O Fundo Monetário Internacional reviu em alta o crescimento da economia portuguesa, tal como tinham feito na semana passada o Banco de Portugal e o Conselho de Finanças Públicas. Esta melhoria das perspectivas para Portugal surge num contexto de revisão em baixa do crescimento da economia mundial, e, em particular, das economias avançadas, a que pertencem os seus principais parceiros comerciais (Espanha, Alemanha e França).

Será que a economia portuguesa vai conseguir resistir a uma desaceleração sincronizada da economia mundial? Se isso acontecer, será a primeira vez.

De acordo com o relatório do FMI publicado ontem, 90% da economia mundial vai crescer menos em 2019 do que em 2018. As perspetivas do FMI para a economia mundial são agora piores do que eram no passado mês de Abril. Em 2019, o crescimento deverá ser de 3% (em vez de 3,3%) e em 2020 deverá ser de 3,4% (em vez de 3,6%).

O crescimento da economia mundial previsto para 2019 é o mais baixo desde a crise financeira internacional. Nas economias avançadas prevê-se uma quebra no crescimento de 2,3% em 2018 para 1,7% em 2019. Na Zona do Euro, prevê-se uma quebra de 1,9% para 1,2%.

O FMI atribui às tensões no comércio internacional uma parte significativa da desaceleração prevista até 2020. Nas economias mais avançadas o fraco crescimento da produtividade e da demografia explicam o baixo potencial de crescimento. O Brexit e a guerra entre os gigantes da economia digital têm também alimentado a incerteza na economia mundial.

Por fim, as disrupções na indústria automóvel, seja por alterações nos níveis de emissões, seja por efeitos na procura decorrentes da mudança para automóveis alimentados por energias limpas, têm contribuído para a quebra do comércio e da produção neste importante sector.

O crescimento da economia portuguesa para 2019 foi revisto em alta de 1,7% para 1,9%. Esta revisão é essencialmente o resultado das novas contas nacionais apresentadas em Setembro pelo INE e não altera substancialmente a posição da economia portuguesa. A convergência da economia portuguesa deverá manter-se pelo terceiro ano consecutivo. No entanto, mantém-se o padrão de fraco crescimento no contexto dos nossos parceiros da moeda única: em 2019 e em 2020, 11 e 13 países, respectivamente, deverão crescer mais do que Portugal.

A Espanha, o principal parceiro comercial de Portugal, viu o seu PIB revisto em baixa para 2,2% em 2019. O bom desempenho da Espanha é importante para a economia portuguesa. No entanto, as previsões do FMI ainda não deverão ter incorporado os desenvolvimentos recentes na Catalunha.

A Alemanha e a Itália estão à beira da recessão e a França deverá ter um crescimento em linha com a Zona do Euro (1,2%). Com uma recessão na Alemanha e na Itália, dificilmente a Zona Euro evitará uma recessão. Não há exemplos de recessões na Zona Euro a que Portugal tenha escapado incólume.

A actual expansão da Zona do Euro começou apenas no segundo trimestre de 2013. Por outro lado, apesar do BCE ter reagido mais rapidamente do que o esperado, com um conjunto de estímulos anunciado em Setembro, não tem muito espaço para estimular a economia. Para o fazer terá de continuar a recorrer a políticas não convencionais, o que gerará divisões dentro do conselho de governadores, como já aconteceu na reunião de Setembro. Na sequência dessa reunião um dos seus membros demitiu-se.

Ao nível da Zona do Euro e da União Europeia existe pressão para que os países que têm apresentado excedentes – sobretudo a Alemanha e a Holanda – adoptem políticas orçamentais expansionistas. Os apelos ao aumento do investimento público naqueles países têm-se sucedido, quer por governos europeus, quer por instituições internacionais. Essas políticas serão importantes, mas terão efeitos limitados nos países da periferia, como Portugal.

Assim, num contexto de desaceleração da economia europeia e mundial, a quebra no desempenho das exportações será inevitável, prevendo-se já para este ano um menor crescimento (2,7% face a 3,8% em 2018). Alguns sectores como o vestuário, têxtil e calçado já registam quebras nas exportações. O sector automóvel deverá atingir um máximo histórico este ano (mais de 300 mil carros produzidos), mas este é precisamente um dos sectores onde existe mais incerteza, em parte devido à mudança para os carros eléctricos.

O turismo e toda a actividade a ele associada, incluindo a construção e o imobiliário, serão essenciais para a resiliência da economia portuguesa. Por agora, os sinais são positivos. A fase final da execução do actual quadro comunitário poderá também contribuir para um melhor desempenho da economia portuguesa, prevendo-se níveis de investimento público significativamente mais elevados nos próximos anos.

Um excedente orçamental (0,1%) em 2019, como prevê o Conselho de Finanças Públicas, é também muito positivo e é um factor de resiliência para enfrentar um choque externo. Num país muito endividado, o principal desafio da política orçamental é sossegar os mercados, garantindo o financiamento do Estado e das empresas. No entanto, na actual situação política, poderá não ser fácil mostrar a bondade desta orientação da política orçamental.

Por outro lado, pode argumentar-se que a não existência de acordo para uma nova Geringonça poderá gerar mais incerteza em relação à estabilidade política do governo. De acordo com esta perspectiva, adicionar incerteza em relação à estabilidade política num contexto de incerteza internacional não protege a economia de choques externos.

No entanto, como vimos na última legislatura, a estabilidade política pode servir apenas para gerir o curto prazo. E o grande desafio dos próximos anos é definir políticas para o médio e longo prazo.

A economia portuguesa está num regime de baixo crescimento desde o início do século. O pico de crescimento de 3,5% em 2017 parece ter sido fugaz. Em 2018, a economia cresceu 2,4% e em 2019 deverá crescer 1,9%. E prevê-se que continue a desacelerar nos próximos anos.

A taxa de desemprego está próxima dos 6% e a margem para crescer com base no emprego já é muito limitada. A economia está a aproximar-se do seu crescimento potencial, ou seja, os ganhos de produtividade serão essenciais para o aumento do crescimento no futuro. Estes ganhos exigem uma aceleração na alteração da estrutura produtiva que só será possível com mudança de políticas.

Mas será que com um elenco governativo muito semelhante ao anterior é possível ter a mudança necessária nas políticas?