de aventura, mas pelo menos podemos chegar às reuniões, aos almoços, aos casamentos e aos funerais na hora — bem, mais ou menos… ainda estamos em Portugal.

Mas, fora da estrada, para além do órbita dos satélites GPS? Também precisamos de encontrar o caminho dentro de edifícios, dentro de hospitais, museus, instituições. A sinalização lá dentro é muitas vezes tão má como lá fora e ainda por cima temos outro nível de labirinto para navegar: a rede de guardiões sagradas dos portões… quero dizer: os/as recepcionistas.

Esta semana, tive uma montanha de encontros com recepcionistas, por causa de consultas médicas, uma visita a um museu, e reuniões.

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Uma das recepcionistas era do tipo que repara que o visitante nunca lá esteve, e nos dá as boas vindas ao balcão ou à secretária com um sorriso e um “como posso ajudar?” genuíno ou um “não, este não é o balcão certo, é aquele à esquerda” ou “deixe-me explicar como as coisas funcionam por cá”. Essa espécie de recepcionista é uma criatura rara e abençoada cá por estes lados (se a encontrar, diga-lhe em voz alta que é uma maravilha).

No museu, porém, foi diferente. A recepcionista (embora, com certeza, ela não se chamasse isso, já que estávamos num instituto de artes contemporâneas) continuou sentada por detrás do vasto balcão no vasto átrio, mirando-nos sem dizer nada enquanto vagueávamos no átrio, cegamente, à procura de instruções para onde ir e o que pagar para entrar. “Desculpe, a entrada aqui é paga?”, perguntamos, simpaticamente… E recebemos logo a resposta ofendida e zangada: “CLARO que sim!!” (se tivesse sido num museu de entrada grátis, a resposta teria sido um “CLARO que não!!” igualmente hostil). Como adivinhar, sem informações num cartaz à porta?

A maior parte dos recepcionistas da semana foram, claro, a espécie típica, aqueles que conseguem dizer “valha-me Deus!” com os olhos, e suspiram profundamente em resposta a praticamente qualquer pergunta que façamos, porque todos estes recepcionistas são os recepcionistas mais atarefados do mundo (embora, cinco minutos antes de nós chegarmos estivessem a olhar para a janela), carregando aos ombros todas as preocupações do hospital, do museu ou da instituição, e por isso impacientes com as nossas interrupções. Nunca perdem a oportunidade de nos fazer sentir que somos muito, mas mesmo muito estúpidos, porque este balcão obviamente não é o balcão certo, já que este balcão é verde e não vermelho, seu idiota.

Temos de ter a atitude certa para esta espécie de recepcionista mudar de tom, tratar-nos com um pouco mais dignidade e até sorrir. O problema é que nunca sabemos qual será a atitude a que eles respondem melhor. Uns precisam que nos armemos em “saloios extremamente deferentes”, enquanto outros só respondem bem à “tia super-arrogante”.

Não existe GPS para nos ajudar a chegar ao lugar certo no museu ou no hospital, e ainda não foi inventada a aplicação que prevê qual o tipo de recepcionista que vamos encontrar ao entrar no edifício. Não há regras. É como o Wild West lá dentro.

Directionless Portugal, inside and outside

I don’t like resorting to GPS to tell me how to get somewhere. It deadens the memory and sense of direction, and I like to appreciate and learn the twists and turns of how to get somewhere. On the other hand, I would really like to get to a meeting or a lunch or a wedding or a funeral before dinner time. In Portugal, to find your way to anywhere, you have to know the way already.

I cannot fathom why signage is so bad in Portugal. It’s not as if everyone has an innate sense of direction and needs no directing. My dear Portuguese friends and family, I love you all very much, but not a single one of you that I know can read a map. So, how any of you are anywhere other than where you were dropped is a mystery and a miracle.

Before we abdicated our sense of direction to GPS, we had to rely on the age old habits of asking people directions and following signs. Asking people for directions is a lottery, you never know if you’re going to get the old guy who knows exactly where to send you, or the old guy who isn’t even sure where he is, so following signs was the slightly safer way to go, and even then, you could easily end up in the river or Spain.

Now, though, with GPS and mobile phones, getting about is a bit easier. It might be destroying our sense of adventure, but at least we get to our meetings and lunches and weddings and funerals on time… well, more or less. This is still Portugal.

But what of away from the road, away from the realm of the GPS satellites? We still need to find our way inside, in, say hospitals and museums and institutions. The signage is usually just as hopeless inside as it is outside, and then we have to deal with the added level of labyrinth to navigate: the network of sacred guardians of the gates, sorry, I mean, receptionists.

This week, I had a motherlode of encounters with receptionists, with a cluster of doctor appointments for the kids and me, a visit to a museum, and a couple of meetings.

There was one who was that kind of receptionist who spots that you have never been here before, and welcomes you to her/his desk with a smile and a genuine “how can I help you?” and a kind “no, it’s not this desk you want, it’s that one down the hall” or “Let me tell you how the system works here”. That kind of receptionist is an extraordinary and rare and blessed creature in these parts (when you find her/him, tell her/him loudly and extravagantly that she/he is a wonder).

Then there was the museum one. The receptionist (although she wouldn’t have called herself that, of course, this was a modern art institute) sat at the vast desk in a vast atrium, just sitting and staring at us as we blundered in, looking for any signs that might say where to go or what to pay. “Does this museum cost money to enter?” we asked gently and politely… the response: an angry, offended one of “Well, of COURSE it does” (if it had been a free entry museum, the response would have been an equally hostile, “Well, of COURSE it doesn’t!” You never can tell unless there is a big sign outside. There isn’t.

Most of the rest of the week’s receptionists were, of course, the typical kind, those who do an impatient raising of eyes to heaven or heavy sigh in response to almost anything you might ask, because these receptionists are the busiest receptionists in the whole world (though when you found them, they were looking out of the window), with all the worries of the hospital/museum/institution on their shoulders and you are in the way. They will let you know that you are very stupid because, although you did the right thing in not presuming that this was the correct desk because you have been in places like this before, and you asked gently and politely if this was the correct desk, it is obviously not the correct desk (because this desk is green and not red), you idiot.

Only once you have shown the right attitude to this kind of receptionist will they change their tune and smile and treat you with slightly more dignity. The problem is that you never know which attitude they require. Some require extreme peasant level deference, some require you to do your best super-arrogant super entitled tia impression

No GPS can help you get to the correct department and no phone app has yet been invented to predict which kind of receptionist you will get today. There are no rules. It’s like the Wild West in there.