Vladimir Putin, Presidente da Rússia, veio no Domingo provar que o seu país tem um passado realmente imprevisível. Depois de os historiadores e especialistas terem considerado durante muitos anos que a invasão do Afeganistão, em Dezembro de 1989, pelas tropas soviéticas foi um acto de agressão e uma das causas da queda da União Soviética, o dirigente russo quer apresentar esse acto como uma resposta a “ameaças reais”.

“Hoje, quando os anos passam e se tornam conhecidos cada vez mais factos, compreendemos melhor e melhor o que serviu então de causa e pretexto para o envio de tropas soviéticas para o Afeganistão. Claro que houve muitos erros, mas eram reais as ameaças que, nessa altura, a direcção soviética tentou evitar com o envio de tropas para o Afeganistão”, declarou Putin numa reunião com veteranos russos dessa guerra.

O autocrata russo frisou que não quer “fazer avaliações políticas”, mas alguns dos seus súbditos compreenderam o sinal e apressaram-se a substituir o senhor nessa tarefa. Franz Klintzevitch, um dos dirigentes da União dos Veteranos do Afeganistão da Rússia, declarou no mesmo encontro que “a presença das tropas soviéticas no Afeganistão ‘congelou’ a ameaça de terrorismo, que se tornou hoje o problema número um para a humanidade”.

E, atenção!, “a União Soviética chamou a si o primeiro golpe da ‘jihad’, cujos teóricos e executores foram ideológica e financeiramente criados pelos serviços secretos dos países ocidentais, antes de tudo dos Estados Unidos”, acrescentou o veterano.

Na realidade, as coisas foram bem diferentes. A União Soviética enviou tropas para apoiar uma das alas de um regime militar que pretendia “construir o socialismo ladeando o capitalismo” num país feudal como era o Afeganistão. Foi precisamente esse regime que destruiu as estruturas seculares existentes que mantinham o equilíbrio entre as várias etnias e tribos no país.

A CIA apenas se aproveitou da situação para armar a oposição, preocupando-se mais em enfraquecer o poder soviético naquela região do que com as consequências a longo prazo. Antes da invasão do Afeganistão pela URSS não existiam, por exemplo, talibãs.

Esta “nova” lógica da direcção russa tem um objectivo claro: mostrar que a Rússia nunca foi um país agressor, mas sempre vítima dos europeus e americanos invejosos.

Foi essa mesma ideia que esteve na base da justificação do Pacto Molotov-Ribbentropp, assinado pelos mais cruéis ditadores: Hitler e Estaline. Segundo a nova versão oficial, a União Soviética pretendia apenas libertar os irmãos eslavos residentes nas partes ocidentais da Ucrânia e da Bielorrússia!

A “nova história” aplica-se à actual situação na Ucrânia. Segundo o Kremlin, os acontecimentos que provocaram a actual guerra no Leste do país vizinho foram provocados por agentes da UE e dos Estados Unidos e Moscovo apenas se limitou ir em ajuda da “população russófona”.

P.S. Quando eu estudava História na Universidade de Moscovo, diziam-nos que todos os povos do antigo império russo tinham “aderido voluntariamente” a ele, não se preocupando os ideólogos do regime comunista com uma famosa frase de Vladimir Lénine, seu fundador: “O império russo era uma prisão dos povos!”.