Uma semana de férias numa conhecida vila termal do Norte de Portugal fez-me pensar repetidas vezes no muito publicitado pensamento de Marcelo Rebelo de Sousa segundo o qual os portugueses, quando querem, são os melhores dos melhores. Não que tenha de súbito descoberto um sentido testável para essa frase tantas vezes e tão longamente repetida, que obviamente não passa de um pedaço de retórica convenientemente imune a qualquer espécie de confirmação ou refutação empíricas, à disposição de quem quer que seja que se decida a utilizá-la com a intenção que bem lhe apetecer. Nada impede, por exemplo, o seu colega Mohamed Abdullahi Mohamed, presidente da República Federal da Somália, de a pronunciar relativamente aos somalianos com idêntica legitimidade e flagrante insusceptibilidade de se confrontar com um desmentido empírico. Mas, levando-a por razões puramente caritativas a sério, apetece perguntar em certos casos: porque é que o querem tão pouco?

Explico. Eu e a minha mulher, com pouco tempo para férias, decidimos prescindir, nessa breve fatia de tempo, de tudo o que implicasse trabalhos caseiros e recorrer sistematicamente aos serviços da restauração local, que se apresentava em grande quantidade. O artigo de hoje limita-se a descrever um conjunto de experiências na matéria. Restrinjo-me aos factos e omito por inteiro as nossas reacções aos ditos, que não acrescentariam nada de significativo ao assunto principal. E permito-me uma conclusão antecipada. Foi como ter passado uma semana nas lendárias Fawlty Towers, servidos alternadamente pelo extraordinário Basil e pelo não menos memorável Manuel (de Barcelona). Verdade seja dita que a semelhança com as situações narradas na série quase imediatamente transformou o contacto com a realidade numa experiência hilariante. Somando tudo, foi uma boa semana, e não escrevo este artigo de modo algum para me queixar, muito pelo contrário. A coincidência absoluta da realidade com o mito pode oferecer encantos insuspeitados.

Tudo começou com o pacato pedido de um hambúrguer no snack-bar de um hotel. Quando o dito hambúrguer chegou, pedi mostarda para o acompanhar. “Já meti tudo dentro”, foi a resposta imediata da jovem que servia, e “tudo” aqui significava, além da mostarda, ketchup e maionaise. Não discuto, é claro, a boa vontade, mas o sábio princípio da liberdade individual da escolha tinha sido posto em questão e, sobretudo, a imagem do “meter tudo dentro” ofende a delicadeza com que se olha até para um banal hambúrguer. Estava já tudo “metido” lá dentro, pronto a ser “metido” dentro de nós.

A experiência seguinte, num restaurante, foi mais consistentemente Basil Fawlty. Tinha chegado a altura da sobremesa e, na esplanada não muito ocupada de clientes, fizemos um sinal ao empregado. Com um olhar reprovador, pôs-nos devidamente no lugar: “Ainda há gente a comer!”. Dito por outras palavras: enquanto houvesse mais gente a comer, um facto certamente inédito num restaurante, a sobremesa tinha de esperar. Esta lei da restauração, a lei Basil, poder-se-ia chamar-lhe, que reclama uma teorização própria, deixou-nos perplexos. Mas, enfim, como imorredoiramente lembrou Ésquilo, aprende-se sofrendo, e lá integrámos o avanço sem dúvida significativo por ela representando.

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