Rádio Observador

Crónica

Quatro grandes questões do nosso tempo

Autor
1.055

Não sei se o sr. Costa tem azar com as limitações de quem lhe escreve os discursos, ou se ele escolhe deliberadamente burgessos. Sei que exaltar a língua enquanto a torturamos com zelo tem a sua piada

Alterações climáticas

O aquecimento global? Faleceu. Agora o drama são as mudanças climáticas, o que significa que graças à malévola acção do homem (o homem é o sr. Trump) a temperatura tanto pode subir como descer. É um perigo em ambos os casos. No primeiro, os noticiários são quase exclusivamente preenchidos com “reportagens” imprescindíveis na praia, cada uma dedicada à opinião de dezassete banhistas sobre a água do mar (“óptima!”), o sol (“queima!”) e o Verão em geral (“espectacular!”). Há alertas imprescindíveis da Protecção Civil acerca dos cuidados a ter com o calor (beber água, usar roupa fresca), revelados com a solenidade adequada aos segredos do universo. E há fotografias imprescindíveis dos termómetros dos automóveis, processo através do qual o cidadão comunica a um mundo ansioso que na sua cidade estão 35º ou 38º.

No segundo caso, actualmente em curso, os perigos não diminuem. Os “telejornais” são quase exclusivamente preenchidos com “reportagens” imprescindíveis em praças do interior, cada uma dedicada à opinião de dezassete transeuntes sobre a neve (“é normal”), a roupa (“é muita”) e o Inverno em geral (“é isto”). Há alertas imprescindíveis da Protecção Civil acerca dos cuidados a ter com o frio (não sair à rua em pelota, não se lançar para cima de fogueiras). E há fotografias imprescindíveis dos termómetros dos automóveis, processo através do qual etc., etc., etc. Nesta época, há ainda o risco adicional de vermos o prof. Marcelo a perseguir pessoas sem casa, em princípio infelicidade bastante.

Se o homem, leia-se o sr. Trump, não fosse egoísta e pensasse nas gerações futuras, seríamos poupados a todas as calamidades acima descritas. A única calamidade restante seria a falta de assunto de que o “jornalismo” pátrio passaria a sofrer. Qualquer dia, os noticiários teriam de transmitir notícias.

Assédio sexual

Como sempre estimulados pelo exemplo do “estrangeiro”, os portugueses de alguma fama desataram a confessar o assédio sexual de que foram alvo. Não escrevi “as portuguesas” porque, numa subversão irónica do movimento #MeToo, aqui parecem ser os homens a liderar o rol de queixinhas. E as queixinhas chegam com travo típico: José Cid, uma das vítimas, foi assediado por um fadista; António Lobo Antunes viu-se perseguido por um professor de Moral.

Nas denúncias indígenas de abuso não há produtores de cinema, realizadores de prestígio, actores famosos ou um mero humorista digno do nome. Os vilões referidos são fadistas, padres e, arrisco, barbeiros, beneficiários do RSI, vereadores com pelouro e funcionários da conservatória do registo predial. O nosso lastro histórico, por comparação à juventude dos EUA, também pesa, já que, aparentemente, as poucas-vergonhas em causa aconteceram por volta de 1951. E, embora tenham profissão, os pervertidos nunca têm nome (porque o país é pequeno e toda a gente se conhece e tal). Contas feitas, o #MeToo indígena reflecte as diferenças entre a Brandoa e Hollywood e, de serôdio, não diverte tanto quanto o americano.

Este é uma galhofa pegada, principalmente desde que Cristina Garcia, activista californiana incluída no artigo da “pessoa do ano” da “Time” (“As que quebraram o silêncio”), é acusada de apalpões e propostas indiscretas pelo assessor de um deputado (democrata, valha-nos Deus). Outro sujeito, um lobista do mesmo estado, garante que a senhora tentou tocar-lhe nas partes baixas. É possível que as delações sejam falsas, é possível que sejam verdadeiras, é provável que sejam irrelevantes – aliás, à semelhança de muitas daquelas que celebrizaram o #MeToo. Descontadas a violência e a opressão autênticas, que a histeria em voga só desvaloriza, sobram a vida e os gestos ridículos com que as pessoas frequentemente a levam. As pessoas do ano e as de todos os anos.

Identidade nacional

Portugal não se distingue pelos humoristas profissionais. Em compensação, fervilha de humoristas amadores. Há os jurados do prémio Camões, que o atribuíram a Manuel Alegre. Há Manuel Alegre, que aceitou o dito. E há António Costa, que foi à cerimónia de entrega dissertar sobre a língua portuguesa. Os jurados não sei quem são. O sr. Alegre é conhecido pelos textos de promoção ao futebolista Figo e ao BPP. E, como se dizia nos programas de variedades, o sr. Costa dispensa apresentações.

O que a alta comédia não dispensa é a parlapatice com que o sr. Costa abrilhantou o “evento”: “Cada língua representa um mundo e uma visão do mundo, é uma singularidade e uma pluralidade, é uma fixação e um movimento, é um passado, um presente e um futuro, é uma oportunidade e uma afirmação…” Quem fala assim não é gago. Nem, infelizmente, mudo. E quem fala assado? “Quero, neste momento, reafirmar o compromisso do Governo com a língua portuguesa, com os seus valores e as suas valências, da mais simbólica e poética à mais prática e instrumental”. Nem as “valências” faltaram (ainda que as sevilhas primassem pela ausência).

Não sei se o sr. Costa, já de si um portento “inchticional”, tem azar com as limitações de quem lhe escreve os discursos, ou se ele escolhe deliberadamente burgessos. Sei que exaltar a língua enquanto a torturamos com zelo tem a sua piada. E terá as suas consequências.

Bola

O presidente do Sporting, que não parece regular bem, comete uns desabafos sobre os “três olhos” ou a “mulher, gira ainda por cima” e os “media” precipitam-se a beber cada sílaba. O presidente do Benfica, que parece um portento de criatura, embrulha-se em incontáveis trapalhadas judiciais e, salvo excepções, os “media” nem tocam no assunto. Por uma vez, permito-me parafrasear o comentador especializado Rui Santos e perguntar, trémulo de aflição, para onde caminha o nosso futebol.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Feminismo

Liberdade p/assar /premium

Alberto Gonçalves
1.148

O descaramento do MDM e associações similares é infinito. Uma coisa, já de si irritante, é a sensibilidade contemporânea a matérias tão insignificantes que não ofenderiam o antigo arcebispo de Braga.

Crónica

Cavaco não tem saco para falar do saco /premium

Tiago Dores

Cavaco sempre foi um homem das contas. Menos das contas relativas ao financiamento da sua campanha para as Eleições Presidenciais de 2011. Dessas não fazia ideia rigorosamente nenhuma, como é óbvio.  

Crónica

Cocóspotting /premium

José Diogo Quintela
1.892

Daniel Nunes, o amigo do filho de António Costa, é um Fiscaliza Fezes. Recebe 1300 euros por mês para fazer cocóspotting. Deve ser, ao dia de hoje, dos Assinala Detritos mais bem pagos do país.

Crónica

Em Portugal pensa-se pouco Inês Pedrosa /premium

José Diogo Quintela
2.988

Inês Pedrosa é porteira do 10 de Junho e não vai franquear a subida ao púlpito de alguém que meramente “pensa em Portugal”, nem de quem apenas “pensa sobre Portugal”. Não, exige quem “pensa Portugal".

Crónica

A solidão das rãs 

Nuno Pires

Nos últimos anos, quando me sento na minha varanda rural olhando para a ribeira e a ponte, ouvindo o coaxar das rãs, fico com a ideia que naquele ambiente já falta vida, falta alegria, falta companhia

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)