Certamente já se questionou: “Como é que funciona o nosso coração?”. Fique por isso a saber que este órgão tão especial é controlado por uma espécie de sistema elétrico (tecido de condução) que utiliza sinais também elétricos para contrair as suas paredes. Esta contração faz com que o sangue seja bombeado no sistema circulatório, enquanto as válvulas de entrada e de saída das câmaras cardíacas asseguram que o sangue flui na direção certa.

O termo bloqueio cardíaco refere-se a um conjunto de situações em que a lesão do tecido de condução pode condicionar diminuição da frequência cardíaca (quantidade de vezes que o coração bate por minuto) mais ou menos acentuada podendo mesmo originar paragem cardíaca por ausência total ou quase total dos batimentos cardíacos.

As células do tecido de condução têm a capacidade de gerar impulsos elétricos espontaneamente. Em circunstâncias normais é o chamado nó sino-auricular o “maestro” e que dita a frequência com que as aurículas e depois os ventrículos se contraem. Esta frequência não é fixa pois é influenciada por substâncias hormonais. É por isso que a frequência cardíaca aumenta, por exemplo, com o exercício. Quando há uma lesão do nó sino-auricular, o “maestro” passa a ser algum local das aurículas ou o nó aurículo-ventricular (a uma frequência mais baixa) ou no caso da lesão deste um dos ramos ou mesmo as próprias células musculares ventriculares. Quando isto acontece, a frequência cardíaca não só é muito mais baixa (cerca de 20-30 batimentos por minuto), como mais instável, podendo ocorrer pausas mais ou menos grandes (vários segundos) ou mesmo paragem cardíaca.

A lesão das células do tecido de condução pode ocorrer a vários níveis com significados totalmente diferentes. O diagnóstico é feito por eletrocardiograma, um exame que avalia o ritmo dos batimentos cardíacos em repouso – e o que tem maior significado clínico quer pela frequência quer pelas consequências é o bloqueio aurículo-ventricular. Dentro destes há vários tipos conforme o grau de lesão – 1º grau, 2º grau tipo 1, 2º grau tipo 2 e 3º grau. Este último é o mais sério, já que pode condicionar paragem cardíaca. Antes desta ocorrência é comum os doentes afetados sentirem tonturas e por vezes perdas de consciência. É ocasionalmente causa de morte súbita. Estes devem ser considerados sinais de alarme, sendo importante avaliar a frequência cardíaca durante o evento.

Há múltiplas causas de bloqueios cardíacos, umas reversíveis (por exemplo o enfarte agudo do miocárdio ou o uso de certas drogas ou fármacos) outras irreversíveis (como a fibrose do tecido de condução cardíaco que acontece com a idade avançada). O tratamento consiste frequentemente na colocação de um eletrocateter no ventrículo direito através de uma veia ligado a um gerador externo (no caso dos bloqueios transitórios, sendo posteriormente removido) ou a um “pacemaker” definitivo – um aparelho que controla e regula os batimentos cardíacos -, que fica implantado subcutaneamente abaixo da clavícula (no caso dos bloqueios definitivos). Todos estes procedimentos são realizados, em tempo de pandemia, com a máxima segurança, quer para os doentes, quer para os profissionais de saúde.

Vejamos um exemplo real de um bloqueio cardíaco: António (nome fictício), de 83 anos, previamente saudável, ativo, começou a sentir tonturas durante semanas, chegando mesmo a perder a consciência numa ocasião. Na observação médica verificou-se que a frequência cardíaca era de 30 batimentos por minuto. Um eletrocardiograma permitiu fazer o diagnóstico de bloqueio aurículo-ventricular do 3º grau. Como a sua frequência cardíaca não era estável e ocorriam pausas significativas, foi colocado um “pacemaker” provisório. Foi efetuado um conjunto de exames (análises e ecocardiograma entre outros), que permitiram excluir as causas reversíveis de bloqueio aurículo-ventricular e, no dia seguinte foi implantado um “pacemaker” definitivo. Após a alta, o doente ficou assintomático e passou a ter de efetuar consultas regularmente para assegurar o bom funcionamento do dispositivo e monitorizar a carga da bateria do mesmo.

Em conclusão, o bloqueio cardíaco é muito comum, pode ocorrer a vários níveis, com significados muito diferentes, as causas podem ou não ser reversíveis e, em algumas circunstâncias, necessitar da implantação de um pacemaker definitivo.

O estar atento a sinais de alerta pode significar o tratamento eficaz de uma situação que, de outra forma, pode ser fatal.