Os dirigentes da União Europeia reuniram-se para analisar o sistema de sanções e o primeiro-ministro português, António Costa, esteve entre os que defendem que é necessário “passar mais para a fase da cooperação do que para a fase da sanção”, frisando que “a UE quer uma relação não conflituosa com a Rússia, uma relação parceira, de vizinhos que se respeitam e que em conjunto podem ajudar à paz e estabilidade”.

No entanto, falta saber se Moscovo está aberto a esse diálogo e em que condições.

Primeiro, não nos devemos esquecer que a crise nas relações entre Bruxelas e Moscovo se iniciou depois do Presidente Putin ter dado ordem às suas tropas para invadirem um país vizinho, a Ucrânia, e terem anexado uma parte do seu território, mais precisamente a Crimeia. Foi precisamente essa agressão que levou a União Europeia a aprovar fortes sanções contra Moscovo. O que mudou desde então para que Bruxelas altere a sua posição? Nada. Ou, mais precisamente, as coisas ainda pioraram com o aumento crescente do envolvimento militar russo no Leste da Ucrânia e na Síria.

Além disso, a retórica militarista do Kremlin em relação aos países europeus e ao mundo, as exibições de navios, mísseis, tanques e aviões militares também não são sinal de que Putin esteja disposto a retomar o diálogo com a União Europeia em condições civilizadas. Ele não quer dialogar, mas sim ditar ao afirmar que “a questão da Crimeia está encerrada” ou ao tentar impor sistemas políticos do seu agrado em Estados vizinhos.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, declarou que os líderes europeus têm a noção de que “a estratégia da Rússia é enfraquecer a União Europeia”, mas isto não passa de um eufemismo, porque o que o Kremlin realmente quer é que a UE se desintegre, pois assim terá mais facilidade em impor as suas posições hegemónicas à Europa.

É precisamente esse objectivo que persegue o regime russo ao apoiar, moral e financeiramente, as forças políticas que no seio da União Europeia lutam pelo fim dela.

O Kremlin conseguiu ocupar parte da Geórgia em 2008 também porque deparou com uma UE sem política externa comum, sem uma posição una face à invasão das tropas russas. Foi essa divisão e fraqueza que contribuiu para que Moscovo repetisse a mesma experiência na Ucrânia e elas poderão ainda custar um pesado preço se Bruxelas continuar com hesitações ou com ilusões em relação à política externa do Presidente Putin. Este dá cada vez mais provas de que só há “diálogo” se a outra aceitar as suas condições.

O que se passa na Síria é mais uma prova disso. Moscovo só estará disposto a aceitar um acordo se forem aceites as suas condições, nomeadamente a manutenção do regime de Bashar Assad e o reconhecimento da sua presença militar no território da Síria. O combate ao Estado Islâmico é secundário. Verdade seja dita, torna-se cada vez mais difícil compreender quais são os verdadeiros objectivos das numerosas forças que participam nesse conflito.

E mais um pormenor. Os dirigentes da União Europeia devem compreender que Putin não olha para eles como parceiros iguais. O único parceiro de conversações com quem ele desejará falar em pé de igualdade será o próximo Presidente dos Estados Unidos. Por isso é que muitas das tiradas militaristas e desafiadoras de Putin devem ser vistas como uma tentativa de formar a nova ordem de trabalhos das futuras conversas entre Moscovo e Washington.

Não é por acaso que o Kremlin tanto anseia pela vitória do populista Donald Trump, que promete dialogar com Putin e enfraquecer a aliança militar com a Europa no quadro da NATO. Mas talvez lhe saia o tiro pela culatra, como aconteceu antes com a eleição de Ronald Reagan.