caderno de apontamentos

Professores: preparar a renovação

Autor
  • Fernando Rebola
667

O desenvolvimento profissional do professor tem de ser entendido de forma mais abrangente e, para isso, é fundamental que se melhore a inter-relação entre a formação inicial e a formação contínua.

Face à volatilidade das políticas educativas e às consequentes e rápidas mudanças que coagem as escolas e os professores a mudar os seus comportamentos e modelos de trabalho, os professores portugueses têm sido de uma resiliência extraordinária e têm realizado um trabalho de grande mérito, em relação ao qual a sociedade, globalmente, tem mostrado pouco reconhecimento. Concretizando, os resultados do segundo inquérito Teaching and Learning International Survey(TALIS), realizado pela OCDE em 2013 e no qual participaram 34 países, evidenciam que os professores portugueses passam em média (i) mais horas por semana a ensinar (21 horas), (ii) mais horas por semana a planificar e a preparar as aulas (9 horas), (iii) mais horas por semana a corrigir e classificar os trabalhos dos alunos (10 horas), (iv) mais tempo por semana a pôr ordem na sala (15,7%) do que a maioria dos professores dos outros países participantes. Contudo, mais de 94% dos professores declararam estar globalmente satisfeitos com o seu trabalho, apesar de apenas cerca de 10% acreditar que ser professor é uma profissão valorizada na sociedade (OECD, TALIS 2013 – Country profilePortugal).

Por outro lado, os resultados dos alunos portugueses em estudos comparativos internacionais, como o TIMMS e o PISA, têm revelado sucessivamente uma tendência de melhoria. Relativamente ao PISA, temos subido claramente nas três literacias avaliadas (Matemática, Ciências e Leitura), estando acima da média da OCDE em Ciências e em Leitura e na média em Matemática (CNE – Estado da Educação 2016). Nenhum outro país conseguiu uma evolução tão favorável nas três literacias avaliadas desde que se iniciou o PISA em 2000 (realiza-se um ciclo do estudo a cada 3 anos; em 2018 ocorrerá novo ciclo), o que é revelador de uma importante e consistente melhoria nas aprendizagens dos alunos portugueses. Certamente que os professores merecem uma boa quota-parte do mérito desta evolução no desempenho dos alunos nacionais, conseguindo resultados comparáveis e até mais elevados do que os alcançados em países com condições socioeconómicas e culturais mais favoráveis.

Há, no entanto, relativamente aos professores, algumas preocupações e desafios que vale a pena analisar e refletir, particularmente em relação à renovação do corpo de docentes e à sua formação.
Analisando os dados divulgados pelo Conselho Nacional de Educação na publicação Estado da Educação 2016, torna-se evidente que o corpo docente das escolas públicas portuguesas está envelhecido e que, nos próximos 10 a 15 anos, as aposentações irão ocorrer de forma massiva. Tendo como referência o ano letivo 2015/2016 e apenas as escolas públicas do continente, constata-se que 45,7% dos professores e educadores têm 50 ou mais anos e apenas 0,4% têm menos de 30 anos.

É, pois, necessário preparar a renovação do corpo docente de forma progressiva, capitalizando a experiência e os saberes profissionais dos mais experientes na formação e indução dos mais jovens, porque, como refere Arnold Glasgow, “o problema com o futuro é que normalmente chega antes de estarmos preparados para ele”.

Contudo, os dados disponibilizados pelo PISA 2015 também evidenciam que a profissão de professor é muito pouco apelativa para as novas gerações, apenas 1,5% dos jovens portugueses com 15 anos equacionam seguir uma profissão ligada à educação e estes encontram-se sobretudo entre os alunos com mais fracos resultados. Este é, de facto, um problema sério para o sistema educativo. A exigência e a complexidade da profissão, bem como a responsabilidade da preparação das novas gerações exigem que se consigam recrutar os melhores. Os dados do acesso ao ensino superior tornam evidente que atualmente não o estamos a conseguir fazer e que ainda temos um longo caminho a percorrer para reverter esta situação, mesmo havendo vontade política para o fazer e investindo esforços e recursos substanciais na melhoria da imagem pública da profissão docente e na mudança para uma perspetiva de carreira que seja aliciante e remunerada de forma justa.

Os modelos de formação inicial de professores e educadores também devem merecer a nossa reflexão. Centro, porém, esta minha reflexão num outro ponto. Os professores e educadores que formamos hoje podem ficar no sistema nos próximos 40 anos! Assim como já ficaram os seus professores… Como será o mundo daqui a 40 anos? Que alterações políticas, sociais, económicas, laborais, ambientais e tecnológicas ocorrerão? As escolas não são ilhas sociais e a educação tem que acompanhar a mudança e a evolução das sociedades, portanto, decidir ser professor é assumir um compromisso com uma aprendizagem ao longo da vida.

A formação inicial dos professores constitui apenas o primeiro passo do seu desenvolvimento profissional, o qual irá continuar ao longo de toda a carreira, onde a experiência refletida e partilhada e as oportunidades de formação contínua assumem um papel essencial. Isto é, o desenvolvimento profissional do professor tem de ser entendido de forma mais abrangente e, para isso, é fundamental que se melhore significativamente a inter-relação entre a formação inicial e a formação contínua (tradicionalmente divorciadas), com o objetivo de criar um sistema de aprendizagem e formação de professores mais global, integrado e coerente (OECD, 2005). Acrescente-se, ainda, que é esta a forma de perspetivar o desenvolvimento profissional dos professores e educadores que integra a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei n.º 46/86 de 14 de outubro), particularmente na redação do n.º 3 do artigo 35.º: “A formação contínua é assegurada predominantemente pelas respetivas instituições de formação inicial, em estreita cooperação com os estabelecimentos onde os educadores e professores trabalham.”

Portugal tem condições únicas para potenciar um sistema desta natureza. Dispõe de uma rede de ensino superior (universitário e politécnico) disseminada por todo país, incluindo escolas de formação de professores que têm relações privilegiadas com os agrupamentos de escolas e as escolas não agrupadas das suas regiões e que seria fundamental aprofundar para constituir um sistema de formação de professores mais integrado. Um modelo de formação desta natureza potenciaria tanto a formação inicial de professores e educadores, mobilizando os saberes profissionais dos mais experientes e a formação mais centrada nos contextos de trabalho, numa perspetiva investigativa e de interação constante entre a dimensão prática e a dimensão teórica da formação, a indução profissional dos professores e educadores recém-chegados ao sistema e, ainda, a formação contínua dos professores e educadores em exercício, numa perspetiva contextualizada, colaborativa, reflexiva, sistemática e transformativa. Refira-se, a título de exemplo, que o sistema educativo finlandês, um dos sistemas educativos mais bem sucedidos, tem vindo a operacionalizar este tipo de modelos integrados (por exemplo, o projeto Osaava Verme).

Temos a estrutura e os recursos, haja a ousadia e a vontade política para os rentabilizar a favor do progresso da educação em Portugal, porque a qualidade do sistema educativo não pode exceder a qualidade dos seus professores (Barber & Morushed, 2007).

Professor Adjunto e Diretor da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Portalegre
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
caderno de apontamentos

Ser educador /premium

Bruno Silva
838

A Escola sempre foi para mim uma segunda casa. Lá, ainda miúdo, encontrei alguns verdadeiros mestres. Mais tarde percebi o que queria para a minha vida, queria ser como eles: um educador!

Ensino Superior

As propinas: uma história muito mal contada

Jose Bento da Silva
167

A questão não são as propinas. Isso é de fácil resolução. O desafio é: qual o modelo de gestão que queremos para as nossas universidades? O modelo atual não passa de um circo pago pelos contribuintes.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)