Por um daqueles alinhamentos planetários em que ninguém deverá acreditar, as últimas semanas (referente ao dia em que escrevo) foram profícuas em leitura e “ouvidura” sobre o que querem os empresários; o que dizem os representantes dos empresários; o que as pessoas acham sobre os empresários; o que os governantes acham que os empresários devem ser; aquilo que os académicos acham que é a formação dos empresários; ficando a faltar, talvez, algo sobre o que os empresários devem vestir e que viria a calhar para a Black Friday.

Apesar de muita gente me considerar como tal, a verdade é que nunca me vi como empresário. Não nasci numa daquelas famílias de “tubarões da indústria” e, por isso, fui criado a ver um empresário pelos olhos de toda aquela gente que “sabe” o que é um empresário. Nem eu, nem nenhum dos meus sócios. Talvez quem tenha sido criado para herdar o negócio da família consiga ter outra perceção, mas para alguém como eu que passa uma semana a ser bombardeado com aquilo que é/deve ser um empresário acaba a pensar que um dia deve (ou talvez não) experimentar ser um.

E a minha história é igual à daqueles todos que adoravam trabalhar em algo que realmente acreditam, achando que o podem fazer da forma que entendem. Claro que a coisa é “ligeiramente” mais complicada do que aquilo que pensamos à partida. Todo o empreendimento precisa de crescer para os lados para conseguir crescer para cima, o nosso país das maravilhas é cheio de rainhas de copas e chapeleiros loucos que vão desafiando a nossa lógica mais racional. Não me lembro de uma única vez ter referido quanto é que a empresa ganhou num ano ou, pelo menos, de o ter dito antes daquilo que verdadeiramente nos orgulha, como impacto do que fazemos na vida de milhares de pessoas no mundo, o número de colegas que temos, o número dos que têm doutoramento, da diversidade de países de onde são provenientes ou de apontar as universidades e centros de investigação com os quais colaboramos. Na verdade, a empresa ganha dinheiro para isso e orgulha-se de ser isso que a faz ganhar dinheiro.

No meio da desesperante chuva de disparates sobre empresários, por mero acaso, um dos nossos talentosos gestores da empresa enviou recentemente um email para os membros da comissão executiva dizendo que finalmente as livrarias de acesso aos protótipos de computadores quânticos atingiram um estágio de maturidade interessante e que nos deveríamos debruçar sobre isso.

A minha veia de gestor, que todos temos, reagiu imediatamente. Afinal, estamos ainda a alguns anos dos computadores quânticos poderem de facto suportar uma utilização corrente. A verdade é que temos tanta coisa com que nos preocupar que desviarmos a nossa atenção com algo que está tão no seu início é coisa, no mínimo, complicada. A minha reação imediata foi responder por email que, no fundo, ainda não são exatamente computadores quânticos, são apenas simuladores, e que devíamos esperar mais um pouco.

A minha razão prende-se, para colocar as coisas em termos simples, com o facto de computação quântica ser algo completamente diferente daquilo a que estamos habituados. Aquela máquina em que está a ler estas palavras, é uma máquina maravilhosa sob qualquer critério, que foi construída com base na matemática que o nosso cérebro é capaz de entender e desenvolver. Pelo menos, assim parece. É uma máquina de computação clássica, cujas regras são completamente dominadas por essa matemática que levámos uns milénios a resolver. Portanto, um computador clássico é uma máquina feita para correr a nossa matemática. Um computador quântico é, no entanto, uma máquina que corre a matemática da natureza e é o nosso cérebro que se tem que adaptar a ela.  Em termos brutais, quem programa um computador clássico tem que limpar o cérebro antes de programar um computador quântico e vice-versa. Denominamos programação a ambas da mesma forma que chamamos corrida tanto a uma maratona, como a um grande prémio de Fórmula 1.

No entanto, já depois de enviar o email, demos connosco a pensar naquilo que tanta gente “sabe” sobre empresários. A verdade é que eu sou um físico que nunca deixou de o ser. A mecânica quântica é, com efeito, o enquadramento teórico mais bem-sucedido para explicar a natureza, tendo nós sido treinados para programar computadores quânticos um par de dezenas de anos antes destes simuladores aparecerem, ou se suspeitar do dia em que poderiam aparecer. Tudo aquilo que a empresa faz desde que foi formada há quase 15 anos é lidar com dados massivos, com otimização e desenvolvimento de modelos matemáticos, sendo que para o fazer nos tornámos, acreditamos nós, no maior empregador privado de físicos do país. O que quero transmitir, sem qualquer tipo de pretensiosismo, é que nenhuma outra empresa do país tem tanta gente capaz de entender a matemática da natureza e, ainda por cima, muito poucas serão tão avançadas no desenvolvimento das aplicações e modelos para a qual a computação quântica está a ser direcionada.

O que é que isto tem a ver com a história dos empresários? Bem, a verdade é que a comissão executiva, feita de gente que fundou a empresa, decidiu perguntar-se: se não formos nós a fazer isso, que somos dos mais bem colocados da Europa na matéria, quem é que irá fazê-lo? Claro está que a decisão se tomou e agora temos uma divisão de programação de computadores quânticos cuja faturação esperada nos próximos tempos estará muito próxima do zero. O nosso espírito de gestores apontava-nos para não o fazer, mas avançamos pela simples razão de termos que ser nós a fazê-lo.

Tenho a esperança de que este singelo relato caia entre os frades da doutrina marxista e dos gurus da gestão como uma sobreposição de estados quânticos. Como assim, faturação zero e têm que o fazer? Onde se inserem a exploração do homem pelo homem, bem como os níveis de produtividade marginais? A toda a gente que fala do que os empresários querem, do que dizem, do que esperam, da formação deles e dos maus fígados que têm; a todas as pessoas que nos infernizaram as últimas semanas com conjeturas de tudo e mais alguma coisa sobre o “país que devemos ser” e naquilo em que devemos apostar, o que pretendo com a exposição do presente caso é que entendam esta particularidade quântica: ainda que pareça que saibam do que estão a falar, não tentem colapsar o estado de quem o está a fazer. Ele não o está a fazer pelas razões que vocês aprenderam. O risco, esse, será sempre de quem tem a ousadia de o tomar. E, assim sendo: Quantum? Vamos a isso!

(As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor.)
Co-Fundador da Closer, Professor e Investigador