A organização Transparency International publicou uma lista sobre a corrupção no mundo e a Federação da Rússia aparece em 119º lugar, rodeado por países como a Serra da Leoa e várias posições abaixo de Moçambique. Angola ocupa a 130ª posição de uma tabela de 163 países.

Estes dados obrigam-nos a fazer uma pergunta: será possível que dirigentes de países tão corruptos como a Rússia e Angola sejam pessoas honestas e não desviem parte significativa da riqueza nacional para si e para os seus?

É necessário chamar a atenção para o facto de as políticas económicas e financeiras de Moscovo e Luanda terem sido muito semelhantes no tempo das “vacas gordas”, quando o barril do petróleo superou a barreira dos cento e muitos dólares. Nessa altura, nem José Eduardo dos Santos, nem Vladimir Putin se preocuparam com a criação e modernização das infraestruturas nos seus países, sendo o dinheiro levado e lavado em bancos estrangeiros ou gasto em luxos principescos.

Verdade seja dita, há uma diferença no modus operandi dos dois dirigentes: se José Eduardo dos Santos não tem vergonha (talvez até tenha orgulho) das “capacidades impresariais” dos seus filhos e parentes, Vladimir Putin criou uma cortina de mistério em torno das suas duas filhas e da sua família em geral, o que dá origem a muitos boatos e mitos.

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Aliás, Putin apenas repete os actos dos czares russos na distribuição da riqueza nacional. Não passa pela cabeça de ninguém afirmar que na época de Pedro I ou de Catarina II não havia corrupção na Rússia, mas também, nos compêndios de história, não se escreve que esses e outros czares foram corruptos. Isto porque, por exemplo, nos boletins de recenseamento da população esse país, à pergunta: “Qual a sua profissão?”, o último imperador Nicolau II respondeu: “Senhor da Terra Russa”, ou seja, em última instância, tudo lhe pertencia.

O mesmo acontece com Putin. Se ele acha que precisa de um palácio nas costas dos mares Negro ou Báltico, simplesmente manda-os construir. O mesmo se pode dizer em relação a yates de luxo, etc. Quanto aos palácios e contas bancárias no estrangeiro, não sei se vale a pena levar dinheiro para lugares onde depois não se pode gozar uma reforma descansada.

Por isso, quando dirigentes americanos acusam o Presidente Putin de ter uma fortuna enorme, não estão a ser muito precisos. O dirigente russo tem o poder absoluto no país e, por isso, não precisa daquilo que tem à sua disposição: dinheiro. Ele precisa é de uma corte fiel, por isso é que, entre os multimilionários russos estão amigos de infância ou de juventude de São Petersburgo, treinadores de judo e de esqui, agentes do KGB/FSB/SVR. Estes é que são os verdadeiros corruptos, dizem os críticos do regime, pois utilizam-se da sua posição para pilhar o país. As melhores empresas públicas são dirigidas por eles, os mais vantajosos contratos vão-lhes cair às mãos.

Esta nova “nobreza” russa é que constitui a verdadeira riqueza do actual dirigente russo, porque, em troca das beneses e privilégios do suserano, eles sabem que têm de lhe ser fiéis, pois Putin é a garantia do bem estar deles, bem como das suas famílias.

Ora, como demonstra a experiência mundial, e aqui nem Portugal foge à regra “ajudar os amigos” não é corrupção, pelo menos na versão dos corruptores e corrompidos.

Mas é curiosa a forma como o Kremlin reagiu a semelhantes acusações, que antes Washington apenas ousava fazer a dirigentes de países do chamado Terceiro Mundo (não me lembro dos norte-americanos terem acusado publicamente de corrupção aos dirigentes comunistas, embora ela existisse na União Soviética). Em vez de desprezar e não reagir a acusações tão graves, Dmitri Peskov, súbdito encarregado de fazer chegar a resposta do dono aos restantes súbditos do seu e de outros países, não só as considerou “pura mentira” e “invencionices”, mas acrescentou também que elas visavam influir nos resultados das eleições…

Claro que ele não tinha em vista as eleições presidenciais nos Estados Unidos, mas as eleições presidenciais na Rússia em 2018. E, neste sentido, Peskov deixou assim claro que o actual líder russo não anda à procura de sucessor. Certamente que este plano prevê o “aparecimento de uma corrente crescente” de apoiantes da continuação do czar Vladimir II no Kremlin. E tudo será feito em conformidade com a Constituição, que lhe permite ser reeleito para um período de mais seis anos, ou seja, dirigir a Rússia até 2024. Depois, se ele e nós estivermos ainda vivos, poderemos ver, talvez, quem o irá substituir temporariamente.

Em Angola, o Presidente José Eduardo dos Santos parece também não fazer intenções de se reformar. É muito difícil abandonar o poder absoluto, tanto mais quando se pode correr o risco de acabar na prisão, isto no melhor dos casos.