A classe docente é uma classe emblematicamente escrutinada pela opinião pública e que todos se sentem competentes para criticar. Somos criticados por fazer e por não fazer, mas também o seremos se fizermos algo que se situe entre esses dois polos. Mas quão bem a opinião pública conhece uma classe profissional a que tanto deve e na qual o poder político tanto bate?

Obviamente que não é necessário ser professor para compreender a realidade da classe, mas dificilmente quem está do “outro” lado terá uma real noção das dificuldades a que nos temos de sujeitar e – pela nossa sanidade mental – ultrapassar. E essa lista de dificuldades é tremenda. A título de exemplo:

1. Lidamos com a indisciplina em múltiplos diários de 28 alunos, num espaço que foi desenhado para menos;

2. Gerimos a incompreensão, a ignorância e a falta de educação de alguns progenitores, sabendo que existe uma fortíssima probabilidade de sermos sovados verbal e fisicamente;

3. Para a gestão da indisciplina dos filhos e falta de educação dos progenitores, estamos munidos de legislação oportunamente vaga, ausente formação em gestão de conflitos e uma aparentemente natural falta de compreensão de alguns diretores de agrupamentos de escolas;

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4. As revoluções na educação acompanham os ciclos políticos, pelo que de 4 em 4 anos temos um diferente paradigma, nova legislação, programas curriculares redesenhados, renovados manuais e roturas com aquilo que já havia sido feito;

5. Como classe estamos longe da união, a partilha (de materiais, mas essencialmente de experiências) é – no mínimo – difícil e dificultada, e a menor capacidade de gerir trabalho, indisciplina e stress são vistas pelos pares como fraqueza a afastar e a maldizer;

6. Os concursos de professores são autêntico sorteio, onde uma colocação pode ser ditada por um dia de trabalho a mais num passado recente, onde uma merecida possibilidade de vinculação é definida por um número aparentemente aleatório de dias e cujos resultados acarretarão para muitos um ténue equilíbrio entre uma remuneração e centenas de quilómetros percorridos, quartos alugados, material escolar comprado e degradação de relações pessoais e familiares;

7. E, por fim, temos quase sempre muito trabalho, trabalho que levamos para casa, documentos duplicados e triplicados que temos de preencher uma e outra vez, e que nos retiram tempo de preparação de aulas (e eu gostava tanto de o fazer; tenho imensas saudades de “perder” horas a criar estratégias e recursos para os meus alunos), e que ultrapassa largamente e frequentemente o número de horas semanais para as quais somos pagos. E não, ao contrário do que alguns estarão a pensar também não somos bem pagos.

Chegados aqui, facilmente se poderia concluir que tudo é mau nesta classe. Mas não. Seria tudo mau se fossemos uma classe incapaz de reconhecer o bom e de lhe atribuirmos um valor. E se há tanto de negativo, onde vai um professor buscar a sua motivação? A motivação de um professor tem fundamentos diversos, mas quase todos eles passarão pelo seguinte: os seus alunos. Sim… Os alunos, não todos evidentemente, mas aqueles que gostam de aprender, que nos fazem procurar soluções para as questões mais improváveis, que nos sugerem estratégias, que nos ouvem e que nós ouvimos, que partilham connosco o que sentem e que também nos ensinam.

Somos uma classe cansada e desiludida pela forma como temos vindo a ser tratados. No entanto, estou certo que para uma grande maioria dos professores, bastará num determinado ano letivo ter uma mão cheia (nem serão necessários tantos) de bons alunos, para conseguirmos colocar de parte (mesmo que a curto prazo) esses sentimentos, e avançar de forma construtiva e positiva, na esperança de que de alguma forma a nossa influência (mesmo que frequentemente não reconhecida) tenha contribuído para o seu caráter, para o seu sucesso, para a sua realização enquanto seres humanos. Ou, se quisermos ser menos ambiciosos no vocabulário, para a sua felicidade.

Professor e blogger do ProfsLusos
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.