Como ajudar? Eis a pergunta que temos que repetir obsessivamente a partir de agora. Digamos que ser ou não ser voluntário deixou de ser uma opção, pois os tempos que correm exigem muito a cada um de nós. Neste momento, a única questão que se põe é saber em que área podemos dar contributo.

Ajudar, contribuir, doar, partilhar, repartir e colaborar passaram a ser verbos imperativos. Cabe-nos aprender a conjugá-los cada dia com mais eficácia e responsabilidade. Com coerência e consequência.

Como? Insisto no ‘como’ por ser a questão mais interpeladora de todas e nos acompanhar ao longo da vida, toda a vida. Saber como fazer, como agir, como reagir, como tomar iniciativas, como aplacar a angústia, como sobreviver, como ultrapassar a paralisia, como vencer o medo, como quebrar barreiras, como evitar a propagação do vírus, enfim saber como viver sem quebrar é, e será sempre, fundamental.

Neste tempo de ‘apartamento’ — nunca como agora o termo ‘apartamento’ foi tão certeiro, nem o conceito tão validado em todo o mundo! — dizia eu que neste tempo novo estamos obrigados a olhar para as nossas áreas de especialidade, mas também para os nossos outros talentos e recursos, para vermos como podemos pôr tudo ao serviço dos outros. Dos vizinhos, do bairro, da comunidade, do país.

Profissionalmente, os que trabalham em áreas tão estratégicas como a saúde, o governo, a produção e comercialização de bens alimentares, o abastecimento de combustíveis ou as farmácias, entre tantas outras, sabem que não têm outra opção senão manterem-se nos seus postos. Ninguém lhes vai perguntar se querem fazer horas extraordinárias em condições precárias e também não passa pela cabeça de ninguém que desertem e fiquem em casa. Simplesmente em casa, como todos os outros que se podem dar a esse luxo.

Sim, é um luxo poder ficar em casa, e trabalhar a partir de casa, numa altura em que estar ao serviço, andar na rua, apanhar transportes públicos, respirar o mesmo ar que respiram os desconhecidos ou os colegas, tocar nas superfícies e objetos em que outros tocam deixou de ser opção para os que têm profissões que sustentam o país e das quais todos dependemos.

Embora seja um luxo, claro que também sabemos que é duro e pode chegar a ser um tormento para pessoas muito sozinhas ou famílias onde há mais desavenças do que entendimentos. E pode ser uma provação em casas demasiado pequenas, onde todos habitam agora o mesmo espaço, cada um a precisar do seu espaço. Em todo o caso, e comparando situações extremas, é infinitamente mais suportável permanecer em casa do que estar ao serviço, fora de casa, exposto ao contágio diário como estão os profissionais de saúde e tantas outras autoridades cuja área de atuação vai dos serviços de fronteiras aos guardas prisionais.

Voltando ao espírito de entreajuda, é impressionante ver a quantidade de iniciativas individuais e movimentos de cidadãos que se voluntariaram para ajudar, para restaurar, para salvar, para resgatar da exclusão, da solidão e do abandono. O SOS vizinho nasceu para fazer chegar bens de primeira necessidade a pessoas que não podem sair de casa sem porem a sua vida em risco. Falo de idosos e doentes crónicos com doenças autoimunes, mas também de quem tem problemas cardíacos e cardiorrespiratórios, diabéticos e imunodeprimidos, entre muitos outros.

O Banco Alimentar é outra rede de emergência reforçada e é uma corrente que não pode parar, sobretudo neste tempo em que muito menos pessoas vão ao supermercado, mas muitas mais estão a precisar de serem alimentadas. Isto, porque também a Refood e outras associações similares deixaram de contar com os contributos de muitos restaurantes e pontos de recolha. O Banco Alimentar está a precisar de jovens para fazer os cabazes, mas também de gente para os transportar em segurança e os deixar à porta dos que mais precisam.

A Semear emprega pessoas com deficiência e está a entregar cabazes de legumes e vegetais frescos em casa, mas continua a precisar de voluntários para o fazer. Trata-se de um negócio social que mantém a atividade, mas precisa que haja mais pessoas a encomendar cabazes e a passar palavra, para que os trabalhadores não percam o seu trabalho e as suas famílias não fiquem em situação ainda mais crítica.

Por todas as cidades do país há incontáveis cidadãos que se disponibilizam para ajudar, para entregar pão fresco em casa (@pao_a_porta, este sei que tem serviço de entregas gratuito), para levar e trazer doentes a consultas e tratamentos que não podem falhar, enfim para combater o isolamento social que todos temos que cumprir neste tempo de quarentena.

Em comunidades religiosas mais ou menos alargadas, multiplicam-se as correntes de solidariedade. Dou apenas como exemplo a Comunidade de Sant’Egídio, ligada à Capela do Rato, em Lisboa, que fiquei a conhecer ainda no tempo em que Dom Tolentino Mendonça lá celebrava. Esta e incontáveis outras comunidades e igrejas espalhadas por todo o país, no continente e nas ilhas, apelam à ajuda através da entrega de alimentos imperecíveis, medicamentos e donativos monetários para poderem acudir aos que estão mais isolados e em situações de escassez ou miséria.

Nos circuitos mais tecnológicos, de empreendedores e startups, foi criado há 10 dias um extraordinário movimento, o Tech4Covid19 que junta mais de 3.000 pessoas, entre engenheiros, cientistas, designers, marketeers, profissionais de saúde e muitas outras especialidades profissionais, e pretende juntar a comunidade tecnológica no combate a Covid-19.

O lema é eloquente e vai sendo diariamente confirmado pelo número de adesões e doações: “Procuramos ser mais rápidos do que o vírus! Temos equipas a trabalhar em todas as 24h do dia, em soluções para mitigar as consequências desta pandemia”. Neste momento já se juntaram 3.600 voluntários e têm vários projetos a correr em simultâneo.

A plataforma digital GoParity, parceira do Tech4Covid19, está a angariar fundos para comprar material hospitalar como ventiladores e máscaras, mas também para recuperar ventiladores avariados ou em desuso. Em apenas 10 dias já foram angariados mais de 70 mil euros, o que revela a rapidez de resposta dos portugueses em casos de emergência humanitária como o atual.

As iniciativas multiplicam-se e também consultores e empresas como a Sair da Casca  e o GRACE criaram plataformas para partilhar boas práticas empresariais e incentivar a colaboração entre empresas e fundações, mas também para estabelecer pontes no mundo corporativo.

Os exemplos são incontáveis e multiplicam-se à velocidade da luz. Alguns conseguem ser realmente mais rápidos que o próprio vírus. Todas estas correntes de solidariedade (e muitíssimas outras!) estão ativas e à distância de um clic, basta querer ajudar para encontrar o canal ideal.

E a quem não é assim tão tecnológico ou nem sequer tem computador em casa, gostava de contar ainda a história de Cecília d’Orey, ex-diretora de um grande colégio privado, que agora vive mais retirada em casa devido a uma doença que a incapacita de se manter em funções. À pergunta “posso ajudar?” decidiu responder que está na disposição de ajudar dando o seu número de telemóvel para a quem está desanimado, farto de estar em casa ou a precisar de alguém com quem desabafar.

A Madre Cecília d’Orey é uma figura de referência para sucessivas gerações de pais e filhos que passaram pelos colégios que dirigiu e a sua ternura é tão lendária como as suas gargalhadas. E é com esta bondade e boa disposição que pede que divulguemos o seu número de telemóvel, para que mais pessoas lhe possam ligar a pedir conselho ou simplesmente para terem com quem falar.

“Diga que eu atendo pais e filhos, mas acima de tudo crianças e jovens, que me parece que ainda são os que mais estão a precisar!” E eu digo e deixo o seu telemóvel, com admiração pela sua total abertura às necessidades dos outros. Aqui fica: 919952979.

E assim, desta forma generosa e alegre, a Madre Cecília responde à pergunta que tem que nos obcecar e ensina os ‘como’ da vida. Mesmo que a vida nos pare, não podemos ficar parados. Isolados sim, mas nunca fechados.