Como as sondagens previam e praticamente todos davam por adquirido, Emmanuel Macron venceu a segunda volta e será o próximo Presidente da República Francesa.

Uma vitória saudada, interna e externamente, por todos aqueles que temiam que, depois de um Brexit que andará longe de um conto de fadas, a União Europeia se visse confrontada com um Frexit. Uma quase inevitabilidade se Marine Le Pen se sentasse no Eliseu, conhecida que é a sua posição negativa face à União Europeia. Uma avaliação em que não está isolada, como se constatou pelo discurso de vários candidatos presidenciais. Aliás, não foi por acaso que o candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon, não apelou ao voto em Macron. Nesse âmbito, as propostas da sua França Insubmissa parecem decalcadas das palavras de Marine e da Frente Nacional.

Porém, a vitória folgada de Macron não representa o fim das preocupações que afligem o hexágono. Um país dividido, com a agravante de Macron não dispor de qualquer apoio parlamentar e não ser seguro que o venha a lograr na sequência das próximas legislativas.

Uma coisa é o voto contra Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais e outra bem diferente é a aposta no projeto de Macron, apesar de dar pelo nome de «En Marche». Para onde e a que velocidade logo se verá. As coabitações não se costumam dar bem com os ares de Paris.

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Além disso, convirá notar que o sistema de governo francês é um semipresidencialismo que reserva ao Presidente da República muitas competências executivas. É ele que preside, por direito próprio e não por convite, às reuniões do Conselho de Ministros. Por isso, os debates da campanha eleitoral apresentaram tantas semelhanças com os debates para as legislativas em Portugal. E não estou a falar na possibilidade de prometer o que já se sabe de impossível cumprimento. O mandato não imperativo como seguro de vida.

Macron não necessita de invocar o estatuto de ex-banqueiro para saber que muitas das promessas por si feitas vão exigir verbas para passarem das palavras aos atos. Algo sobre o qual o Presidente eleito não se mostrou muito loquaz enquanto candidato.

Num país onde as revoluções levam a palma às reformas, o ex-ministro não desconhece que é destas últimas que a França carece. Reformas que os sindicatos e a maioria dos partidos não se mostram predispostos a aceitar. A rua como ameaça.

Um cenário macro(n)económico de quase bradar aos céus. Melhor, à União Europeia. A maior – e talvez única – tábua de salvação ao alcance de Macron.

A sua vitória representou um alívio momentâneo para a União Europeia. A fatura não pode ficar por pagar. Serão os fundos europeus a suportar uma parte considerável das propostas do novo Presidente. Assim queira Angela Merkel, também ela a caminho de eleições.

A nível interno, Macron já teve direito ao estado de graça. Curto. Terminou na noite da vitória.

Professor de Ciência Política