As cozinhas são lugares quentes e carregados de alento. Espaços afetivos que nos alimentam o corpo e a alma. Lugar de intimidade (e intimidades), cenário  propício ao tecer de cumplicidades.

Lembremos a Leiteira, a clássica obra de Vermeer, e atentemos a alguns detalhes de valor simbólico: uma mulher na cozinha segura a jarra de leite, numa cozinha simples e pouco ornamentada mas com objetos utilitários necessários,  no canto inferior da parede um escalda-pés e o cupido num azulejo. Ora, aqui temos o primeiro alimento humano, os ingredientes e instrumentos essenciais para transformar os ingredientes num doce, o subtil erotismo do aquecedor e do deus do amor.

A partir deste quadro, podemos imaginar a cozinha como um equivalente do útero quente que cria vida, qual bolo que sai do forno. O equivalente dos seios que alimentam o bebé ou dos braços que confortam. Na cozinha, faz-se nascer coisas boas que vão aconchegar o estômago e também dar boas sensações à alma. A cozinha é também o equivalente do encontro entre o par amoroso, que sente prazer na concepção e no desfrutar dos filhos que fez nascer.

É riquíssima a multiplicidade de analogias simbólicas associáveis à cozinha, aos cozinhados e ao ato de comer. É por isso que a cozinha é o lugar mais vivido numa casa. O lugar de experiências e de memórias. É fonte de prazer tudo o que é associado a uma boa cozinha, a boas receitas, a cozinhar, à degustação. Um prazer para os cozinheiro que tecem a sua arte e para  os comensais que vão apreciar e saborear.

Mas, perguntemo-nos: como vão as cozinhas em tempo de quarentena? E o relacionamento entre os casais que as ocupam?

Sabemos que a cozinha já não pertence somente às mulheres como em tempos idos. Também os homens comportam a capacidade criadora de fazer nascer de tachos e panelas as ditas coisas boas feitas com amor. Ouvem-se até comentários do senso comum de que, na execução das receitas, os homens são mais metódicos, enquanto as mulheres se mostram mais práticas. Seja como for, a cozinha é democrática, espaço de e para todos. Apesar das diferenças de cada um, e atenção que não é uma questão de diferença de género mas de estilos de pessoas que somos, como encaixamos nós na cozinha com o nosso(a) companheiro(a) de vida familiar? Cada casal tem a sua dinâmica relacional. Será que a forma como encaixam na cozinha fala também da maneira como vivem a sua relação?

Uns entreajudam-se, definindo tarefas específicas, em que um não se mete no que o outro faz. Outros, fazem tudo em conjunto, fluindo assim os afazeres entre conversas. Outros, sobrepõem tarefas, numa confusão onde reina a discussão. Outros ainda,  viram  costas um ao outro, não se ajudando de todo e cruzando-se apenas no vazio de qualquer diálogo. Noutros casais, faz muito um e outro nenhum. Assim, ora temos aqueles que se ajudam numa atitude de complementaridade, ora os outros, que optam por uma atitude de competitividade mútua e agressividade explícita ou latente.

É desejável alimentar uma casa com boa comida, sinónimo de bons afetos. Para tal, precisamos de casais que cooperem e se respeitem nas suas diferenças, de modo a manterem a boa disposição familiar. Rapsodiando os ditados populares, numa casa com  muita discussão e ninguém com razão, sabe mal o pão.

Não é realista a possibilidade de se viver em casal continuamente em perfeita harmonia, pois há dias que correm melhores do que os outros e o nosso humor também sofre oscilações. Ainda assim, podemos tentar manter um equilíbrio nas rotinas da cozinha. Alternar ao longo dos dias: aquele que está na cozinha, contrabalançar a necessidade de o outro poder dar atenção às tarefas profissionais e/ou filhos ou até aproveitar para descansar.  Noutros dias, o casal cozinhar em conjunto e na companhia de um copo de vinho, em modo descontraído e com conversas ligeiras. Haver ainda aqueles dias em que a família inteira, todos juntos, enfia as mãos na massa, sujando as bancadas e contando histórias das suas vidas, a aprenderem uns com os outros,  a rir.

Nesta altura de clausura forçada, é importante esforçarmo-nos por contermos a irritação perante os atropelos e tropeções e as maneiras diferentes de estar na cozinha, bem como tentarmos recuperar e reinventar o prazer de cozinhar. Melhor encaixamos todos uns com os outros quanto melhor nos reinventamos no nosso modo de estar e na relação. Afinal, o ingrediente principal de um bom cozinhado sempre foi o recurso a uns pozinhos amor…