Existiam dezenas de relatos escritos e centenas de especulações sobre como foi assassinada a família de Nicolau II, último imperador russo, às mãos dos comunistas em 1918. Mas este é o primeiro relato oral conhecido. Feito por um dos carrascos, é impressionante a forma calma da voz como relata esta matança.

A banda sonora deste relato foi publicada em finais de Junho de 2016 na página “Memória Histórica: século XX. O terror de Estado e as perseguições políticas na URSS”. Grigori Nikulin, um dos participantes do fuzilamento sumário de Nicolau II, sua esposa, suas quatro filhas, seu filho, seu médico pessoal Evgueni Botkin, a empregada de sua mulher Anna Demidova, o cozinheiro da família Ivan Kharitonov e o criado Alexei Trupp, conta como tudo aconteceu, confirmando a tese de que as salvações milagrosas do príncipe Alexei ou da princesa Anastasia não passaram de meras especulações que continuam a estar na origem de numerosos romances de cordel.

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Grigori Nikulin em fotografias de 1964 e 1918

É de assinalar que Grigori Nikulin fez uma carreira bem-sucedida nas estruturas do poder soviético, mas nunca falou publicamente sobre a sua participação neste crime. A gravação sonora foi feita pelo Comité de Rádio de Moscovo em 1964, um ano antes da morte do carrasco, não para ir para o ar em qualquer programa radiofónico, mas para ser guardado no Arquivo de Estado Central de Gravações Sonoras da URSS, onde ainda hoje pode ser encontrado.

Verdade seja dita, os comunistas soviéticos, nomeadamente Estaline, tinham pelo menos uma grande virtude: não mandavam destruir as provas dos seus crimes, mas faziam questão de as guarda “para sempre”, como se vê em muitos documentos. Daí hoje ser possível ver as assinaturas de Estaline e de outros dirigentes soviéticos por debaixo de longas listas de “inimigos do povo” a fuzilar. Talvez acreditassem que o seu poder não tivesse fim.

No caso de Grigori Nikulin, impressiona a forma calma, praticamente sem emoções, como relata o episódio sangrento, os seus pormenores desde a preparação até à execução.

Os comunistas tinham decidido matar a todos na casa Ipatiev, em Ekaterimburgo, mas restava saber como: “a ordem era fazer tudo sem barulho, calma”, havendo várias possibilidades: “matá-los quando dormiam”, “reuni-los num quarto para inspecção e atirar bombas lá para dentro”, “encenar a defesa da casa e levá-los, sob esse pretexto, para o subterrâneo”. Escolheram esta última.

Escolhidos oito atiradores e reunida a família real e os seus acompanhantes, o chefe dos bolcheviques Irovski anunciou que a cidade de Ekaterimburgo estava a ser alvo de uma ofensiva de monárquicos e que, por isso, iriam ser fuzilados.

A operação foi feita de forma tão rápida que Nicolau II teve apenas tempo para dizer “Ah!”. Mas nem todos morreram após os primeiros disparos. “Tivemos de acabar de matar alguns: Anastasia e Davidova, que se tinha protegido com uma travesseira. Tiramos-lhe a travesseira e acabamos com ela… E pusemos fim também à vida do rapaz, rapidamente”, recorda Nikulin.

E a conclusão não merece comentário: “Considero que da nossa parte foi revelado humanismo. Depois, eu combati… e considerava que se caísse nas mãos dos brancos e se eles fizessem isso comigo, ficaria feliz”.

Este foi um dos muitos episódios sangrentos das experiências comunistas do séc. XX que provocaram numerosos milhões de mortos. E se a insensatez levar a permiti-lhes realizar mais uma tentativa, será mais branda? Duvido…