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Iniciei o meu percurso escolar há quase meio século. Terminei o Secundário uma dúzia de anos depois e voltei à escola há 18 anos. Gostei e fiquei até hoje! Entrei aluna e continuei professora, com a consciência plena de ser uma eterna aprendiza. Mas se a aprendizagem me mudou e continua a mudar, a estrutura da Escola manteve-se. Os mesmos professores. As mesmas salas. O frio no inverno. O calor insuportável no verão. As ardósias deram lugar aos quadros brancos, o mobiliário evoluiu e entrou, timidamente, a tecnologia: computadores, vídeos-projetores e outras. Mudou o mundo e manteve-se a Escola. Mudaram os professores e manteve-se a Escola. Mudaram os alunos e manteve-se a Escola.

Vivemos um contexto de rápida mudança, guiada pela tecnologia e empurrada pela economia, que a todos exigem uma vida frenética e o milagre da ubiquidade. E se no seio desta modernidade líquida a estrutura da Escola continua escrita na pedra, é tempo de parar e pensar que efeitos tem a tecnologia na educação ou, melhor: estamos no rumo certo? Não, não estamos! As questões estruturais manifestam-se, muitas vezes, nas pequenas atitudes. E não podemos estar no rumo certo quando continuo a ver, bastas vezes, um pai ou uma mãe a entregar um telemóvel ou um tablet a uma criança, para que almoce ou jante, para que não faça birra, para que fique quieta! Esta atitude singela pode ser encarada como um marco, pois a tecnologia não substitui as amas, nem é um brinquedo! A invasão da tecnologia no espaço da família limita o desenvolvimento pessoal e académico dos jovens.

A família não tem tempo para ajudar os jovens a aprender e a desenvolver-se, fica a escola para tentar colmatar este ponto. A Escola tem de mudar na sua estrutura, mas também na sua cultura. Entramos num novo paradigma, no qual urge garantir a mobilidade em vez de a restringir, garantir uma inclusão efetiva em vez de uma integração dissimuladora. Crianças e jovens devem aprender em salas abertas, com espaços diferenciados e amplos, que promovam a descoberta e a partilha de conhecimentos de forma interativa, colaborativa, digital e que não ignore os média sociais que marcam a atualidade. A Escola tem de se adaptar às necessidades e interesses do aluno, que ali está para aprender, o que implica exercitar, experimentar, errar, ou seja, fazer tudo o que deixou paulatinamente de ser permitido no seio da família. Os pais estão exaustos e querem descansar. Muitos avós ainda estão a trabalhar. Não há tempo de qualidade para as crianças na célula familiar. E, portanto, não lhes podemos negar esse tempo na Escola.

Urge implementar métodos e técnicas que contribuam para o sucesso dos alunos numa sociedade com profissões que ainda não foram inventadas. Importa investir em trabalhos contextualizados, que impliquem a mobilização de um leque alargado de conhecimentos e competências, numa lógica interdisciplinar, mobilizando recursos diversificados. O aluno deve ter tempo e liberdade para pensar, para praticar, para aprender fazendo.

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Eu fui aluna no paradigma do professor como mestre do saber, hoje o professor tem um papel diferente, é um orientador do processo de aprendizagem e de formação de cidadãos com valores. Os alunos são os protagonistas. Produzem o seu próprio conhecimento em equipa. Assim tenho procurado agir como professora do Ensino Secundário.

Trabalhei com jovens que muitos rotulariam como estando em fim de linha: técnico profissional, PCA, vocacionais e agora cursos profissionais. É um desafio constante! Procuro mostrar-lhes que são capazes. Acompanho-os na descoberta dos seus interesses, no estabelecer de objetivos de vida. Procuro incutir o gosto pela aprendizagem ao longo da vida. E aprendo com eles! Este trabalho requer muito amor e dedicação, pois cada aluno tem um percurso único. Cabe-me a mim ajudá-lo a encontrar o caminho, não indicando o caminho que deve trilhar, mas ajudando-o a trilhar o caminho que quer seguir. Não retirando as pedras que surgem no caminho, mas levando-o a compreender como as pode ultrapassar.

Cada dia é um dia novo, com novos desafios. O professor tem que abrir as portas da sala ao mundo: estabelecer protocolos de parceria com empresas; convidar pessoas do mundo do trabalho para dinamizarem workshops que levem o mundo à Escola; envolver alunos em concursos, para que experienciem a competição que vão encontrar no mundo do trabalho. E é preciso levar a escola ao mundo, promovendo visitas de estudo e de trabalho.

Aprende-se melhor fora da sala-de-aula. Aprende-se mais fora da sala-de-aula. Aprende-se o mundo, e com o mundo, fora da sala-de-aula. Cabe-nos por isso trazer o mundo à sala e levar a sala ao mundo, quebrando paredes e outras barreiras. Ou não haverá forma de preparar o futuro numa escola do passado!

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.