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Vivemos uma época curiosa: está tudo suspenso, da austeridade à discussão dos grandes problemas do país, tudo suspenso dos nomes para a Presidência, das legislativas e do Costa, das legislativas e do Passos ou do Portas (do Passos e do Portas), dos novos protagonistas como Marinho e Pinto ou Rui Tavares, falando-se de vez em quando dos independentes. Ouve-se dizer e lê-se escrito que Nóvoa é uma cara nova, e isso é mau porque ninguém o conhece, mas pior é não haver caras novas, com excepção de Nóvoa, claro. Marcelo, que sabe muito bem que Sampaio da Nóvoa é o melhor que lhe pode acontecer (suspeito que Costa também já começa a saber) tece discretos louvores à sua candidatura.  

Está tudo suspenso das eleições, legislativas e presidenciais – o que quer dizer que está tudo suspenso durante mais ou menos um ano. Nada mau para um país que continua em crise, teima em não crescer e ao mesmo tempo tem uma inflação anémica, um país de emigrantes cada vez mais qualificados, de sol e turistas, que são quem nos vale. Um país que continua simpático, conformado, bonito.

No meu país luminoso, digo eu aos meus amigos estrangeiros – e assim mostro bem que sou viajado -, não se discute verdadeiramente reformas ou mudanças de fundo, mas mais coisas como listas vip e a queda daquele que mandava nisto tudo, parecendo afinal que embora mandasse nisto tudo afinal não mandava em tudo no banco dele, porque só era responsável pela parte financeira (o que não tem nada a ver com o banco, claro) e a culpa afinal é do malandro do governador, que não percebeu uma marosca – ainda por cima da grossa – que toda a gente estava a ver que existia (hoje em dia literalmente toda a gente, ou pelo menos aqueles que opinam publicamente, como eu), e discute-se isso e isso é sem dúvida importante, ainda que terminado o período da excitação com a comissão de inquérito tudo volte ao mesmo, isto é, a arrastar-se por tribunais, postergado para umas calendas que, a julgar pela contínua morosidade da nossa justiça, já não deviam apelidar-se de gregas mas de portuguesas, assim mesmo: tudo adiado para as calendas portuguesas.

No meu país luminoso onde quando chove chove impiedosamente – e há inundações e outros pequenos inconvenientes -, já ninguém por estes dias de Abril reflecte sobre a qualidade da nossa democracia, sobre o destino das “nossas” empresas chinesas, espanholas, angolanas, sobre a forma de reter os jovens, empurrados de estágio curricular para estágio profissional, de estágio profissional para recibos verdes, de recibos verdes para o desemprego, do desemprego para o além do mar (do ultramar regressaram há 40 anos quase um milhão de portugueses); e esses são os que têm sorte.

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No meu país luminoso discute-se Santana, que veio agora dizer que “em princípio” não será candidato a Presidente quando o que interessa é se o será no fim, discute-se o prisioneiro de Évora, mas cada vez menos (e por isso adivinham-se novas iniciativas de Sócrates, pior do que o vitupério, se existe, é para ele o desinteresse, há pessoas assim), em Portugal discute-se a aliança à direita e o desconcerto à esquerda, discute-se tudo mas não se discute o principal: como vamos mudar? Como acertar o passo com o desenvolvimento, deixar a cauda de uma Europa que, ela própria, precisa de se reinventar e estará nos próximos anos sujeita a testes severos à unidade laboriosamente construída em cinquenta anos de muito progresso e algum retrocesso? Como fazer parte desse processo, influenciando-o (há uma proposta interessante do governo português a esse respeito a que espero vir a dedicar uma crónica em breve)?

Está o país suspenso de dois actos eleitorais a mais de seis meses de distância. Fui ver o significado da palavra “suspenso” e o sentido mais adequado parece-me ser este: “adj. 8. que se encontra confuso por algum acontecimento e incapaz de tomar decisões; perplexo, irresoluto, hesitante” (Dicionário Houaiss). O meu país luminoso está incapaz de tomar decisões, suspenso das próximas eleições; um ano, um ano suspenso, perplexo e hesitante. E curiosamente nem são as eleições mais próximas no tempo a concitar mais comentários e a densificar a confusão: são as presidenciais.

Henrique Neto, Paulo Morais, Santana, Marcelo, Barroso, Portas, Rio, Nóvoa, Guterres, Oliveira Martins, Carvalho da Silva. Hoje mesmo, Paulo Freitas do Amaral. Nas “outras” eleições, como disse, também já há nomes: Portas, Passos, Costa, Jerónimo de Sousa, Marinho e Pinto, Rui Tavares.

Os leitores repararam no período anterior? Parece-lhes tudo normal ou repararam nalguma coisa estranha? Não? Claro que não, é uma lista respeitável. Credível. Falta alguém? Falta algo? Não? De facto não parece faltar nada, nem ninguém. E isso é o mais preocupante. Deixem que conte uma pequena história: numa reunião a que assisti em tempos, era eu o único homem entre cerca de 20 mulheres (o tema era o Dia da Mulher). E quando falei e disse “estamos todos aqui reunidos”, uma das participantes corrigiu-me: “perdão, somos quase todas mulheres, por isso devia dizer todas reunidas”. A Gramática Descomplicada, recentemente lançada por uma boa amiga minha, facilmente explicaria à minha interlocutora o erro (gramatical) em que incorria, mas claro que ela o sabia e não era disso que se tratava. Vinte – cem, três mil – mulheres e um homem e logo os pronomes e os adjectivos se fazem masculinos. Não discuto o sentido, mas que sentido faz?

Acrescentemos então à lista de nomes alguns que propositadamente deles omiti. Nas presidenciais, vagas referências a Ferreira Leite e a Maria de Belém, com escassas  hipóteses de sucesso. Para as legislativas, Amaral Dias enverga o pronto-a-vestir do PTP/Agir para poder concorrer e Catarina Martins lidera o Bloco de Esquerda. E é tudo.

Quando na política americana Hillary Clinton anuncia a sua candidatura ao cargo político mais poderoso do planeta, o número de mulheres nos parlamentos das democracias continua a ser muito baixo (na casa dos 20% na Europa e EUA, mais de 40% nos países nórdicos). Portugal curiosamente tem quase 30%, acima da média europeia e muito acima da mundial (que é de 19%), embora a lei da paridade exija que seja 33%; e até tem uma Presidente da Assembleia da República. Mas então porque se reflecte isso tão pouco nas lideranças dos partidos ou até nos candidatos à Presidência?

Em Portugal não há mulheres?

Professor no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica