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França

Proibido não adorar o aborto

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Repugnam-me as decisões francesas e a proposta dos ministérios da Saúde e da Educação que pretendem impor a glorificação do aborto e a equivalência moral entre abortar ou manter uma gravidez.

Em 50 a.C., como contam os livros do Astérix e Obélix, em França havia um grupo de irredutíveis que resistia ainda e sempre ao invasor romano. Saltando para 2016, França também faz agora por resistir a outros invasores inescapáveis: a consciência de cada um e a distinção entre bem e mal.

Há pouco tempo em França o tribunal superior manteve a proibição, decretada pelo conselho para o audiovisual francês, de transmissão na televisão francesa de um anúncio contendo material altamente chocante e insuscetível de ser visionado pelas almas mais sensíveis sem acompanhamento de profissionais de saúde mental: crianças com síndrome de Down felizes. Pois é, parece que todas as crianças são iguais, mas umas são mais iguais que outras. Se a criança tiver síndrome de Down, é bom que apareça na televisão só de semblante circunspecto e triste, preferencialmente a chorar pela desgraça que sobre si se abateu. Mostrar crianças com esta característica e as suas famílias, tudo gente feliz, é algo intolerável numa sociedade civilizada. Pornografia está muito bem, que está ao abrigo da liberdade de expressão. Insultos a grupos políticos rivais, ora, é apenas negócio como de costume na política. Meios de comunicação social salivando enternecidos por ditadores da craveira de Fidel Castro, bem, é uma opção editorial. Agora o que se tem de exterminar a todo o custo são as imagens de crianças com síndrome de Down felizes.

E porquê a proibição? – pergunta o leitor dotado de um mínimo de respeito pela dignidade de todas as pessoas. Bom, o dito anúncio era ‘desapropriado’ porque poderia ‘perturbar a consciência de mulheres que fizeram legalmente outras escolhas de vida’. Traduzindo: as crianças com síndrome de Down não podem sorrir para a televisão porque incomodam as mulheres que escolheram abortar fetos com síndrome de Down. A liberdade de expressão e a afirmação da dignidade destas crianças – que deviam caber também aos tribunais franceses – param à porta dos incómodos que potencialmente podem trazer para mulheres que tomaram certa decisão.

Na mesma linha, há poucos dias foram proibidos sites em França com posições pró-vida. Leu bem, sites. Aqueles locais da internet que estão sossegados à espera que os visitantes os procurem e que os utilizadores de internet até podem, querendo, bloquear nos seus browsers. Não se trata de criminalizar os ativistas intragáveis que vão para as portas das clínicas de aborto insultar e perseguir as mulheres que vão abortar e que, exceto casos de coração de plástico e consciência oca, estarão a passar momentos penosos. Não: criminalizam-se pessoas que pensam e escrevem e dizem (e mais nada) que o aborto é um mal e que uma gravidez deve ser mantida.

O legislador francês, ao mesmo tempo que considera as mulheres capazes de tomar uma decisão difícil sobre a vida de um ser humano irrepetível, supõe as mulheres tão sensíveis e trémulas nas suas convicções que não podem saber que existe quem discorde da bondade da opção de abortar.

Se está a pensar que França é um país muito doente, informo-o que tem boa companhia. Nesse longínquo país chamado Portugal, há uma mistela, quero dizer, um documento das Direções Gerais da Saúde e da Educação que propõe que as crianças do quinto ano sejam apresentadas ao conceito de aborto nas aulas de Educação Sexual. Digam lá se há algo melhor para falar com crianças de nove, dez e onze anos do que de aborto? Não é evidente que uma decisão que é tantas vezes agonizante para mulheres adultas será limpidamente clara para uma menina de dez anos? Eu, por mim, que sou mãe de uma criança que está no quinto ano, posso sugerir acabarem-se já as aulas de História e começarem já a explicar-se os métodos de raspagem do útero ou a diferença entre aborto cirúrgico e aborto medicamentoso.

Não posso esperar nada mais útil para a educação dos meus filhos. Confesso que preferia uma educação sexual mais virada para o conhecimento do funcionamento do sistema reprodutor, períodos de ovulação e sinais disso no corpo das raparigas, enfim, dedicada a evitar gravidezes indesejadas. Mas vejo que os organismos dos ministérios da Saúde e da Educação estão decididos a aplicar uma versão particularmente brutal dos programas ‘abstinence only’ americanos. Assustam de tal maneira as crianças com os abortos que ficam à espera que os petizes depois passem uma adolescência em abstinência sexual.

O Observador é um jornal com público amplo, pelo que não vou verter aqui os insultos que mereceriam os tribunais e os legisladores franceses e os burocratas politizados portugueses que originaram as maravilhas acima descritas. Refiro apenas que nada disto tem a ver com a possibilidade de uma mulher poder legalmente escolher abortar – esse assunto, para mim, independentemente da minha opinião sobre o aborto, está resolvido e contém os consensos possíveis entre as várias posições sobre o início da vida humana e os direitos do feto e da mãe. Também não pretendo criar um ambiente social castigador para as mulheres que abortaram, era o que faltava. A turba moralista não tem de julgar uma mulher que toma uma decisão difícil destas. Orgulhei-me imenso do Papa Francisco quando lembrou que a misericórdia de Deus existe para curar estas feridas.

Isto tudo dito, também é verdade que me repugna o que estas duas decisões francesas e esta proposta portuguesa pretendem impor: a glorificação do aborto e a equivalência moral entre abortar ou manter uma gravidez. Ver na televisão crianças com síndrome de Down não me aflige; já ter o azar de ver esta gentinha (e repito o ‘inha’) francesa e portuguesa me provoca certamente uma crise aguda de urticária.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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