Estava convencido que vivíamos num país de “brandos costumes”, mas minimamente sério, mas, depois de tanto tempo no estrangeiro, chego e constato que não é assim. E o pior é que se brinca com coisas cada vez mais sérias. Os artigos publicados no DN e no Observador, neste último com o título “Antigos espiões criam empresa para vender informações a políticos e empresários”, conseguiram-me surpreender mesmo depois da história da alegada venda de segredos de Estado por um cidadão português, Frederico Carvalhão, aos serviços secretos da Rússia.

Segundo o advogado do “espião”, citado por alguns órgãos de informação, o dito funcionário apenas se encontrou com um russo em Roma para tratar de exportações de azeite para a Rússia, afectadas pelas sanções ocidentais devido à invasão da Crimeia. Ora, qualquer cidadão minimamente informado sabe que o azeite não se encontra entre os produtos embargados. Um advogado sério deveria primeiro consultar a lista dos produtos embargados.

Mas o certo é que Frederico Carvalhão foi deixado ir para casa, onde espera comodamente o julgamento, que é impossível prever quando se irá realizar.

Antes da época do politicamente correcto, a espionagem era considerada “traição da pátria”, mas hoje parece transformar-se num negócio como outro qualquer.

Sou levado a pensar que é o tratamento leviano com que são tratados em Portugal os serviços de segurança que leva ao aparecimento de empresas como a Intellcorp, que, como um dos seus fundadores, David Santos, explicou ao Diário de Notícias acha que ter ex-espiões na equipa tem vantagens: “O que eles fazem é a recolha de informações, não só através de fontes abertas, mas também através dos canais próprios e contactos que têm. Conseguimos em poucas horas saber tudo ou quase tudo sobre alguém”.

Claro que, como não podia deixar de ser, a página da citada empresa garante no seu site: “Estamos, de forma absoluta, comprometidos com a legalidade de todas as nossas operações”. Ora, isto é problemático, diria mesmo ridículo.

A Intellcorp até pode “em poucas horas saber tudo ou quase tudo sobre alguém “, mas não de forma legal, principalmente se recorrer aos “canais próprios e contactos de ex-expiões”, pois não é difícil adivinhar que muito deverá ser conseguido recorrendo aos laços existentes com actuais agentes dos serviços de segurança. Aliás, esta parece ter sido uma das formas utilizadas por Frederico Carvalhão para recolher informações.

Além disso, a actuação deste tipo de empresas não atropela direitos humanos fundamentais, como o direito à privacidade ou à defesa dos dados pessoais?

E o que pretende dizer David Santos ao afirmar o seguinte: “Posso confirmar que já temos alguns políticos e empresários clientes, em Portugal e no estrangeiro”? Não estará a querer dizer que poderá vender qualquer tipo de informação a quem quer que pague, seja ele francês, árabe, chinês, angolano ou russo?

À porta da sua empresa pode bater um senhor que se apresente como um empresário inglês ou islandês e queira obter informações que depois pode comunicar a quaisquer serviços secretos.

Mas não se pode excluir um cenário ainda mais curioso: um agente português ao serviço de países estrangeiros poderá obter “legalmente” informações secretas através da empresa de David Santos.

Não se surpreendam depois se um qualquer Frederico Carvalhão, em vez de pôr em perigo a sua pessoa, recorra a uma empresa onde trabalham antigos colegas seus para conseguir informação. Assim, não precisa de se disfarçar de “azeiteiro”. É tudo legal.

Frederico Carvalhão parece apenas ter cometido um erro: não acompanhou as modas no campo da recolha de informações.