A vida de Rui Rio à frente do PSD não se afigurava fácil. Desde logo porque havia uma geringonça que, como decorre da experiência, caminhava desajeitada, mas ia fazendo caminho. Além disso, os barões do partido – ai não que não há! – estavam divididos e na bancada parlamentar vigorava uma luta de «eus» exponenciada pela ausência do líder.

Os ainda curtos meses da liderança de Rio não desmentem o prognóstico inicial. O novo presidente não representou uma lufada de esperança para os eleitores do PSD. Se fosse no âmbito futebolístico, seria caso para dizer que a chicotada psicológica não tinha resultado.

Na realidade, as sondagens provam que a erosão do PS de Costa não é acompanhada pela subida firme ou sustentada do PSD. Um dado que aponta para a orfandade política dos eleitores que se reveem num modelo entre a social-democracia e o liberalismo de rosto humano e responsabilidade ética. Uma orfandade que pode abrir espaço para o surgimento de uma nova proposta partidária.

Até agora, Rui Rio tem mantido uma presença demasiado discreta. Um low profile consentâneo com alguém mais propenso ao trabalho de gabinete do que à visibilidade mediática. Do gabinete surgem, de quando em vez, propostas passíveis de serem valorizadas. Como aquela que se prendeu com os incentivos à natalidade. Uma das doenças que é preciso curar, pois a renovação social está comprometida. Afinal, a taxa de fecundidade em Portugal é a mais baixa da União Europeia.

Só que as medidas, depois de anunciadas, não são devidamente discutidas e exploradas. Regressam às gavetas da secretária em vez de se passearem pelos canais mediáticos. Aceitam o anonimato e não lutam pela posse das ruas.

Assim, para a opinião pública só passa aquilo que não contribui em nada para a afirmação política de Rio. Uma afirmação sem a qual São Bento continuará a representar uma miragem. O ressurgir do fantasma de uma liderança de transição.

De facto, não são poucos os que questionam se o PSD não se limita a servir de apoio ao condutor da geringonça. Uma espécie de amortecedor que ajuda a disfarçar o desgaste de Costa e do Governo. Um desgaste duplo e notório por mais sorrisos cúmplices que venham de Belém.

Na verdade, que leitura fazer das palavras de um dos ministros do Governo-sombra, Silva Peneda, quando afirma que o PSD deve viabilizar o orçamento se a troika das esquerdas o rejeitar? Uma afirmação que representa um novo fôlego para António Costa. A certeza de que vai continuar ao volante da geringonça e de que, apesar da farsa do milagre económico, não faltam voluntários para empurrar. Uma abundância que permite ao PS geringoncear ao sabor das caraterísticas do terreno.

Rio nunca escondeu que seria o interesse nacional a pedra de toque da sua forma de fazer oposição. Uma atitude nobre e patriótica. Só que, em nome desse ideal, a sua ação não tem contribuído para defender o interesse nacional. Bem pelo contrário. Basta ver as consequências do desinvestimento socialista na saúde, no ensino, na segurança social…

Contentar-se com a denúncia desse desinvestimento é manifestamente pouco. O líder de um partido que ganhou as legislativas e se viu condenado à condição de oposição por força de uma jogada parlamentar legal, mas de legitimidade duvidosa, não se pode permitir um quase apagamento mediático e uma indefinição programática relativamente aos grandes problemas que afligem os portugueses.

É chegado o tempo de o Governo-sombra sair da penumbra. Pelos bons e não pelos maus motivos.