Portugal 2020

Quando queremos, somos os melhores /premium

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Sobre a proposição metafísica de Marcelo relativa à natureza dos portugueses: se, quando queremos, somos os melhores dos melhores, porque é que, tantas vezes, o queremos tão pouco?

Uma semana de férias numa conhecida vila termal do Norte de Portugal fez-me pensar repetidas vezes no muito publicitado pensamento de Marcelo Rebelo de Sousa segundo o qual os portugueses, quando querem, são os melhores dos melhores. Não que tenha de súbito descoberto um sentido testável para essa frase tantas vezes e tão longamente repetida, que obviamente não passa de um pedaço de retórica convenientemente imune a qualquer espécie de confirmação ou refutação empíricas, à disposição de quem quer que seja que se decida a utilizá-la com a intenção que bem lhe apetecer. Nada impede, por exemplo, o seu colega Mohamed Abdullahi Mohamed, presidente da República Federal da Somália, de a pronunciar relativamente aos somalianos com idêntica legitimidade e flagrante insusceptibilidade de se confrontar com um desmentido empírico. Mas, levando-a por razões puramente caritativas a sério, apetece perguntar em certos casos: porque é que o querem tão pouco?

Explico. Eu e a minha mulher, com pouco tempo para férias, decidimos prescindir, nessa breve fatia de tempo, de tudo o que implicasse trabalhos caseiros e recorrer sistematicamente aos serviços da restauração local, que se apresentava em grande quantidade. O artigo de hoje limita-se a descrever um conjunto de experiências na matéria. Restrinjo-me aos factos e omito por inteiro as nossas reacções aos ditos, que não acrescentariam nada de significativo ao assunto principal. E permito-me uma conclusão antecipada. Foi como ter passado uma semana nas lendárias Fawlty Towers, servidos alternadamente pelo extraordinário Basil e pelo não menos memorável Manuel (de Barcelona). Verdade seja dita que a semelhança com as situações narradas na série quase imediatamente transformou o contacto com a realidade numa experiência hilariante. Somando tudo, foi uma boa semana, e não escrevo este artigo de modo algum para me queixar, muito pelo contrário. A coincidência absoluta da realidade com o mito pode oferecer encantos insuspeitados.

Tudo começou com o pacato pedido de um hambúrguer no snack-bar de um hotel. Quando o dito hambúrguer chegou, pedi mostarda para o acompanhar. “Já meti tudo dentro”, foi a resposta imediata da jovem que servia, e “tudo” aqui significava, além da mostarda, ketchup e maionaise. Não discuto, é claro, a boa vontade, mas o sábio princípio da liberdade individual da escolha tinha sido posto em questão e, sobretudo, a imagem do “meter tudo dentro” ofende a delicadeza com que se olha até para um banal hambúrguer. Estava já tudo “metido” lá dentro, pronto a ser “metido” dentro de nós.

A experiência seguinte, num restaurante, foi mais consistentemente Basil Fawlty. Tinha chegado a altura da sobremesa e, na esplanada não muito ocupada de clientes, fizemos um sinal ao empregado. Com um olhar reprovador, pôs-nos devidamente no lugar: “Ainda há gente a comer!”. Dito por outras palavras: enquanto houvesse mais gente a comer, um facto certamente inédito num restaurante, a sobremesa tinha de esperar. Esta lei da restauração, a lei Basil, poder-se-ia chamar-lhe, que reclama uma teorização própria, deixou-nos perplexos. Mas, enfim, como imorredoiramente lembrou Ésquilo, aprende-se sofrendo, e lá integrámos o avanço sem dúvida significativo por ela representando.

Uma tarde, depois de umas braçadas na piscina, apeteceu-nos uma bebida. O bar de um outro hotel tinha uma varanda simpática, em cima do edifício das águas termais. Decidimo-nos por dois exotismos caracterizados: uma vodka tónica e um sumo de laranja. Problema com o sumo: alguém tinha pedido um ao almoço e já não havia uma só laranja disponível. Podia ser um Compal de pêssego? A minha mulher lá aceitou a solução inevitável – e eu, podia ser uma vodka qualquer? A ideia de “uma vodka qualquer”, vá lá Deus saber porquê, inquietou-me, e perguntei quais tinha. A menina desceu ao andar de baixo, e voltou, passado algum tempo, com a lista das bebidas e uma boa notícia: ainda havia um par de laranjas. O problema é que a lista das bebidas não mencionava nenhuma vodka, o que originou nova descida ao andar de baixo. Regresso da menina acompanhada de um jovem (“He manager”, podia ter dito a menina-Manuel) que me perguntou o que é que eu, o “cavalheiro”, queria. “Ah, uma vodka tónica!”, e desceu contente. A menina lá trouxe depois o sumo de laranja, rodeado de pacotinhos de açúcar, e a vodka – “uma vodka qualquer”, mas seria estúpido fazer-me esquisito.

Foi na noite seguinte que Basil Fawlty voltou em força. A esplanada do restaurante estava cheia, pelas nove e trinta. Sentámo-nos numas cadeirinhas para esperar. Um senhor muito sério avisou-nos cominatoriamente que a cozinha fechava às dez e que era um risco. Respondi que arriscávamos, até porque toda a gente parecia ter chegado ao fim do jantar. Instantes a seguir, uma extensa mesa de vários convivas ficou liberta. Depois de alguma hesitação, lá nos encaminhámos para uma das extremidades da mesa de oito lugares. Na outra extremidade, dois franceses esperavam pela conta enquanto se lamentavam pelo mau serviço. Depois de resolvida a conta dos outros, a encarnação lusitana de Basil Fawlty dirigiu-se a nós, ralhando à criançada: “Não sabem, mas neste restaurante os clientes têm que esperar que libertemos a mesa e só depois se sentam”.

E há a magnífica história do risotto. Restaurante de um outro hotel. Um magnífico dia de calor e céu azul. Pedimos um rosé muito fresquinho. A empregada confessou que o rosé não estava fresco, mas que se voltássemos ao jantar já estaria. Foi triste prescindir da generosa sugestão, mas precindimos e pedimos dois risottos de cogumelos que a lista anunciava e que já tínhamos lá comido antes. Passado algum tempo, chegaram dois risottos – de legumes. Fiz notar que o risotto que tínhamos pedido era de cogumelos. A menina confessou a sua surpresa: desconhecia a existência do risotto de cogumelos. Lá partiu com os nossos pratos, para voltar pouco tempo depois com os mesmos risottos de legumes com uns pobres poucos cogumelos enfiados lá dentro.

Haveria ainda outras histórias a contar, como a da “casa de petiscos” em que a empregada-Manuel, depois de lhe termos feito notar que, já com a comida na mesa, faltavam os talheres, passou quinze minutos, entre idas e vindas às mesas, a lembrar-nos que não se tinha esquecido dos talheres em questão, esperando sem dúvida assim fortificar a nossa crença na capacidade da espécie humana para progredir em direcção ao melhor.

Permito-me repetir que, depois das primeiras perplexidades, estas experiências foram vividas com real hilariedade. Tal é a natureza da espécie humana que uma pessoa é capaz de pagar só para ver as suas expectativas sem excepção confirmadas, residindo a única dúvida, neste caso, em saber se o encontro gastronómico se daria com as versões lusitanas de Basil ou de Manuel. Além de tudo, tudo isto levanta a questão que mencionei no início sobre a proposição metafísica de Marcelo relativa à natureza dos portugueses: se, quando queremos, somos os melhores dos melhores, porque é que, tantas vezes, o queremos tão pouco? É um tema que deixo à reflexão do nosso filosófico presidente.

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