Provavelmente será mais um mistério irresolúvel sobre a direita parlamentar portuguesa. Porque diabo resolveram – depois de entendimentos românticos pontuais, uns mais subtis que outros – deixar o PS entregue aos resultados da sua aleivosia agora? Com a recusa da descida da TSU? Logo uma bandeira que o PSD defende há anos em várias tonalidades e até já implementou. Foi vontade de serem acusados pelos outros partidos de inconsistência ideológica e perderem élan? Não podiam deixar o PS a saltitar na lava noutra ocasião em que não tivessem telhados de vidro?

Claro que aplaudiria se Passos Coelho tivesse recusado sancionar a descida da TSU no Parlamento – para onde irá pelas lindas e esguias mãos dos fiéis colegas do PS – por uma questão de grande respeito constitucional (quem não o tem?) por esse estimável acordo parlamentar internacionalmente conhecido como geringonça. Lembramo-nos da aldrabice constitucionalmente permitida que levou Costa a realizar o seu sonho de infância de ser primeiro-ministro (e a fugir ao desemprego político). Pelo que nada obriga o PSD a votar o que quer que seja para livrar o PS de apuros. PS e sus muchachos que se governem (e nos desgovernem) sozinhos. O PS que se desenvencilhe por ter negociado um acordo na Concertação Social sem ter ido antes ao beija-mão a Catarina Martins e à saudação de punho erguido perante as fotos de Estaline e Lenine que certamente decorarão as paredes da sede do PCP.

Se Passos Coelho assim se tivesse justificado – que não é do interesse nacional o PSD pactuar com agentes políticos pouco éticos que forçam um governo sem ganharem eleições –, ter-me-ia a aplaudir. E a sorrir satisfeita, que sou ruim o suficiente para me deleitar com os imbróglios que o PS cria para si próprio. (Por momentos até poderia esquecer que o PSD já por várias vezes votou com o PS desde 2015, para grande alívio da agremiação socialista. E que votará muitas mais antes da legislatura terminar.) De resto, o ar assarapantado das esquerdas com a ousadia da direita de não fazer o frete do costume tem sido deveras divertido. Até toleraria se o PSD dissesse ‘lamentamos, mas agora não é possível baixar a TSU: fica para mais logo’.

Mas façamos uma viagem no tempo. Curta. Segundo semestre de 2014. O que sucedeu? Algo bom e lógico. Em concertação social foi acordado o aumento do salário mínimo. Em contrapartida, as empresas usufruíram temporariamente de uma redução da TSU de 0,75%. Uma decisão toda no bom sentido: os patrões deixaram de pagar tanto ao estado e passaram a pagar mais aos trabalhadores – sendo que, não tenham dúvida, os pesados encargos com a Segurança Social são um fator importante para as empresas manterem ordenados baixos. Uma transferência de recursos do estado para os privados, no caso os trabalhadores que recebiam salário mínimo. Cinco minutos de palmas.

Quem era governo em 2014? O PSD, coligado com o CDS. Pedro Passos Coelho era primeiro-ministro. O senhor que por estes dias tanto se revolta com a proposta do PS (de que, em boa verdade, deve ter sido a musa inspiradora). Ah, também um PPC com vagas semelhanças físicas com o Passos Coelho que antes das eleições de 2011 prometia baixar a TSU até 4%.

Bom, dir-me-ão, todos sabemos que os partidos mudam (muitas vezes) de discurso e de atuação consoante estão no governo ou na oposição. E que não nos podemos permitir veleidades orçamentais. Sem dúvida. Mas a justificação do PSD para a recusa da descida da TSU – ‘frontalmente contra a descida da TSU como forma de compensar o aumento do salário mínimo’, não é fiscalmente neutra, blablabla – faz-me questionar (pela enésima vez) quem são os eleitores que o PSD quer representar. Porque claramente não quer representar os empreendedores, os empresários, aqueles que arriscam o seu capital e querem criar postos de trabalho. Nem os que entendem que, sem capital ou sem vontade de arriscá-lo, dependem destes outros para terem emprego e, desta forma, sustentarem-se e prosperarem. Ora, os outros eleitorados estão tomados. O PSD pretende crescer através dos contactos obtidos com a sonda espacial Venera 1965A? Ou convenceu-se que basta pregar para os excitados indefetíveis das redes sociais?

Então não se esqueçam de carpir em abundância porque os patrões não defendem de coração aberto a direita parlamentar – e até toleram a intolerável geringonça. Ainda não se esqueceram da inqualificável proposta para a TSU de 2012, que, além de um suicídio político em direto da coligação, era uma forma de estrangular mais as empresas que dependem da procura interna. (Esse ogre, que foi elevado a anticristo pela coligação – igual em simétrico ao endeusamento do consumo pela esquerda. Como se só exportar fosse digno e criasse riqueza e postos de trabalho.) Agora, nova hostilidade. Ah, perdão. Esqueci-me que os empresários de bancada sabem melhor que os donos das empresas o que lhes convém.

O PSD tem como alfa e ómega um défice orçamental baixo, obtido através de uma carga fiscal arrasadora que compromete a competitividade e o crescimento económico? Baixas de impostos ou da TSU só quando houver folga na despesa? (Traduzindo: nunca. Por cá a despesa só se reduz à força e obrigada pela diminuição de receita.) OK. Estamos conversados.

Quando o PSD encontrar um discurso que informe que durante o programa de ajustamento se acudiu às urgências e fez o que se conseguiu, mas que os seus objetivos são x, y e z – preferencialmente liberalizantes e desestatizantes, amigos dos contribuintes, das empresas e do emprego –, em vez de manter o choro e o ranger de dentes como fim último da política, voltamos a conversar.