Rui Rio

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PSD de esquerda ou de direita? Deixem-se disso. Um PSD mesmo que muito moderadamente liberalizador é que interessa e é mais necessário, já que o PS há muito parece ter optado pelo caminho inverso.

Há um vastíssimo número de portugueses que vê os partidos políticos de fora, sem a sombra de uma ideia de intervir nas suas actividades, e eu pertenço alegremente a esse número. Mais: o funcionamento interno dos partidos permanece-me quase inteiramente ininteligível e o conhecimento dos seus meandros não é um saber a que aspire algum dia atingir. Exactamente como a maioria dos portugueses. Acresce a isto que não possuo nenhuma doutrina geral sobre como a sociedade deve ser, excepção feita a algumas poucas ideias gerais que, pelo menos nominalmente, são partilhadas por praticamente toda a gente. O que me retira, à partida, qualquer possibilidade de me entusiasmar com grandes visões de um magnífico futuro a vir. Também nisto estou, de certeza, como a quase totalidade dos portugueses.

Teoricamente, podia votar em qualquer dos três partidos democráticos do regime (PSD, PS e CDS). E já votei. Sem qualquer sentimento de identificação e tendo apenas por vago princípio a escolha daquilo que, em determinada conjuntura, me parecia um mal menor. Não é, admito, um critério sublime, mas é indiscutivelmente legítimo e, de resto, ajuda a evitar desilusões maiores. Mais precisamente: ajuda a evitar os costumeiros desgostos com a célebre traição dos ideais.

Estas reflexões banalíssimas têm a ver com as toneladas de papel escritas a propósito das “primárias” do PSD e da luta entre Santana Lopes e Rui Rio. Não morro de amores nem de ódios por nenhum deles, ambos tendo qualidades louváveis e defeitos conhecidos. Mas não foi tanto o que eles disseram como aquilo que sobre eles foi dito que me interessou. Sobretudo a ideia muito propalada segundo a qual se assistiria a uma luta entre “direita” e “esquerda” no interior do PSD, senão no plano doutrinal, pelo menos no das chamadas ”sensibilidades”.

Apresso-me a dizer que nada tenho contra o uso corrente deste vocabulário, apesar de ele se prestar às maiores mistificações e, muitas vezes, tender a obscurecer os debates mais do que a iluminá-los. Mas as pessoas, para se orientarem nestas coisas, precisam de sinais simplificadores: no discurso comum, as palavras fazem sentido. O problema aqui, parece-me, é que a utilização da dicotomia ignora por completo a única coisa que o PSD pode apresentar como razão para merecer alguma atenção por parte dos portugueses. Contra o PS, cujas forças mais significativas e dominantes desde há muito militam por uma cada vez mais insistente presença do Estado no interior da sociedade, o PSD representa a vocação, é verdade que tímida e trôpega, para uma certa liberalização da nossa vida social.

Aqui uma explicação é necessária. O “liberalismo” tem, é o mínimo que se pode dizer, má imprensa. “Selvagem” costuma vir logo a seguir. E a sua apresentação pública ajuda muito, porque parece que tudo se reduz a um feroz combate entre os adeptos do chamado “Estado mínimo” e aqueles que defendem um Estado alargado e com um peso determinante na sociedade. Ora isto, se me é permitido, é uma caricatura. O debate sobre o peso do Estado na sociedade é um debate político estrutural, mas há um sem-número de posições possíveis e articuladas na matéria. Ver as coisas assim, a preto e branco, roça o grotesco. Mas é no plano desse grotesco que as discussões normalmente têm lugar.

O liberalismo, na acepção que vale a pena dar ao termo, na acepção que lhe deram alguns dos mais eminentes pensadores políticos do século XIX, traz certamente consigo a crítica de um Estado omnipresente, mas tal crítica não implica de modo algum uma recusa do papel do Estado na sociedade. Sobretudo, não implica, ao contrário do que a cartilha caricatural pretende, a decisão de considerar irrelevante toda e qualquer reflexão sobre a justiça, a igualdade (digo bem: igualdade) e a defesa dos direitos dos mais desmunidos. No limite, o liberalismo é compatível com uma certa social-democracia: a expressão “social-democracia liberal” não é certamente um oxímoro. Trata-se antes de uma atitude geral, que pretende preservar o máximo de liberdade e de diversidade na comunidade social e o maior respeito pelas diferenças individuais. Dentro dessa atitude, cada um pode buscar a sua coerência própria, isto é, pode (e deve) procurar a continuidade entre aquilo que no passado pensou e aquilo que o horizonte actual permite. O que interessa é a atitude geral e os reflexos políticos que a atitude geral traz consigo.

Mas voltemos ao PSD. O PSD é certamente o partido mais inestético de Portugal. O seu primeiro nome, PPD, tem qualquer coisa de pouco entusiasmante. As setinhas, convenhamos, são feias. Isto para não falar de um hino que junta “paz, pão, povo e liberdade” (o “povo” a seguir ao “pão” sugere a natureza alimentícia do primeiro). Não há nada aqui que se compare com o vasto fresco histórico que qualquer dirigente socialista pode pintar, viajando séculos, para justificar a mais indiferente acção presente. Ao mesmo tempo, os principais chefes do PSD – Sá Carneiro, Cavaco Silva e Passos Coelho – contam-se sem dúvida, em conjunturas muito diversas e com características pessoais igualmente diversas, entre aqueles que mais procuraram liberalizar a sociedade, no sentido de “liberalizar” que apontei antes. E é isso que importa, não os fatinhos vestidos da bela tradição.

Há descontinuidades? Claro que há. Mas isso em nada permite que se oponha, como agora se faz, um demonizado Passos a um magnificamente virtuoso Sá-Carneiro, de impecáveis pergaminhos social-democratas. Primeiro, porque Passos Coelho agiu em circunstâncias precisas com uma admirável coragem para nos tirar do poço onde um primeiro-ministro socialista, é preciso dizê-lo, nos deixou. O que devemos à sua tenacidade é muito e merece ser repetido. Depois, porque a imagem que por aí circula de Sá Carneiro não é mais do que uma impostura ditada por interesses políticos imediatos. A social-democracia de Sá-Carneiro era respeitada em tempos de sua vida por muitos daqueles que agora a homenageiam? Basta lembrar a primitiva AD. Lembrar, sobretudo, como tudo aquilo – e Sá Carneiro em primeiro lugar – era “fascista”. E não era só a língua de pau do PC que falava assim. Era a de muita, muita, outra gente. Pessoalmente, lembro-me melhor do que queria, até porque era novo na altura e ainda me surpreendia facilmente. Quem não se lembre, é ir ver os jornais da época.

PSD de esquerda ou de direita? Deixem-se disso. Um PSD mesmo que muito moderadamente liberalizador é que interessa. Mesmo com a evolução das sociedades em geral no sentido de uma cada vez maior infantilização dos indivíduos por um estado tutelar, algo ainda é possível. E cada vez mais necessário, já que o PS desde há muito parece ter optado pelo caminho inverso. Não digo que tenha de ser sempre assim. Mas, a julgar pelo que se vê, as possibilidades de deixar de ser assim são remotas.

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O que se passou com Sócrates é comparável ao que se passou em todos os outros partidos? Há algum caso semelhante ao que se passou no PS, não apenas por causa de Sócrates, mas também pelo próprio PS?

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